A Última Casa | 2026

A Última Casa | 2026

É, no mínimo, de um interessante caldo de cultura que emerge A Última Casa, mais novo filme dirigido por Louis Leterrier e roteirizado por Mathew Robinson. Enquanto o último filme de Leterrier foi Velozes e Furiosos 10, franquia clássica do cinema de ação, Robinson roteirizou “Boa Sorte, Divirta-se, não morra”, uma mistura entre comédia e ficção científica que teve sua estreia no Fantastic Festival, em Austin (EUA) e sua estreia europeia no prestigiado Festival Internacional de Cinema de Berlim em 2026. 

Para também fazer parte da “curiosa mistura” entra o par de protagonistas do longa-metragem: Wagner Moura, ator brasileiro que este ano concorreu ao Oscar e que em 2025 ganhou o prêmio de melhor atuação em Cannes por sua atuação em O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, que concorreu também ao prêmio de Melhor Filme; e Greta Lee, atriz que em 2023 protagonizou o excelente Vidas Passadas dirigido por Céline Song, cujo sucesso deu-lhe grande reconhecimento internacional.

Este amálgama, contudo, não rendeu bons frutos. A última Casa é um filme “desencaixado”, suas partes não se comunicam harmonicamente, e, ademais, do ponto de vista estrutural, parece não decidir qual rumo tomar: se foca na relação familiar ou se assume um filme de ação, com ataques de monstros/alienígenas e afins.

Sua premissa, em si, se mostra interessante e conectada a uma memória traumática e recente que a população mundial viveu: o isolamento social provocado pela pandemia do Coronavírus. 

No longa-metragem, Jason (Wagner Moura) e Ann (Greta Lee) vivem tranquilamente com seus filhos Ruth (Riley Chung e Emma Ho) e Graham (Noah Sosnowski e Gabriel Chung) em um bairro tipicamente ianque quando, misteriosamente, durante uma chuva, eles veem-se presos em sua casa (cujos danos estruturais são visíveis e preocupantes), trancados pelas portas e janelas. Para além disso, perdem a conexão com a internet e outras formas de se comunicar com o mundo exterior, tendo como única opção conversar com os vizinhos mais próximos (que estão na mesma situação) a partir da escrita.

 Como já mencionado, tem-se uma referência bastante explícita à pandemia do Coronavírus, que poderia ser desenvolvida de formas mais interessantes, mas a direção optou por se valer de uma edição cuja quantidade enorme de cortes atordoam o espectador (sobretudo na primeira parte do filme), bem como de uma sucessão de diálogos didáticos e rasos que chegam a constranger, que culminam em conclusões como a de que aquele fenômeno “não é humano”.

No que concerne à construção dos personagens, se estabelecem premissas estanques, sobretudo no que diz respeito à Ann e Jason: enquanto ela é uma “fortaleza” e mantém suas atividades no interior da casa, Jason a todo momento reforça um papel de “provedor”, um engenheiro “à la professor Pardal”, que constrói armadilhas para capturar animais e que tem seu papel direcionado para fora da casa, “legitimado” a partir do que passa a ser um “mantra”: irá proteger a todo custo sua família daquele mal que os assola.

Neste contexto, o roteiro de Robinson parece não ter convicção se o foco será a convivência forçada entre os entes da família, com todos os medos e dificuldades que a situação extraordinária provoca, ou se irá enfatizar a ameaça externa em si. Ao não decidir, o foco se perde totalmente.

Quando A Última Casa passa a tratar mais frontalmente o problema mais difícil de resolver naquela situação: a falta de comida e o mal-estar de ordem psicológica que a fome passa a trazer para a família, o roteiro dá um salto de cinco anos nos acontecimentos da trama, de maneira abrupta, mas que demarca bem o que é o início da segunda parte do filme.

Tal passagem do tempo, mesmo que não faça surgir diferentes características nos personagens (agora as crianças já se tornaram adolescentes) ou dilemas familiares distintos, faz com que se perceba o quão adaptados os moradores da casa estão diante daquele nefasto cenário. É digno de destaque o trabalho da direção de arte, já que o interior da casa é completamente alterado para tornar-se em parte uma horta e noutra parte uma oficina mecânica em que Jason, de forma hábil, constrói suas armadilhas e, até mesmo, um carro.  

É nessa segunda parte que a verve de Leterrier se mostra mais claramente e a obra busca assumir-se como filme de ação, cujas cenas, ainda que bem construídas, decepcionantemente, não empolgam. 

A criação deste frenesi, que envolve inundações, invasão de monstros e o ataque de um furão, direciona a trama para um caminho muito claro (e facilmente antecipado até mesmo pelo espectador desatento): a necessidade de se buscar alguma forma de saída. 

Ainda que seja construída esta profusão de acontecimentos que levam à ação e ao fantasioso, deve-se fazer referência ao grau de desapontamento que se chega ao perceber o fato que leva a essa saída. 

Um furão, que adentra a casa, morde Ruth, o que lhe gera uma infecção que necessita rapidamente de um antibiótico. Sim, a grande missão final da família é invadir a casa dos vizinhos dentistas (falecidos há muito tempo), conseguir achar o medicamento que teria o condão de salvar a filha do casal. De forma concreta, o roteiro faz com que o mais próximo da morte que alguém da família chegue durante o longa-metragem, não seja em virtude dos monstros ameaçadores, mas um ferimento no dedo.

É necessário pontuar que, mesmo sabendo que é um filme ficcional, fantasioso, ainda assim, algumas premissas fáticas são extremamente difíceis de “se engolir”; a ideia de que Ann, mesmo diante de uma grande inundação, consegue invadir a casa dos vizinhos, achar o medicamento certo em meio a um cenário caótico e, ao final, aquele medicamento há anos exposto a intempéries, funciona perfeitamente a ponto de curar Ruth quase que instantaneamente, é demais para qualquer um, assim como é custoso demais de acreditar que, aquela casa, desde o início “condenada” por seus problemas estruturais, conseguiu resistir ao cenário de chuvas, ataques por monstros e inundações.

Assim, ainda que Greta Lee e Wagner Moura tenham atuações razoáveis, são absolutamente sabotados por todo o restante da produção. Leterrier, com sua expertise em filmar ação, também tenta trazer a trama para a sua “área de segurança”, mas nada é o suficiente para salvar o filme da inundação de equívocos.

Author

  • O representante do Pará no Coletivo Crítico que, entre o doutorado em Direito e os jogos do Paysandu, não dispensa uma pipoca para comer, uma Coca Cola gelada para beber e um bom filme para ver.

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