Rescue | 2026
Cobertura do TIFF (Festival de Toronto 2026), por Carol Ballan
Título Original: Rescue
Direção: Sine Plambech
Roteiro: Sine Plambech e Janus Metz
Elenco principal: Hani Ghaleb Othman Al-Shehab, Nejma, Rawa Mohammed Hazaea Ahmed Qasem
Duração: 90 min (1h30min)
País: Dinamarca, Itália, Alemanha, Suécia, Islândia
Existem muitas questões de migração entre países da África e Europa que são quase invisíveis para um cidadão médio brasileiro, que acompanha apenas as grandes notícias dos jornais. Assim, serão raras as pessoas que, se perguntadas, saberão falar sobre o que acontece na Líbia neste exato momento. Construir um documentário que não apenas explique os fatos, mas sensibilize o espectador, é uma tarefa árdua, mas a diretora Sine Plambech se mostra à altura deste desafio.
Rescue lida com os conflitos entre ONGs e a Guarda Costeira da Líbia, justamente pelo país ser parte de uma das principais rotas de migração locais. Por conta do transporte instável, muitas vezes as pessoas acabam caindo no mar e se não são resgatadas, podem morrer ali mesmo. Começamos o filme acompanhando um desses resgates, feito pelos Médicos Sem Fronteiras a partir do navio Geo Barents. Vamos compreendendo todo esse fluxo migratório a partir do relato dos homens que são resgatados, mas também vemos um problema pessoal começar a se desenrolar: Hani foi separado de sua esposa Roro, que permaneceu em outro barco e foi interceptada pela guarda da Líbia, sendo levada para uma prisão no país junto aos seus dois filhos, um deles ainda um bebê de colo.
Pensando em como se desenvolve a gravação de um documentário, é ali que Plambech encontra o seu protagonista. A obra ainda segue por um tempo focada na operação dos Médicos Sem Fronteiras, com algumas outras histórias sendo introduzidas, que nos ajudam a compreender os mecanismos da União Europeia para tentar parar os seus esforços, dada a crescente de políticas impeditivas à imigração na região. Mas, aos poucos, acaba focando cada vez mais em compreender a história desse casal e, possivelmente por uma mistura entre sorte e competência, encontra um exemplo perfeito de todo esse sistema falho para apresentar a situação para os espectadores. Lidamos com mais um daqueles casos no qual, se a história se tornasse uma obra de ficção, seu roteiro seria criticado por muitos como exageradamente melodramático. Mas, como se trata apenas do retrato dessas vidas, percebemos que, infelizmente, existem pessoas cuja história é excessivamente melodramática.
Como crítica curiosa, é inevitável não pensar na quantidade de material que possivelmente foi captado para conseguir criar a obra finalizada. Com uma montagem quase imperceptível, vamos acompanhando os personagens apresentados por um longo período de tempo e compreendendo todos os pontos chave da narrativa, que vão desde a negação dos direitos humanos básicos nas prisões líbias até detalhes da vida dos imigrantes na Europa, como a necessidade de tentar tornar a sua aparência mais europeia. Misturando cenas que foram gravadas pelo celular com captação de eventos e pequenas entrevistas, temos o efeito de compreensão de, como uma coisa que poderia ser apenas uma notícia, na verdade esconde todas essas histórias de vida que estão envolvidas. É uma espécie de trabalho anticapitalista de devolver a dignidade e o direito à existência de vítimas que poderiam facilmente se tornar um número na cabeça de quem assiste.
O formato do documentário é muito bem utilizado, com o resultado impactante sendo impossível de ignorar e de não gerar uma indignação. É claro que o documentário pode ser utilizado de diversas maneiras, mas aqui ele funciona como uma ferramenta política muito eficiente, sem nunca permitir que aqueles personagens em tela se tornem infames, mesmo que seja óbvio que eles passaram por situações extremamente degradantes.
English Version (tradução por Renata Torres)
Rescue | 2026
Original Title: Rescue
Director: Sine Plambech
Writers: Sine Plambech and Janus Metz
Cast: Hani Ghaleb Othman Al-Shehab, Nejma, Rawa Mohammed Hazaea Ahmed Qasem
Runtime: 90 min (1h 30min)
There are many migration issues involving African and European countries that remain almost invisible to the average Brazilian citizen, who follows only major news headlines. Consequently, few people, if asked, could speak about what is happening in Libya at this very moment. Creating a documentary that not only explains the facts but also fosters empathy in the viewer is a daunting task, yet director Sine Plambech proves herself up to the challenge.
Rescue addresses the conflicts between NGOs and the Libyan Coast Guard, stemming from the fact that the country lies on one of the region’s primary migration routes. Due to precarious transport conditions, people often fall into the sea; if not rescued, they risk perishing right there. The film opens by following one such rescue operation conducted by Doctors Without Borders (Médecins Sans Frontières) from the ship Geo Barents. We begin to understand the dynamics of this migration flow through the accounts of the men being rescued, while simultaneously witnessing a personal crisis unfold: Hani has been separated from his wife, Roro. She remained on a different boat that was intercepted by the Libyan guard, resulting in her and their two children, one of whom is an infant, being taken to a prison in the country.
In terms of the documentary’s production process, this is the moment Plambech finds her protagonist. The film continues to focus on the Doctors Without Borders operation for a time, introducing other stories that help us understand the mechanisms the European Union employs to hinder these efforts, amidst a rise in policies designed to restrict immigration in the region. Yet, gradually, the focus shifts increasingly toward understanding this couple’s story; through a blend of luck and skill, the filmmakers find a perfect example of this flawed system to illustrate the situation for the audience. We are dealing with one of those cases where, were the story a work of fiction, the script would likely be criticized by many as overly melodramatic. However, as this is a portrait of real lives, we realize that there are, unfortunately, people whose actual stories are excessively dramatic.
As an inquisitive critic, one cannot help but wonder about the sheer volume of footage captured to create the finished work. Through nearly seamless editing, we follow the characters over an extended period, grasping key narrative points — from the denial of basic human rights in Libyan prisons to the nuances of immigrant life in Europe, such as the urge to adopt a more European appearance. By blending mobile phone footage with event coverage and brief interviews, the film reveals how a story that might otherwise be just a news headline actually conceals a multitude of deeply personal life stories. It serves as a form of anti-capitalist work, restoring dignity and the right to exist to victims who could easily have been reduced to mere statistics in the viewer’s mind.
The documentary format is employed masterfully, yielding a powerful result that is impossible to ignore or view without feeling a sense of outrage. While documentaries can serve many purposes, here it functions as a highly effective political tool, never allowing the subjects on screen to become objects of pity or infamy, even though it is evident they have endured deeply degrading circumstances.
