Adolescência | 2025

Ainda é possível educar?
por Gustavo Rego*
“Não se pode conhecer alguém fazendo perguntas diretas.” Essa fala da psicóloga ajuda a entender a proposta estética e narrativa da série. Na narrativa clássica, a câmera nos aponta o que olhar de forma objetiva e a montagem corta os momentos “desnecessários” e foca nos acontecimentos que formam uma correlação clara de causa e feito. Mas como apontar objetivamente as causas de um homicídio cometido por um adolescente? Gus Van Sant já havia refletido sobre isso em seu genial Elefante (2003), filme que retrata o massacre de Columbine utilizando a estética do fluxo, em que a câmera vagueia pelos ambientes. O choque provocado por Columbine causou uma avalanche de explicações apressadas e simplistas, como, por exemplo, a de que o filme Matrix (1999) teria sido culpado por incentivar os garotos responsáveis pela chacina. Naquele contexto, Van Sant projetou – com seus movimentos de câmera e planos longos – o olhar de quem circula por aquela realidade sem conseguir encontrar uma resposta.
Em Adolescência, cada episódio é gravado em um único plano. Dessa forma, o tempo diegético corresponde exatamente ao tempo do nosso mundo. Nem mesmo quando os personagens estão apenas atravessando o corredor, conversando sobre amenidades, ou colocando cada um dos 10 dedos para a identificação de digital, a câmera economiza o nosso tempo. Afinal, retomando a frase da psicóloga, não se pode compreender questões complexas com respostas simples e diretas.
Mas se Elefante propunha um ceticismo absoluto (expressão perfeita do pós-modernismo dos anos 2000), Adolescência convida o espectador a, ao menos, estabelecer relações. Como os próprios pais do garoto reconhecem, “nós poderíamos ter feito melhor”. Mas é claro que isso não explica totalmente porque o garoto cometeu o homicídio, já que muitas pessoas recebem uma educação muito pior e não se tornam homicidas. Na educação de uma criança ou adolescente, podemos e devemos dar contornos, mas esse ser é um sujeito complexo, suscetível a imponderáveis influências e contingências, além de realizar decisões e possuir desejos próprios.
Essa visão – entre o ceticismo e o determinismo ingênuo – é bem expresso nos diálogos (sugestivos, mas não expositivos), nos planos (em que a câmera se movimenta, mas nunca está totalmente perdida) e na montagem (afinal, cada episódio é um plano sequência, mas há corte entre um episódio e outro).
Dessa forma, ainda que seja obviamente uma série de temática densa, ela não termina da forma desoladora como Elefante. Ao final, o garoto – que até então negava insistentemente o que tinha feito – resolve mudar seu depoimento e reconhecer a culpa, sinal de amadurecimento e responsabilização. O pai, que tentava negar sua própria responsabilidade e suprimir ou fugir de seus próprios sentimentos, termina chorando copiosamente e pedindo desculpas ao filho (simbolizado no ursinho). A família não tenta mais esquivar-se do luto indo ao cinema (quando obviamente não há clima para isso), mas acolhe gentilmente a dor ao mesmo tempo em que tenta seguir desfrutando dos prazeres da vida e da companhia um do outro: um filminho com pipoca em casa mesmo.
Considero muito madura essa visão sobre a educação. Pois ouço muitos adultos dizerem que “não é possível controlar” um adolescente (mais ou menos como quando o pai diz que não seria possível controlar o que o filho via na internet). De fato, nesse mundo complexo e cheio de contingências externas, não é possível ter o controle de tudo, mas não se deve renunciar à educação – cuja base é o diálogo. O exemplo vem de personagens secundários: quando Adam pede ao seu pai (o detetive) para faltar na escola, ele prefere deixar a tarefa de dizer “não” para a mãe. Assim, perde a oportunidade de dialogar com seu filho e descobrir que o mesmo sofria bullying, além de conscientizá-lo sobre sua responsabilidade, é claro. Aliás, a série também mostra que as crianças precisam de acolhimento mas também de limites, afinal, delimitar é também uma forma de cuidar.
Faço um parênteses com um caso real: em 2019, ocorreu um massacre aqui no Brasil (mais exatamente em Suzano) semelhante ao de Columbine. Foi dado muito destaque ao fato de que o assassino sofria bullying e era rejeitado pelas meninas. Muitos chegaram à conclusão de que a causa do crime era a rejeição e exclusão sofrida pelo garoto. De modo algum! Isso seria culpar as vítimas. Semelhante discurso, inclusive, motiva mais crimes de garotos que querem “provar o seu ponto” e receber destaque nos jornais após a sua morte. O que motivou aquele crime (assim como em Adolescência) foi a não aceitação da rejeição. Ou seja, a crença misógina de que todas as mulheres devem estar disponíveis e de que a violência pode trazer respeito, suprindo o vazio deixado pela ausência de amor e afeto.
Nesse sentido, não é injusto que muitas vezes o agressor masculino receba mais atenção do que as vítimas? A própria série poderia enquadrar-se nisso, já que quase não vemos a vítima ou a sua família. Um pequeno metacomentário de “mea culpa” em relação a isso é inserido na fala da detetive quando estão na escola.
Qualquer problema de foco é perdoado considerando não apenas todas as reflexões interessantes citadas acima como a sua relevância num contexto em que o neofascismo cresce entre a juventude baseado numa reação misógina ao feminismo triunfante. Mas, como Adolescência indica, é possível e necessário manter as esperanças – tanto na educação quanto no combate ao fascismo.
*Gustavo Rego é professor de História e Sociologia e criador do canal Cineolho.
**Veja Adolescência aqui.
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