Não Existe Almoço Grátis | 2023
A expressão “não existe almoço grátis” é bastante conhecida na Economia e parte de uma ideia simples: aquilo que parece gratuito sempre envolve algum custo oculto. Alguém pagou pelo almoço, cortou, cozinhou, temperou, serviu, ainda que todo esse trabalho permaneça invisível para quem se senta à mesa. No documentário de Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, porém, a frase ganha contornos sociais que norteiam a narrativa. É nessa condição que o título encontra uma perspicaz ironia para analisar o cenário político brasileiro de 2022/23.
Após quatro anos sob um governo de extrema direita, o primeiro dia de janeiro de 2023 tornou-se símbolo da esperança para muitos movimentos populares do Brasil. Pela terceira vez, Lula subiria a rampa do Planalto como presidente, o que representaria, no mínimo, um olhar empático às lutas contra as desigualdades no país. Mas, por trás desse grande evento, seguido por uma multidão em êxtase e televisionado por inúmeras emissoras, existem pequenas ações que o estruturam e também evidenciam o otimismo de um povo calejado.
Não Existe Almoço Grátis acompanha os dias que antecedem a posse de Lula pela visão de três mulheres negras: Socorro, Jurailde e Bizza, líderes de uma cozinha solidária do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto na maior favela brasileira, o Sol Nascente, em Brasília. Elas e outras companheiras ficam responsáveis por preparar cerca de mil refeições para as pessoas esperadas para o evento. São marmitas gratuitas, mas que carregam suas histórias de resistência.
Suas vidas se cruzam no amor por cozinhar e, principalmente, na luta por moradia. Nepomuceno e Charbel intercalam o acompanhamento de suas rotinas – entre conhecer o local de trabalho para o dia especial (a cozinha de uma escola pública), decidir sobre o cardápio e embalagens, escolher e preparar os alimentos – com breves depoimentos.
Os diretores apresentam essas conexões a partir de questões de classe, gênero e raça. São mulheres independentes e fortes que já criaram seus filhos e agora calculam seus próprios planos de vida e pretendem manter o serviço à comunidade, construir suas casas e ajudar outros companheiros, estudar e mudar suas realidades.
O ambiente que as cerca, vez ou outra cercado por adesivos de “Bolsonaro 22”, passa a ser tomado pela cor vermelha e pelas bandeiras de movimentos sociais. Pessoas se encontram na rua e gritam em comemoração! Socorro até relata o medo de participar da posse, mas, ao mesmo tempo, diz que não há outra coisa a ser feita, como se a esperança lhe fosse um sentimento muito maior. As cozinheiras são contidas e receosas porque estão ali fazendo um trabalho importante, entretanto, acabam se entregando à festa com explosões de euforia, com direito à cantoria e danças.
Quando Não Existe Almoço Grátis simplesmente observa suas ações, acompanhando os passos das personagens sem esmiuçá-los, acaba dizendo mais do que quando foca nas entrevistas de abordagem clássica. São situações que acabam reforçando mensagens que já estavam presentes em rimas visuais, enquadramentos e na espontaneidade das três. A escolha por não tratar de grandes investigações é a mais acertada, mas, ainda assim, não se vê tão segura. Os breves depoimentos querem atender a essa expectativa, mas acabam quebrando o ritmo natural do movimento de suas personagens.
Por fim, o almoço de graça não se resume à lógica econômica que dá origem à expressão, mas sim sobre as vidas que ali se encheram de esperança e encontraram no trabalho voluntário o sentido para a construção de um novo futuro. Não se trata de quem pagou, mas das pessoas que distribuem sua força em uma missão comunitária. Os anseios individuais de Socorro, Jurailde e Bizza são indissociáveis de suas histórias de luta de classe, raça e gênero. Talvez a maior ironia do título esteja aí: para que a refeição chegue à mesa, são necessárias pequenas ações que, juntas, fazem do “custo individual” a força coletiva.
