Ângela Diniz: Assassinada e Condenada
Por Carol Ballan
Colocar um título em uma obra comercial é uma arte que busca equilibrar a autoralidade com a possibilidade de uma venda comercial daquele produto. Assim, quando temos uma obra como a nova série original da HBO Max, Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, criada por Andrucha Waddington, é interessante que pensemos em toda a extensão da nomenclatura. Primeiro, é citado o nome da pessoa que deu origem à história, que após o lançamento do podcast Praia dos Ossos (2020) se tornou conhecida nacionalmente muitos anos após a sua morte. Em seguida, no subtítulo, o crime que foi cometido contra ela, o assassinato. E, por fim, uma provocação ao público que a acompanhará pelos episódios da temporada, dada a nossa própria incapacidade de enxergar uma mulher que não se encaixa no estereótipo de vítima perfeita sem em algum momento julgá-la por suas ações.
Seguindo um movimento global voltado à mídia do podcast, O Caso Evandro, quarta temporada do programa Projeto Humanos de Ivan Mizanzuk que foi ao ar em outubro de 2018, se tornou um marco no país sobre como o gênero do true crime seria tratado através de uma ótica que mistura o jornalismo investigativo, reflexões históricas e a auto reflexão ética sobre o próprio gênero. Como foi apresentado pelo criador da série Andrucha Waddington na coletiva de imprensa de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, realizada em 11 de novembro, a pesquisa realizada pela Rádio Novelo para criação do podcast Praia dos Ossos foi um ponto de partida essencial para a criação da série. Tanto pela sua aproximação de muitos personagens historicamente relevantes quanto pela sua extensa pesquisa sobre os pormenores da vida da socialite, parte da abordagem já estava resolvida pelo material que foi disponibilizado por Branca Viana e sua equipe, que visava revistar o caso para questionar a cobertura midiática que transformou o criminoso em vítima. Mas aí entra a mágica do audiovisual de transformar o material escrito em áudio, em imagem, atuação e ainda mais possibilidades para criarmos empatia com as personagens.
A escolha mais acertada para a série foi o casting de Marjorie Estiano para o papel principal como Ângela. A atriz, que amadureceu e já se distanciou brutalmente de suas atuações para novelas televisivas, entrega uma personalidade cheia de nuances que a torna perfeitamente crível pelo espectador. Se acompanhamos com deslumbre sua liberdade de ir e vir, transar com quem bem entende e não aceitar da vida menos do que ela acha que merece, também estamos sempre cercados pelo seu destino trágico, anunciado no primeiro episódio. E, conforme posto pela atriz durante a coletiva de imprensa, passamos a série incomodados com essa representação justamente por termos tão poucas mulheres hedonistas, fictícias ou não, colocadas em tela.
Esse recorte, que ignora uma das questões essenciais sobre qualquer metrópole brasileira que é a desigualdade, também é significativo do universo da personagem e de suas limitações. Há um certo encanto em ver aquele grupo de pessoas (que poderia ter saído de um núcleo rico de novelas de Manoel Carlos) em bailes, com roupas luxuosas e circulando entre capitais sem dificuldades, mas isso também escancara a ausência de indivíduos de fora desse círculo branco e rico na série. Mas, resistindo à tentação de fazer uma concessão histórica e colocar uma das personagens criadas, ou como dito, condensadas, como um elemento representante de qualquer minoria que não seja a feminina, utiliza-se a ausência também como forma de comunicação. Essa mesma técnica é utilizada em relação ao assassinato de Ângela de forma bastante inteligente, evitando criar uma narrativa definitiva sobre um crime que nunca terá direito ao depoimento da assassinada.
Ainda que a obra vá na contramão da espetacularização dos acontecimentos, ainda há elementos que foram pouco abordados na conversa com a imprensa que soam estranhos ao discurso colocado em prática. Por exemplo, escolhe-se mostrar diversos contatos sexuais com mulheres que certamente são pensados como uma representação da sexualidade aberta da protagonista, mas que se adicionados sem pesquisa que os comprove apenas reproduz um estereótipo sobre a bissexualidade. Como esse elemento, novo ao público que conhece algumas das histórias contadas sobre o caso, é colocado sem prévia explicação, ele parece ignorar toda a questão da identidade sexual e de suas particularidades.
Estando em nível muito elevado em relação às outras obras produzidas sobre o mesmo assunto, Ângela Diniz: Assassinada e Condenada é também um marco da produção de ficção sobre o tema com uma visão que não tenta falar apenas sobre o passado e sua permanência histórica, mas ousa questionar os espectadores sobre o presente. Bastará então aos críticos observar a recepção no país para entender se Ângela precisará passar pelo terceiro julgamento para que sua memória seja deixada em paz.
