Karine Teles, a homenageada da Mostra de Cinema de Tiradentes

Karine Teles, a homenageada da Mostra de Cinema de Tiradentes

A atriz Karine Teles, a grande homenageada da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, dona de uma carreira de personagens que ao mesmo tempo que são marcantes são diferentes entre si, vibrou uma energia que não se limitou à homenagem – compareceu às sessões e aproveitou a celebração ao cinema juntamente com seus filhos. A Mostra de Tiradentes oferece um espaço de ampla discussão e abertura para as mais diversas linguagens cinematográficas, e Karine contou um pouco, nesta breve e honesta conversa, sobre o sentimento de ser reconhecida nesse ambiente.

Natália Bocanera: Primeiramente, meus parabéns pela homenagem, Karine, eu imagino que você está processando tudo isso ainda. E, na verdade, quero puxar a primeira pergunta sobre esse tema. Na coletiva de imprensa, você disse que ainda não tinha elaborado tudo que estava acontecendo, você estava muito emotiva e eu fiquei muito emocionada junto contigo. A Karine de agora conseguiu elaborar?  Como está se sentindo?

Karine Teles: Mais ou menos. É legal que isso esteja acontecendo aqui em Tiradentes, nessa mostra que é uma mostra que não está só exibindo filmes e promovendo um concurso de beleza, quem é o melhor. Têm debates, têm encontros, têm fóruns, têm discussões, têm oficinas, as pessoas vêm e tem filme na praça. Tem uma promoção de uma diversidade de linguagens e de possibilidade de se estar nesse meio do audiovisual que me interessa muito. E aí o meu trabalho tá sendo homenageado por esse pensamento, por essa forma de estar no audiovisual que me deixou muito satisfeita no sentido de que “ah que legal, talvez as pessoas me vejam da maneira que eu acredito, que eu me coloco, que eu desejo estar. Nessa coisa de fazer televisão, às vezes as pessoas acham que você é aquela coisa. Tem um lado muito legal do seu trabalho ser mais difundido, mais gente conhece você e tal, mas ao mesmo tempo, também, eu acho que tem uma visão das pessoas que fazem televisão, que é uma visão meio que que bota numa caixinha e não é verdade. Tem uma diversidade enorme também de pensamentos e de atitudes e de histórias nas pessoas que estão na televisão. Então estou bem feliz.

Natália Bocanera: Eu imagino que ser homenageada no auge da sua carreira – melhor dizendo, você está subindo, eu não vou nem falar em auge… Você mencionou ser um caminho tortuoso que você está transitando. Olhando para a Karine do passado, o que que você enxerga? Porque acho que é o movimento que você acaba fazendo, o pensar no que te trouxe até aqui.

Karine Teles: É engraçado que eu não me sinto distante de quando eu comecei nesse sentido. Assim, eu me sinto com a mesma paixão, a mesma dedicação pro trabalho. De fato, o que mudou muito é a quantidade de trabalho que eu tenho e a possibilidade de me manter do meu trabalho, mesmo que eu ainda leve uns sustos. Ainda fico meses sem trabalhar, de vez em quando você fala assim: “Meu Deus, o dinheiro vai acabar”, e aparece um trabalho. Eu não acho que eu esteja estabilizada. Por um lado é bom, mas é cansativo também. Vou fazer quarenta e oito anos esse ano, estou começando a ficar cansada. Mas porque eu comecei muito cedo, comecei com quatorze anos, meu primeiro espetáculo de teatro. Então acho que não é uma coisa que eu consiga me distanciar. Eu olho para trás e me sinto da mesma forma que eu me sentia quando comecei. Hoje eu fico feliz na mesma intensidade, fico ansiosa, fico nervosa, tudo igual, não mudei muito não.

Natália Bocanera: Eu agradeço sua honestidade nesse sentido, porque eu acho que têm pessoas que imaginam que a vida do artista é um negócio inalcançável, que todo mundo está numa numa linha muito estável, enxerga isso com mais glamour do que como um trabalho. 

Karine Teles: Mas é porque o que acaba que as pessoas têm acesso é a pontinha do iceberg. Elas estão vendo a gente estreando o filme, estão vendo a gente tirando foto, botando a roupa no tapete vermelho, que normalmente é emprestada, entendeu, você está ali, alguém te maquiou, alguém te arrumou e sua vida não é aquilo. Aquilo ali é, sei lá, cinco por cento, menos, até dois por cento do trabalho. E as pessoas não conhecem mesmo, acho que é normal que se pense assim, acho que as carreiras são diferentes, tem gente que talvez viva nesse mundo, mas no meu caso é assim.

Natália Bocanera: Teve alguma coisa que você precisou desaprender ao longo de sua carreira?

Karine Teles: Eu ainda estou aprendendo, eu ainda estou desaprendendo, estou desaprendendo a ser cordial, ser simpática, ser doce. Eu acho que eu ainda me prejudico diversas vezes por não querer me colocar, quando eu estou sendo invadida ou quando alguma coisa está me incomodando de alguma forma. Eu ainda tenho dificuldade de me colocar, eu acho que é uma coisa principalmente da minha geração, a gente aprendeu a ser mocinha, a ser doce, ser simpática, ser gentil, sorrir, ser cordial e isso eu tô desaprendendo aos pouquinhos. Fico muito feliz quando eu consigo.

Natália Bocanera: São pequenas vitórias do dia a dia do trabalho, eu entendo muito isso. Eu vou puxar outro gancho da coletiva de imprensa. Eu gostei muito do que você disse no sentido de que já recebeu muitas propostas de Donas Bárbaras, do Que Horas Ela Volta? e que você recusou, porque você também acha muito difícil fazer esse tipo de papel. Por quê?

Karine Teles: Não é só porque é muito difícil, é porque eu já fiz, e fiz num projeto muito legal que foi muito forte, muito marcante, eu acho que se eu começasse a aceitar outros trabalhos nessa mesma discussão ia parecer que eu só sirvo para esse tipo de discussão e eu acho que eu sou um corpo e uma voz que posso servir a muitas discussões. E tudo bem, eu sou uma mulher que tem essa aparência de pessoa branca no Brasil, tenho a pele clara, tenho olho claro, então sou lida como elite, mas eu não sou elite. Então tem um negócio que é confuso e eu acho que a nossa indústria tem uma facilidade muito grande de encaixar as pessoas em gavetas, em modelos e coisas, isso aqui é galã, isso aqui é a vilã, isso aqui é mal, sabe. E eu não quis, e não é pela dificuldade, a dificuldade me interessa, trabalhos

que apresentam personagens são difíceis de fazer eu vou sempre aceitar, foi porque eu achei que talvez eu fosse ficar marcada e isso fosse me impedir de fazer outras coisas.

Entrevista realizada em 27 de janeiro de 2026, no Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes – MG.

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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