Futuro Futuro | 2025

Futuro Futuro | 2025

É inegável o quanto a inteligência artificial vem alterando nossas vidas nos últimos anos. Como professor de Filosofia do ensino médio na rede pública paranaense, lido com esse dilema constantemente. Incontáveis foram as vezes em que presenciei estudantes recorrendo a IA para responder uma questão filosófica íntima. Na insistência para que me diga sua opinião e angústias sobre tal assunto, esse aluno entra em colapso, quase como se fosse impossível pensar. Há, ainda, uma indignação pelo fato de eu não aceitar a resposta pronta e “certa” como está ali. Ao que me parece, pensar já não é mais importante. Que futuro nos aguarda?

Se não houver uma desaceleração no desenvolvimento desses sistemas, não teremos tempo hábil para pensar suas consequências éticas e cognitivas. Uma juventude que se abstém do pensamento se torna massa de manobra capitalista, onde se dissolve a consciência de classe, o engajamento político, e, até mesmo, a capacidade de estabelecer relações de causalidade. Memória e tempo já vêm sendo reorganizados de maneiras que dificilmente inspiram otimismo.

Davi Pretto parte dessas questões e seus sintomas para imaginar a distopia de Futuro Futuro. Um personagem como K (Zé Maria Pescador), andarilho sem identidade e que carrega como lembrança apenas imagens artificiais construídas por uma máquina, é sintomático do contexto que vivemos hoje.

Em um futuro não muito distante, onde a máquina tomou o lugar do ser humano em quase todas as tarefas, uma cidade brasileira rasgada pela divisão social é o cenário do filme. De um lado ficam os ricos, de outro os pobres. Estes que não foram agraciados pelas tecnologias e tiveram seus empregos extintos, precisam achar meios de sobrevivência todos os dias. Falta água e luz quando chove (e a chuva é constante). Um drone despeja comida embalada no quintal numa quantidade nitidamente insuficiente. 

O clima melancólico se forma muito pela maneira como Pretto coloca seus atores em cena, sempre de forma minimalista, como se estivessem desorientados diante do que acontece, sob a melancólica chuva. K aparece em uma escola abandonada, arromba uma porta e encontra o estranho aparelho que lhe colocará memórias na cabeça vaga. Quando descobre que ali existem outras pessoas como ele, que carecem de si mesmos, sente-se atraído e passa a frequentar aquele espaço que se revela como as ruínas de uma sala de aula, metafórica e fisicamente.

É ali que Joana (Carlota Joaquina), uma resistente professora, ainda insiste em trazer consciência a seus alunos, todos adultos, alguns já idosos, todos que foram colocados de lado pela sociedade e precisam de estímulos para se lembrarem de quem são. K é acolhido por um deles, Silvio (João Carlos Castanha), um senhor de 60 anos que, mesmo muito pobre, divide tudo com aquele estranho forasteiro. 

Enquanto interage com aquelas pessoas de poucas esperanças, K vive seu conflito interior. Os flashes que chegam a sua memória são de imagens distorcidas, mas que remetem ao outro lado da cidade, o dos abastados. Então, passa a acreditar que veio de lá e precisa retornar. Futuro Futuro segue, então, essa cambaleante jornada por um caminho incerto.

Mesmo eficiente na construção do mistério, a cautela usada por Pretto acaba arrastando a história por lados cada vez menos interessantes. A evolução do personagem principal é dada passo por passo, lentamente, formando simbologias que não lhe trazem profundidade, mas reforçam uma monotonia desmedida e nos distanciam de qualquer representação mimética.

Quando finalmente K chega ao outro lado da cidade, o diretor não o coloca como clímax da narrativa, onde ele descobriria suas origens, mas esse momento funciona como mais uma construção simbólica. Seria ele um reflexo dessa juventude que se anestesia cada vez mais? Um sujeito que não sabe a que lado pertence, ou sequer se as imagens de sua memória são realmente suas, encarna essa frágil identidade que se constrói na era da IA.

O verdadeiro terror da distopia construída em Futuro Futuro não é propriamente uma revolta das máquinas, mas as consequências de uma sociedade que vê o pensamento cada vez mais desnecessário. O futuro que nos aguarda é, nesse sentido, realmente assustador, porém a escola deve permanecer como um espaço de resistência, e é por isso que nós professores ainda insistimos.

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