Entrevista | 20ª CineBH | Raquel Hallak
O que é e o que pode vir a ser o cinema latino-americano? Em celebração aos 20 anos da CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, nossa editora e crítica de cinema Natália Bocanera entrevista a diretora geral do evento e diretora da Universo Produção, Raquel Hallak. Um diálogo sobre política cultural, preservação da memória, sobre o protagonismo de artistas como Conceição Evaristo e Paz Encina, e a resistência do cinema como ato coletivo e de ocupação da cidade.
Natália Bocanera: Alcançar 20 edições é um marco de maturidade cultural. Olhando para a trajetória do festival, como você avalia a consolidação da CineBH como a principal plataforma de conexão e visibilidade dos cinemas latino-americanos no Brasil?
Raquel Hallak: Avalio essa consolidação como resultado de um trabalho contínuo, construído ao longo de 20 edições, que assumiu o cinema latino-americano não apenas como um recorte de programação, mas como o centro de um projeto curatorial, cultural e político. A CineBH criou no Brasil um espaço permanente de encontro entre cinematografias que, apesar da proximidade geográfica e das muitas experiências históricas compartilhadas, ainda circulam pouco entre nossos países.
A singularidade da CineBH está justamente em reunir, em um mesmo ambiente, exibição, reflexão, formação e articulação profissional. Não se trata apenas de apresentar filmes latino-americanos ao público brasileiro, mas de aproximar realizadores, produtores, curadores, críticos, pesquisadores, festivais, instituições e agentes do mercado, criando relações que continuam para além dos dias do evento.
Essa atuação ganhou ainda mais dimensão com a criação do Brasil CineMundi, há 17 anos. Ao integrar uma mostra de cinema a um encontro internacional de coprodução, construímos uma plataforma capaz de acompanhar o cinema em diferentes momentos: desde o desenvolvimento dos projetos até a realização, a estreia, a circulação e o encontro com o público. Assim, damos visibilidade às obras que já existem e contribuímos para que novos filmes encontrem parceiros e possam começar a existir.
A 20ª edição confirmou a força dessa construção ao reunir 102 filmes de 13 países e 18 estados brasileiros, além de mais de 200 profissionais de 15 países. Mas a consolidação da CineBH não se traduz apenas em números. Ela está na confiança conquistada, na continuidade das redes criadas e no reconhecimento da Mostra como um território de diálogo, cooperação e visibilidade para a diversidade dos cinemas latino-americanos. É uma posição construída com permanência, escuta e capacidade de conectar pessoas, culturas, territórios e diferentes perspectivas de futuro para o cinema.
Natália Bocanera: A temática escolhida para este ano fez uma provocação direta: “Cinema latino-americano: o que será?”. Para você, qual seria a resposta para essa pergunta?
Raquel Hallak: A pergunta não comporta uma resposta única e talvez essa seja justamente a sua força. O cinema latino-americano será aquilo que conseguirmos imaginar, criar e sustentar coletivamente. Ele será diverso, múltiplo e inquieto, desde que existam condições para que diferentes territórios, povos, corpos, línguas e perspectivas possam chegar às telas.
A temática nos convidou a olhar para um cinema atravessado por profundas transformações políticas, sociais, econômicas e tecnológicas. Perguntar “o que será?” significa refletir sobre quem consegue produzir, quais histórias encontram financiamento, quem define o que deve circular e quais imagens desejamos projetar para o futuro.
Acredito em um cinema latino-americano que preserve sua singularidade e não precise se adaptar a modelos externos para ser reconhecido. Um cinema conectado às experiências de nossos países, mas capaz de dialogar com o mundo. Para isso, precisamos de políticas públicas permanentes, investimento, espaços de formação, redes de cooperação e ambientes de circulação. O futuro não está dado: ele depende das escolhas que fazemos agora e dos encontros que somos capazes de promover.
Natália Bocanera: A CineBH costuma promover encontros entre a produção contemporânea e a memória do cinema. Como as mostras de resgate ajudam a compreender os caminhos do cinema latino-americano de hoje?
Raquel Hallak: Não é possível compreender plenamente o cinema contemporâneo sem conhecer os caminhos percorridos antes dele. As mostras de resgate não representam um olhar nostálgico para o passado. Elas colocam filmes, trajetórias e questões novamente em circulação, permitindo que sejam vistos à luz do presente e por novas gerações.
Quando revisitamos uma obra, podemos reconhecer continuidades, rupturas, silenciamentos e disputas que permanecem atuais. Percebemos também como determinados cineastas enfrentaram, em outros momentos, questões relacionadas à identidade, ao território, à desigualdade, à violência política, à ancestralidade e à liberdade de criação.
Ao aproximar memória e contemporaneidade, a CineBH cria diálogos entre diferentes tempos do cinema. Manter esses filmes vivos é também compreender de onde viemos, reconhecer quem abriu caminhos e ampliar nossa capacidade de imaginar o que ainda pode ser realizado.
Natália Bocanera: A Mostra homenageou duas mulheres fundamentais: a escritora e atriz Conceição Evaristo e a cineasta paraguaia Paz Encina. De que maneira a trajetória dessas duas artistas sintetiza a busca da CineBH por valorizar o protagonismo feminino e as formas de resistência da arte?
Raquel Hallak: Conceição Evaristo e Paz Encina possuem trajetórias muito singulares, mas suas obras se encontram na capacidade de transformar experiências históricas, silêncios e ausências em criação. São duas mulheres latino-americanas que constroem novas formas de narrar nossos territórios e de compreender o mundo.
Conceição Evaristo ocupa um lugar fundamental na literatura brasileira. Sua escrevivência nasce da experiência vivida e coletiva, dando centralidade a vozes negras e femininas que foram historicamente silenciadas. Nesta edição, tivemos também a alegria de celebrar sua estreia como atriz em Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais Oliveira, filme que abriu a Mostra.
Paz Encina, por sua vez, construiu uma das obras mais potentes do cinema latino-americano contemporâneo. Por meio de uma linguagem profundamente autoral, ela investiga a história do Paraguai, os efeitos da guerra e da ditadura, os apagamentos e as marcas que permanecem nos corpos, nas paisagens e nos sons.
Ao homenageá-las, a CineBH reconhece duas artistas que transformam memória em presença e resistência em linguagem. Valorizar o protagonismo feminino significa reconhecer essas trajetórias e, ao mesmo tempo, ampliar concretamente os espaços de criação, decisão, circulação e reconhecimento para as mulheres em toda a cadeia do audiovisual.
Natália Bocanera: A programação da CineBH se espalha por espaços abertos e praças públicas. Em uma época dominada pela mediação das telas individuais e redes sociais, qual é a importância política e afetiva de garantir o cinema como uma experiência coletiva e de ocupação do espaço público?
Raquel Hallak: O cinema nasceu como experiência coletiva. Assistir a um filme junto de outras pessoas, compartilhar emoções e conversar depois da sessão produz uma relação muito diferente daquela estabelecida pelas telas individuais. Essa dimensão coletiva não desapareceu; ao contrário, tornou-se ainda mais necessária.
Quando a CineBH ocupa cinemas, teatros, centros culturais e espaços públicos, ela aproxima o cinema da vida cotidiana e reafirma o direito de todos ao acesso à cultura. Uma sessão gratuita em uma praça permite o encontro entre pessoas de diferentes idades, origens e repertórios. Por algumas horas, aquele espaço se transforma em território de convivência, imaginação e pertencimento.
Há uma dimensão política nesse gesto porque ocupar a cidade com arte amplia o uso democrático do espaço público. E há também uma dimensão afetiva: as pessoas se reconhecem umas nas outras, compartilham risos, silêncios, descobertas e emoções. Em uma sociedade cada vez mais fragmentada, reunir pessoas diante de uma tela é criar uma possibilidade de presença, escuta e experiência comum.
A tecnologia amplia o alcance dos filmes e é parte fundamental do nosso tempo, mas não substitui o encontro. Acredito nessa convivência entre diferentes formas de acesso, preservando o cinema como experiência coletiva e fazendo da cidade um lugar onde novos mundos podem existir diante de nós.
Raquel Hallak é Diretora da Universo Produção e Coordenadora-geral da CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e do Brasil CineMundi – Encontro Internacional de Coprodução.
