Paloma | 2022

Paloma | 2022

Do conto de fadas à realidade do preconceito no Brasil

Era uma vez uma moça que sonhava em se casar. Ela se chamava Paloma (Kika Sena), tinha seu príncipe encantado chamado Zé (Ridson Reis) e uma pequena princesinha como filha, que atendia pelo nome de Jennifer (Anita de Souza Macedo). Paloma não queria só juntar suas coisas e ir morar junto com seu amado –  prática comumente feita aqui no Brasil e até aceita como casamento –  ela queria véu e grinalda, a benção do padre de sua igreja e uma cerimônia religiosa completa. Até aí tudo bem, Paloma é um nome feminino reconhecido por todos em sua cidade, mas parece que o deslize de ter nascido com um órgão sexual masculino tornara socialmente inaceitável que ela concretizasse seu sonho.

“Pela lei natural de Deus, nós somos homens e mulheres e nos complementamos e geramos nossos descendentes. A igreja decretou essa lei há mais de mil anos. Muita coisa mudou, o mundo mudou muito, mas a igreja não mudou.”

Como uma mulher trans, Paloma enfrenta a dificuldade de conseguir aprovação do padre local para a realização de seu sonhado casamento tradicional. A religiosidade da personagem retrata a de muitos brasileiros que são guiados pela fé, independente de seu sexo ou gênero, todos se sentem genuinamente no direito de receber as bênçãos do Deus que acreditam pela igreja. Zé e Paloma formam um casal estável e amoroso, passeiam juntos, namoram em público, são orgulhosos um do outro. Zé é pedreiro e Paloma faz trabalho braçal de colheita no setor agrícola junto a outras mulheres. Mesmo com as dificuldades financeiras, a falta de tempo em casa para cuidar de sua filha e de passar mais momentos em família, o casal vive em perfeita harmonia. O que os conflita é a importância que cada um dá à cerimônia de matrimônio, enquanto Paloma é sonhadora e bate o pé dizendo que só continua com Zé se eles se casarem na igreja, ele diz não se importar com isso e que lhe basta a felicidade que já têm juntos.

“Quem é que não precisa de um sonho?”

Paloma é inspirado em uma história real que chamou a atenção do diretor Marcelo Gomes, transformando o drama em um conto de fadas brasileiro que tropeça diretamente no preconceito ainda tão latente no país. O longa  foi o grande vencedor da mostra competitiva da Première Brasil do Festival do Rio de 2022, também levou os troféus de Melhor Atriz para Kika Sena, que interpreta a personagem-título –  tornando-a a primeira mulher trans a receber tal premiação –  e o Prêmio Félix, concedido a obras com temática LGBTQIA+. 

Além de expor o preconceito vindo do histórico religioso enraizado em nossa sociedade, Gomes mostra outros tipos de intolerância e como em um estalar de dedos, Paloma, que é tratada com normalidade por quase todos a sua volta, passa a ser julgada e humilhada pelos demais. Sua melhor amiga é espancada até a morte em um bar onde bebiam alegres, comemorando pois Paloma finalmente ia conseguir se casar. Ela é acuada por dois homens em uma minúscula cabine de banheiro. Triste realidade de uma cena tão comum nos noticiários. O número de mortes violentas de pessoas LGBTI+ subiu 33,3% em um ano, um estudo registrou 316 mortes no Brasil em 2021 e 237 em 2020. (leia mais aqui)

Após um padre afastado da igreja aceitar realizar a sonhada cerimônia de Paloma e Zé, uma tv local veicula a matéria sobre o acontecimento, chocando a todos, fazendo com que o sonho de Paloma virasse instantaneamente um pesadelo. Zé, que era assumidamente apaixonado por ela, começou a sentir vergonha da humilhação pública que se tornou estar casado com uma travesti. A partir disso, Paloma só encontrou rejeição e olhares de desprezo em sua cidade. 

A atuação de Kika é fundamental para o engrandecimento de Paloma, uma obra potente, unida a essa força de atuação com uma mensagem direta a favor da normalização de nossas próprias escolhas, ideologias de gênero e liberdades individuais. Essa discussão não poderia ser mais atual e pertinente, assim como a fala de Paloma: “Nasci homem, mas sou mulher”. Quem é o outro para dizer quem é Paloma, além dela mesma? Ela não se cala, não recua e não desiste de si mesma e nem de seu sonho. Sem pudor de mostrar corpos trans nús em cena, gemidos de prazer e desejos genuínos, Paloma progride em crescente amor e fúria, nos arrancando suspiros e belas reflexões. Nossa gata borralheira consegue o que quer, mas o final feliz está longe de chegar e é importante sabermos disto.

 Filme assistido na 46ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2022 

Nota

Para ver toda a nossa cobertura da 46ª Mostra SP, clique aqui

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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One thought on “Paloma | 2022

  1. Estamos doentes do moralismo. Chegamos ao ponto de transformar o amor em ódio na marra, no soco, no chute. Não se ama da forma que se quer, mas da forma que exigem. Paloma é um triste retrato do que vivemos e do que, infelizmente, acontece todos os dias em nosso país. Abaixo ao bolsonazismo! Viva o amor livre!

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