Daughter of Genghis | 2024

Como o próprio filme define, a Mongólia é um país pequeno que fica entre dois gigantes, a Rússia e a China. Não chegam até nós muitas notícias da Mongólia, em que pese à sua história possa se atribuir um peso importante à nível mundial, sendo bastante conhecida pela fundação do Império Mongol por Gengis Khan, que travou batalhas contra a China em prol de expansão territorial. Em Daughter of Genghis, dirigido por Kristoffer Juel Poulsen, Christian Als e Knud Brix, acompanhamos a influência que Gengis Khan ainda exerce em determinados grupos, principalmente, nacionalistas. Nesse contexto, acompanhamos Gerel, uma mulher, mãe solo, que, em linhas rápidas, exerce uma vida dupla: quando não está cuidando de seu filho, está frequentando grupos de mulheres da extrema-direita que propagam abertamente ódio aos chineses e vestem-se de suásticas, e que lutam contra a prostituição entrando em casas de massagem violentamente, expondo mulheres sob o pretexto de protegê-las.
Estranheza e incômodo talvez sejam sensações válidas para descrever o que Daughter of Genghis causa, a princípio. Acompanhamos, logo no início, Gerel num contexto de explícita violência. Diante da invasão da casa de massagens, as mulheres expostas em situação de prostiuição reivindicam seus direitos, ao que recebem como resposta: “E prostituição é um direito humano?”. O grupo de mulheres que entendem como justiceiras logo chama a polícia, e tem suas ações aparentemente validadas pelas autoridades.
Recordamos Taxi Driver, de Martin Scorsese. Lembramos, ainda, de Holy Spider, de Ali Abbasi. Ambos são filmes cujos protagonistas carregam um moralismo doentio e perigosíssimo, ávidos por livrar o mundo da escória, limpar as ruas da prostituição e da corrupção. Muito embora haja muitos pontos complicados no filme de Abbasi, as referências aqui mencionadas não deixam margem para tornar heroicos ou validar os atos de seus personagens principais. O filme não coloca, exatamente, Gerel como heroína. Nos traz uma mulher ultra-nacionalista, que fala sobre defender a linhagem pura molgol. Talvez seja correto afirmar que Gerel é abertamente seguidora de propósitos nazistas. E a postura da direção, aqui, mostra-se neutra. Perigosamente neutra.
Daughter of Genghis busca fazer um contraponto entre a Gerel que usa uma bright suástica (que ela diz ser um símbolo roubado pelos alemães) e pertence a um grupo de mulheres unidas pelo discurso de ódio com a mãe viúva que necessita trabalhar para sustentar seu filho pequeno. Gradativamente, percebemos que o lado B da vida dessa mulher, que é o da sobrevivência, a afasta dos movimentos nacionalistas, a colocando na função de fiscal de segurança de trabalho em uma obra em que precisa lidar com pessoas chinesas. Esse é um dualismo muito interessante, que faz refletir, inclusive, como o discurso de ódio, quando afastado da coletividade que o propaga e alimenta, é mais uma ideia sem direcionamento do que um sentimento contra um indivíduo em si.
O perigo, aqui, além da neutralidade diretiva, é a humanização de Gerel. Fica claro que ela jamais abandona o ideal nacionalista e do sangue puro, apenas adapta-se às situações que a vida lhe impõe. Muito embora realmente pareça existir um medo de apagamento e domínio dos mongol diante dos dois gigantes que cercam o país, a falta de maior contextualização política dificulta uma leitura que não seja a de considerar as inúmeras semelhanças com o nazismo. Os diretores mostram a protagonista em situações que causam comoção, como por exemplo, sofrer pela viuvez e chorar no túmulo da mãe que ela não visitava há anos, atribuindo um peso dramático para gerar empatia por uma personagem deveras complicada e, do ponto de vista das leis brasileiras, criminosa. É quase como se o discurso aberto de ódio encontrasse uma justificativa.
Por fim, Daughter of Genghis é um filme interessante do ponto de vista contextual e psicológico, mas adota posturas que assustam quando decide aproximar Gerel de nós com seu sofrimento. Quando achamos que ela se redime de suas práticas, ela mostra que seu ódio está apenas adormecido. O filme não é, por si só, ultranacionalista, mas a narrativa que costura sobre a protagonista acaba por soar incômoda demais.
Essa crítica faz parte da nossa cobertura do CPH:DOX 2024, leia mais aqui