Entrevista: Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, com Janaína Marques, Verônica Cavalcanti e Luciana Souza
O longa Fiz um Foguete Esperando que Você Vinha, dirigido por Janaína Marques, que estreou na Mostra Fórum da 76ª Berlinale, transforma ausência em matéria-prima poética para falar de afeto, memória e reconstrução. Em entrevista, a realizadora e atrizes Verônica Cavalcanti e Luciana Souza detalham como a narrativa parte da relação entre mãe e filha para discutir temas mais amplos, como identidade, ancestralidade e liberdade feminina.
Longe de se restringir a um drama familiar convencional, o filme propõe uma travessia interna. A protagonista revisita lembranças, reelabora traumas e recria simbolicamente a figura materna como forma de cura. Entre imaginação e realidade, a obra constrói um território sensível onde o reencontro não se limita ao outro, mas se revela, sobretudo, como um processo de auto reconciliação.
Leia a crítica do filme aqui, e confira como foi esse bate-papo no Berlinale Palast:
Natália Bocanera: Talvez a principal dimensão desse filme seja a maternidade, a relação entre mãe e filha. É uma maternidade que não é julgada, muito embora exista o contexto de mãe ausente. Qual é, para vocês, a importância de trazer esse retrato materno para as telas, qual foi a ideia dessa construção?
Janaína Marques: Na verdade ela não é julgada porque o território que a Rosa cria no filme é um território de liberdade, porque ela precisa desse território de liberdade para se libertar de toda a dor e do trauma que ela carrega. Mas a partir do momento que essa mãe, em algum momento da vida da Rosa, precisa se afastar, a Rosa recebe muitos julgamentos e muitos julgamentos relacionados à mãe por um universo masculino, porque ela convive com o pai. Então, essa mãe é julgada nesse processo. O que a Rosa carrega junto ao trauma são esses julgamentos. São esses preconceitos. E basicamente o que ela precisa se libertar é disso. E esse território livre é um território onde ela encontra o feminino, onde ela encontra a ancestralidade, onde ela encontra a sororidade, é onde ela encontra a cura, essa essa jornada terapêutica. E é nesse sentido que Rosa se libera.
Por detrás desse dessa mãe, não existe só a figura materna, não é um filme basicamente sobre a criação. É um filme sobre uma reconciliação, mas muito mais do que uma reconciliação entre filha e mãe, é uma reconciliação consigo mesma. É de se encontrar com a sua própria essência. E nesse sentido, quando uma mulher se reencontra, ela está efetivamente conectada a muitas outras, a todas as outras mulheres de alguma maneira.

Natália Bocanera: O que eu acho mais incrível é que a mãe é uma personagem que teoricamente ela não está ali, está presente o contexto de imaginação. A mãe chega a exalar mais mais vida do que a filha que está viva nesse contexto. Eu acho que são personagens que se complementam.
Verônica Cavalcanti: Eu acho que num determinado momento da vida de Rosa, ela tem essa necessidade de fazer esse resgate, e ela atua numa liberdade de criar essa mãe de acordo com o que ela está precisando, que essa mãe impulsione-a a uma outra forma de vida, que quebre as suas inquietações, que quebre esse trauma que ela tinha, antigo, por julgamento, que passe por cima de tudo isso. Eu acho que é um momento da vida dela em que, através desse código mental do filme, ela tem liberdade para fazer isso. Ela recria essa mãe, assim, perfeita. Claro, na trajetória do filme tem todos os embates, mas é disso que ela está precisando também, desses embates para que ela renasça. Ela é uma mãe, é uma amiga. Eu acho que o filme fala da questão da sororidade, está falando de mulheres, até porque a mãe tem uma história de superação que serve de alimento para ela superar o que a está travando, está provocando essa inquietação.
Luciana Souza: É interessante que a personagem da mãe não está ali, ou só está ali de uma forma utópica, mas a personagem está, a atriz está. Há um certo esquecimento que é utopia, porque é a vivência da nossa realidade, da nossa história, a gente está representando a história de muitas mulheres. Isso me leva a buscar uma força para a construção dessa personalidade. A gente entende, sobra na nossa ancestralidade. Esse encontro nosso, essa convivência, que foi depois que a gente passou pelo processo de preparação que foi virtual, esse momento de filmagem é que vai nos fazendo descobrir como é esse personagem. Na verdade, ao ver o filme é que cai a ficha e a gente fala assim: “Ah, é esse personagem”. É um processo louco isso. É o processo louco de você ter contato primeiro com a história, você lê, você ouve, você conversa, você se prepara, você filma. Acontecem muitas coisas, a paisagem do Ceará que é incrível, os lugares que nós passamos, tudo isso vai nos dando elementos, vai compondo a nossa corporeidade. Mas só depois que a gente vê o filme e depois que a gente tem essas conversas, é que vamos dando outras construções, outras realidades sobre a história, sobre as personagens.
Natália Bocanera: Vocês tiveram um processo de preparo virtual?
Janaína Marques: É, esse filme foi filmado na pandemia. Então era muito desafiador. A gente tinha que seguir inúmeros protocolos, tinha as limitações relacionadas ao edital, o mundo estava vivendo um momento muito sombrio, cheio de sofrimento. Esse filme surgiu para ser uma luz de alguma maneira e veio trazendo muito afeto. Eu acho que é um afeto que também está na tela. É um filme que fala sobre afeto. A gente precisou tomar muito cuidado, com a utilização de máscaras, protocolos. É um cinema independente raiz, tanto é que a gente só está lançando agora. A gente seguiu à risca todos esses protocolos e estamos aqui.
Natália Bocanera: O afeto está na tela sim! Eu fico impressionada com a forma como vocês duas (atrizes) trabalham, existe uma estranheza entre as personagens e ao mesmo tempo elas estão se conhecendo naquele imaginário.
Janaína Marques: O que é mentira e o que é verdade? Rosa teve contato com a mãe quando criança, até os oito anos. O que você carrega de lembrança? Dalva ficou ausente. Dalva teve os amores que a gente vê no filme. Dalva é esse espírito anárquico, livre, que vive sem pedir permissão a ninguém. Rosa é essa personagem que sempre buscou viver corretamente, dentro dos padrões sociais. O choque entre a coragem e o medo, a opressão e o desejo, o prazer e a culpa, nessa fusão entre as duas personagens uma incorpora a outra, Rosa se liberta e se liberta por todas essas camadas, da ancestralidade, da sororidade, da imaginação. A imaginação cura, a fantasia cura. São todos esses elementos que ela se agarra para construir esse território de liberdade e poder viver e tudo isso. Tudo isso é amor, é afeto. Então, eu acho que o afeto vem da aí.
Luciana Souza: A busca dela também é uma busca interna, porque ela entra na máquina de ressonância e é lá que ela vivencia tudo. É tudo um mergulho em si mesma para buscar essa essa liberdade, essa libertação.
Verônica Cavalcanti: Vai escanear por dentro e aí se encontra.
Natália Bocanera: É uma personagem adulta imaginando tudo isso, então ela se permite talvez ser criança naquele momento
Verônica Cavalcanti: É o momento de ela viver tudo com essa mãe.
Janaína Marques: É louco porque a gente nasce e herda já tantos comportamentos, tantas questões sociais que já são entregues a você, é uma religião que passa de um pai para um filho, ou um comportamento, a educação que você recebe, o sistema, como tem que ser sua relação, com quem você tem que se relacionar, com que roupa você tem que sair. De alguma maneira, os corpos, especialmente os femininos, logicamente, vão sendo moldados, vão sendo aprisionados, vão sendo essas imposições e nunca ninguém te pergunta: “Você está confortável? Você está bem? Tudo bem você receber tudo isso?” Rosa se vê nesse momento, viveu metade da vida e não está nada confortável com tudo isso que lhe foi imposto. Ela precisa se libertar. E para isso, ela se dá conta de que não é capaz de ter uma uma lembrança feliz. Nessa jornada que ela faz, onde ela precisa criar esses territórios, de alguma maneira se reinventar, colocando seus obstáculos, coisas que tão ali na imaginação e reconstruindo uma nova narrativa para ela, para chegar a uma lembrança feliz. E essa lembrança feliz vai estar aonde? Na infância? Nesse território livre, os corpos se transfiguram. Tudo respira liberdade na tela. Quando você deixa de ver uma pessoa, qual é a imagem que você carrega dela? Qual é a cara? É do último dia que você a viu? Como é isso? Todas essas transfigurações, o que a gente busca é jogar a potência da imaginação como uma forte aliada de cura para a vida de uma mulher.
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