How To Build a Library | 2025

O Quênia, país que abriga, atualmente, cerca de 55 milhões de pessoas, só se tornou independente da coroa britânica em 1963. O país foi, por dois séculos, dominado por Portugal, e após a Conferência de Berlim, em 1885, foi entregue ao Reino Unido num processo de delimitação e distribuição de áreas entre os países europeus. A violência da colonização transformou nações e lugares de características próprias em terra arrasada pela imposição do modo de vida europeu a todo custo. O colonizador devora o colonizado ao ponto de lhe roer o osso em todos os aspectos, econômicos e sociais. Não foi diferente no Quênia. O processo emancipatório de todo um povo, de assumir as rédeas, é um complexo caminho ainda sendo trilhado, haja vista que, da independência aos dias de hoje, foram percorridos pouco mais de 60 anos – tudo é assustadoramente recente.
Nesse contexto, não deveria nos surpreender, portanto, que em meio à sua movimentada capital, Nairóbi, haja uma biblioteca enorme, em arquitetura colonial, nomeada McMillan em homenagem ao colonizador britânico, construída, em sua origem, para utilização exclusiva de pessoas brancas, e guarnecida, basicamente, de obras em língua inglesa de autores homens e brancos. Não deveríamos nos chocar que esse espaço esteja, hoje sob controle do governo queniano, relegado ao descuido estatal, os efeitos da terra arrasada deixada pelos britânicos. How To Build a Library, dirigido por Maia Lekow e Christopher King, vai partir do sonho de duas mulheres, Shiro e Wachuka, de transformar essa biblioteca colonial abandonada em um espaço cultural para as gerações por vir e, que represente, principalmente, uma apropriação do povo africano de um espaço que lhe pertence.
Como descolonizar um espaço feito para uso e proveito exclusivo de pessoas brancas? Como apropriar-se de um lugar cujas raízes são propositalmente segregatórias e racistas? O sonho de Shiro e Wachuka vai além da reforma estrutural: é um sonho de descolonização de toda uma cultura através dos livros que ela tem e terá acesso. How To Build a Library vai registrar desde o nascimento do projeto, em 2017, até suas andanças mais recentes, em 2025, para nos mostrar que o objetivo não se sustenta tão somente pela boa vontade de suas idealizadoras: é necessário entrar na dança política e burocrática exigida pelo capitalismo.
Se não deveríamos, a princípio, nos surpreender pela existência de tal lugar e por sua ruína, é fato que sim, é fácil se deixar levar pelo espanto diante das condições muito precárias da biblioteca em 2017. Maia Lekow e Christopher King evidenciam pilhas e pilhas de livros velhos, mal cuidados, empoeirados, móveis em desuso totalmente desgastados, prateleiras em plena queda seguradas apenas por pedaços de madeira notoriamente instáveis. Os recintos, quando não dominados pela poeira, são tiranizados pela presença de obras de arte, como bustos e adornos, representativas de personalidades colonizadoras, quadros de pinturas de autores britânicos que retratam realidades que não as do Quênia. É admirável a persistência e a visão de futuro de Shiro e Wachuka diante de uma realidade tão desanimadora como a que nos deparamos inicialmente.
How To Build a Library, em uma estrutura protocolar e convencional ao gênero, vai documentar, especialmente, as revitalizações do espaço e os desafios principalmente políticos enfrentados pela dupla de mulheres nessa jornada descolonizadora. O filme vai se ater a trazer, ainda que brevemente, suas histórias individuais e suas percepções pessoais diante de adversidades que, no relance do sonho inicial, elas não imaginavam que enfrentariam. Jantares de gala para angariação de fundos e doações, estratégias políticas para obtenção de financiamento, são etapas do projeto que as fazem questionar a perpetuação da colonização pelos próprios líderes africanos.
Para além dos consideráveis obstáculos orçamentários, How To Build a Library abre-se para nos mostrar discussões que se fundamentam no modo como a ressignificação e reestruturação da arte escrita se dará. É interessante como parece importante que se construa um ambiente democrático, onde todas as opiniões são ouvidas, e a mais significativa das reuniões retratadas trazem à tona questões que, se por um lado, são específicas de uma profissão que obedece a critérios globais de trabalho, por outro, precisa encontrar uma forma de se modelar à necessidade de emancipação africana: a classificação e aquisição de livros pelos bibliotecários.
Há necessidade de se atualizar e modernizar, mas há, primordialmente, a urgência de transformar a antes denominada McMillan Library em uma as biblioteca que valorize com prioridade a cultura queniana e africana, voltada para os quenianos. É sintomático que as próprias idealizadoras do projeto tenham buscado se aprofundar na literatura africana em Londres, já que sua própria terra é deficiente de literatura não europeia. Há 2000 línguas africanas, mas a conclusão dos bibliotecários é que a maior seção é direcionada às obras inglesas. “Não é possível descolonizar se usarmos o sistema do colonizador” é um argumento que resume bem a complexidade das questões a serem superadas.
How To Build a Library perpassa a história do Quênia com imagens e livros através da história da própria biblioteca, como se uma entidade viva e em mutação. É estranho, porém, como parece não saber como encaminhar-se para o fim. Se no decorrer do documentário não há pressa, em sua parte final ele corre afobado, acrescentando elementos que são difíceis, inclusive, de associar ao todo, como, por exemplo, os protestos ocorridos em 2024 contra taxação, ou, ainda, a visita do rei Charles e da rainha Camilla à biblioteca reformada. Passados 08 anos do início da revitalização, a informação de que ainda há um tanto a se fazer, passada rapidamente na tela, é um tanto frustrante para a expectativa que se cria em razão da urgência de um projeto como este, mas faz sentido diante da profundidade de dilemas que, infelizmente, parecem muito longe de terminar.