ENTREVISTA: Môa, Raiz Afro Mãe
Môa, Raiz Afro Mãe é um documentário sobre a vida e legado de Môa do Katendê, artista e símbolo de resistência cultural. Revolucionário do carnaval baiano com a ascensão dos blocos afro, Môa foi brutalmente assassinado em outubro de 2018 em Salvador, um dia após a definição do primeiro turno da eleição presidencial.
Estreando nos cinemas brasileiros em 03 de agosto, Môa, Raiz Afro Mãe foi dirigido por Gustavo McNair, com quem o Coletivo Crítico teve o prazer e a alegria de conversar um pouco sobre esse projeto que foi iniciado em 2018, pouco antes do assassinato de Môa, e que ultrapassou tantas barreiras. Confira!
NATÁLIA BOCANERA: “Môa, Raiz Afro Mãe” precisou ultrapassar inúmeras barreiras. O bolsonarismo que culminou no assassinato de Môa, a pandemia, a crise no audiovisual. Podem nos contar um pouco sobre o processo de produção do filme e de resiliência do projeto para que ganhasse toda essa vida?
GUSTAVO MCNAIR: A ideia de fazer o filme nasceu junto com Môa, quando conhecemos ele no início de 2018. Tivemos alguns encontros para conversar sobre o projeto, e principalmente, ouvi-lo contar suas histórias e falar das pessoas que gostaria que participassem. Isso era fevereiro, começo de março. No último desses nossos encontros, gravamos uma entrevista com ele, que acabou sendo sua última entrevista em vida, e que a princípio não era pra entrar no filme, era um material de pré-produção. Logo em seguida, Môa vai pra Europa, onde passaria a maior parte do ano. Nós ficamos estudando, pesquisando e desenvolvendo o projeto do documentário, que inscrevemos em abril num edital do MinC. O resultado do edital era pra sair em junho, mas travou tudo e acabou saindo só em dezembro (ou seja, depois da morte de Môa).
Em outubro, Môa volta para o Brasil, para Salvador, visitar a família e votar. Em seguida, ele voltaria pra São Paulo pra gente começar a produzir o filme (que até então não tinha verba). Ele é assassinado no dia 8 de outubro, madrugada seguinte àquele angustiante primeiro turno.
Com a revolta e o luto um pouco mais assentados, vamos à Salvador conhecer a família, sentir o clima da cidade com a tragédia, e captar alguns depoimentos. Tudo com investimentos próprios da nossa produtora, Kana Filmes.
Como então ainda não tínhamos verba, decidimos lançar uma campanha de financiamento coletivo. No meio da campanha, em dezembro de 2018, às vésperas do Bolsonaro e com 5 meses de atraso, sai o resultado que nosso projeto foi aprovado (em primeiro lugar) no edital.
Cancelamos a campanha de financiamento e ficamos 1 ano esperando para assinar o contrato e a grana cair (só pode começar a produção quando a grana cai).
Mas isso só aconteceu, lembro bem, no dia que foi decretado o lockdown pela pandemia, em março de 2020. Tivemos então que esperar a pandemia baixar, e só conseguimos ir para Salvador rodar o filme de fato em outubro de 2021. Ficamos 20 dias em Salvador, filmando cenas e entrevistas todos os dias, manhã e tarde, com uma equipe local ótima, totalmente imersos no universo que orbitava em volta do Môa. Gastamos quase todo o primeiro semestre de 2022 editando e finalizando o filme para dar tempo de inscrever em editais. Fizemos sua pré-estreia para convidados em outubro de 2022.
Depois disso ele circulou alguns festivais aqui no Brasil e no exterior, e agora volta para estrear nas telas dos cinemas.
Todo o documentário é um processo de imersão que transborda a tela. Mas neste caso, foram 5 anos de muito envolvimento com o assunto, com as pessoas que eram próximas de Môa e tinham sua confiança, apontadas por ele mesmo em vida para nós, e que foram fundamentais nesse tempo todo. Foi um processo transformador, que me ensinou muito e impactou minha forma de pensar o Brasil, e nossa cultura originária.
NATÁLIA BOCANERA: A influência de Môa na cultura e arte brasileira ultrapassa as barreiras da Bahia e da música. Môa é letra, é música, é educação, é artesanato, é capoeira, é candomblé, é Badauê, tudo representado nas ruas. Qual a relação de vocês com esse legado tão rico de Môa?
GUSTAVO MCNAIR: O legado de Môa ilumina múltiplos caminhos de reconexão com a verdadeira riqueza do Brasil, que é a nossa cultura originária, antropofágica, única, só possível aqui. Essa fonte de inspiração e identidade brasileira.
A nossa relação com esse legado era, antes de Môa, de curiosidade, interesse. Eu vinha me questionando porque nos anos 60, com a Tropicália e etc, isso era tão amplamente procurado pelos artistas da MPB como forma de enriquecer suas obras, e de alguma forma foi se perdendo no “mainstream”. Por isso meu interesse imediato no trabalho e ensinamentos de Môa, assim que o conhecemos.
Depois do nosso convívio (físico quando em vida, mas que continua vivo espiritualmente depois de sua passagem) tornou-se uma relação de admiração e absoluta necessidade. Conhecer a fundo nossas raízes culturais é nossa obrigação, e quanto mais conhecemos, mais admiramos e queremos conhecer mais. Espero que o filme contribua para esse acesso afetivo a mais pessoas.
NATÁLIA BOCANERA: A produção do filme foi iniciada durante a vida de Môa. O que motivou esse projeto? Qual foi o impulso dessa homenagem e celebração de Môa?
GUSTAVO MCNAIR: Em pleno desencantamento da ideia de democracia racial, eu, como realizador, estou sempre em busca de personagens que possam expandir as narrativas e nosso conhecimento da história Brasil. E nossa História tem grande parte de sua formação cultural na Bahia, fruto da diáspora Afro-Atlântica que encontrou um Salvador um centro de cultivo da nossa raiz afro mãe, que apesar de imensa é pouco reconhecida em sua legitimidade, muito por culpa do preconceito.
Fiquei totalmente encantado quando conheci Môa, e inspirado por suas histórias e sabedoria. Ao mesmo tempo, confrontei os meus próprios motivos por não conhecê-lo tão bem apesar de sua grandeza e importância. O que motivou o projeto foi um profundo interesse e necessidade de conhecer mais, me aprofundar nesse universo, de contribuir para que isso chegasse a mais pessoas, porque neste momento em que estamos, figuras como Môa, que inspiram e alimentam nossa fome de Brasil, têm um poder transformador, sobre as pessoas e sobre a sociedade.
NATÁLIA BOCANERA: “Môa, Raiz Afro Mãe” me trouxe, particularmente, um sentimento muito empoderador. O filme acende, acredito que com maior intensidade em pessoas negras, uma necessidade de enraizamento ancestral. Vocês acreditam que esse sentimento decorre do que vocês planejaram para o filme ou é algo muito particular dessa aproximação com Môa?
GUSTAVO MCNAIR: Eu acho que todo o trabalho a que Môa dedicou a vida, nas múltiplas manifestações afro-baianas em que atuava, era o de iluminar vários caminhos possíveis de reconexão com uma identidade brasileira, que pode ser comum e abraçar toda a nossa diversidade. Talvez cada um encontre em um desses caminhos uma conexão mais próxima e impactante, porque acredito que esse era o objetivo de Môa, acessar todo mundo.
Não é a toa que o Afoxé Badauê revolucionou o carnaval, porque “diversificou”, ampliou sua aderência, aceitando a participação de brancos e mulheres, cantando letras em português misturadas ao iorubá, trazendo outros ritmos além do ijexá, convocando a cidade para o bairro em seus ensaios…
O vanguardismo de Môa está justamente na sua intenção de acessar mais gente, e de sua visão em perceber o potencial impacto disso no futuro do país.
O disco Raiz Afro Mãe é uma intenção dele nesse sentido também. De trazer suas músicas mais “tradicionais”, calcadas no Ijexá, em versões mais “modernizadas” para acessar mais gente, ou mais jovens… A intenção do filme, no final das contas, é essa também.
NATÁLIA BOCANERA: Apesar de a vida de Môa ter sido brutalmente interrompida, percebe-se que o filme quer celebrá-la e não dá muito espaço aos fatos de 08 de outubro de 2018 e suas assustadoras motivações. Isso foi, de fato, uma decisão de vocês?
GUSTAVO MCNAIR: Foi uma decisão sim.
O filme nasceu para ser uma celebração à vida de Môa. À sua mensagem, que é eterna.
Com a morte, sua imagem se projetou no mundo e foi colocada pela mídia nesse lugar de símbolo político. Mas quem já o conhecia, sabia que ele era muito mais do que isso.
Então depois que nos recuperamos do luto e da revolta com sua morte, voltamos a ter certeza de que o filme tinha, mais do que nunca, se manter celebrando a vida, devolvendo e ajudando a eternizá-lo no lugar da vida, da obra, da sua mensagem que permanece viva e projetando o futuro.
NATÁLIA BOCANERA: Além do filme, foi possível materializar essa herança de Môa também no disco de mesmo nome, que contou com a participação de artistas como Criolo, Rincon Sapiência, Luedji Luna, Chico César, BaianaSystem, Fabiana Cozza. O disco está inserido no filme, o move de certa maneira. Como foi o processo de trabalhar os dois formatos e como se deu o surgimento dessa ideia?
GUSTAVO MCNAIR: O disco e filme são irmãos, caminham juntos porque ambos começaram antes da morte, e foram concluídos depois. Os processos dos dois se misturam, evoluíram juntos ao longo de 4 anos, e se completam. As gravações do disco foram registradas e aparecem no filme, fazem parte desse lugar que mantém Môa vivo e ativo durante a narrativa, e as músicas do disco compõe grande parte da trilha sonora. O produtor Rodrigo Ramos, que produziu o disco, também assina a direção musical do filme.
Nós conhecemos Môa a convite da Mandril Áudio, produtora que gravou e produziu o disco Raiz Afro Mãe. Môa estava começando a gravar as guias das suas músicas, que viriam a compor o disco Raiz Afro Mãe. Eles chamaram a gente para conhecê-lo um dos dias que ele foi lá, e nós passamos a tarde com ele. Saíamos encantados, e combinados de fazer o documentário. Neste dia já marcamos as datas para os encontros que teríamos com ele em fevereiro para falar do filme, que contei na primeira resposta.
Mas o legal é que o filme e o disco são quase o mesmo projeto. A gente conversou e trocou o tempo todo, um influenciou e aprendeu muito com o outro. Isso, do meu lado, foi fundamental pro filme. É essa camada presente que deixa o trabalho de Môa vivo na voz de diversos artistas estrelados da música brasileira. Acho que é um dos discos mais importantes desses últimos anos.
Acompanhe a página da produção para maiores informações sobre o disco Môa, Raiz Afro Mãe, e sobre o documentário, sua programação nos cinemas e apresentações especiais!
Você pode ler nossa crítica sobre o filme aqui.
