A Festa Acabou | 2025

A Festa Acabou | 2025

Realpolitik “na veia”

Não são poucos os filmes que, ora de forma mais complexa, ora mais simplória, visam reproduzir na tela a luta de classes contrapondo patrões e empregados. Acredito que, muito embora o atual quadro de divisão política da sociedade, na maioria das vezes o público acabe por aderir e “torcer” na tela para os mais marginalizados que sofrem a exploração e opressão.
O filme francês A Festa Acabou, dirigido por Antony Cordier, parte de uma visão mais satírica e cáustica da luta de classes, com (muitas) pitadas de realpolitik.

Na trama, a família Trousselard, composta por Phillipe (Laurent Lafitte), Laure (Élodie Bouchez) e a filha Garance (Noée Abitta), é proprietária de uma luxuosa mansão que tem como caseiros os Azizi, trabalhadores sem registro formal e por valores abaixo do mercado, família composta por Tony (Ramzy Bedia), Nadine (Laure Calamy) e Marylou (Mahia Zrouk) e, para conhecer a bela casa, os Trousselard levam o mais novo namorado de sua filha Garance, Mehdi (Sami Outalbali), jovem e idealista advogado que nasceu em uma família pobre e, através do trabalho, conseguiu pagar seus estudos. Fundamental destacar a própria origem dos nomes/sobrenomes, trazendo uma indicação de que há uma família (essencialmente) francesa, enquanto a outra é imigrante.

A partir disso, o que se tem, ao menos inicialmente, é um desenvolvimento da narrativa que se aproxima daquela concepção mais simplista, em que os patrões esbanjam arrogância e insensibilidade, o que é trazido logo no início do longa-metragem, quando Phillipe interrompe a festa de aniversário de Marylou para pedir que Tony conserte a pia da mansão que estava entupida. Para realizar aquele reparo, Tony pede para que nenhuma torneira seja utilizada e, ignorando tão importante instrução, displicentemente, Laure utiliza uma das torneiras para uma tarefa banal. O resultado é escatológico.

Os Trousselard, calcados em seus evidentes privilégios, colocam-se sempre em uma posição de comando e superioridade, até mesmo em relação a Mehdi, que, a todo momento, percebe que ali é um “estranho no ninho”. Nesse sentido, é engraçada a utilização constante do latim por parte do advogado Phillipe, para evidenciar, ao mesmo tempo, arrogância e uma falsa erudição.

Chama atenção a habilidade com que Cordier constrói diversas passagens, sempre com pitadas de humor, que indicam as contradições daquela família rica e sua relação com “os menos abastados financeiramente” ao redor, como o fato de Laure ser uma atriz cujo sucesso de outrora se devia à pouca roupa usada por suas personagens, enquanto não tolerava que Tony pudesse, no verão, trabalhar sem camisa; e a indicação expressa a Mehdi, após ter sido indulgente com seu sogro, de que os estagiários de Phillipe pertenciam a famílias ricas porque não eram tão complacentes dessa forma com a elite econômica.

A sucessão dessas opressões e humilhações perpetradas pela família rica faz com que Tony, completamente bêbado, tenha uma reação violenta contra os Trousselard, no que inaugura um novo momento de A Festa Acabou.

O acontecimento faz com que Phillipe o comunique de sua demissão, no que o casal de trabalhadores reage de forma peremptória, negando o afastamento do trabalho, a não ser que sejam adequadamente indenizados, tendo em vista as ilegalidades praticadas pelos patrões durante aquele contrato de trabalho.

É aqui que o filme alcança um patamar distinto, mais instigante, ainda que não imune a alguns problemas: é interessante ver a altivez dos Azizi e o conhecimento acerca dos direitos que possuem ao negociar com os patrões os valores que acreditam merecer receber antes da dispensa, o que parece derivar da forte tradição francesa em lutas de movimentos sociais. Contudo, ao colocá-los “em pé de igualdade” com um advogado muito rico e influente, o filme se torna muito ingênuo, pois isso, mesmo na França, parece ser difícil de acreditar.

A negociação entre ambos, para pôr fim àquela relação de trabalho, vai ganhando contornos cada vez mais violentos, perpassando por tiros, tentativas de afogamento e destruição de objetos da mansão. Há aqui algo notável, pois, a partir da violência e irracionalidade crescente vinda de ambos os lados, o filme vai tornando cada vez mais complicado aderir (o que não quer dizer que não se possa afiliar-se a um dos lados), neste momento do filme, a um grupo específico, pois ambos ficam cegos ante uma brutal hostilidade, o que é construído com notável fluidez pelo roteiro escrito por Jean-Alain Laban e Steven Mitz.

A narrativa também chama atenção pelo fato de não dotar protagonismo a um personagem/casal, tendo todos especial relevância na construção do longa-metragem; vale indicar que as atuações são muito competentes, no que destaco especialmente os trabalhos de Laure Calamy e Laurent Laffite.

Conforme a tensão vai aumentando, Mehdi se coloca como “fiel da balança”, visando se colocar entre aquela intensa disputa e se propondo a ser um mediador do conflito. Com isso, passa a ser visto pelos Azizi como uma espécie de traidor, considerando que, mesmo compartilhando sua origem social e geográfica, ele “senta à mesa” com os patrões, o que atrai muitas dúvidas acerca de suas reais intenções de buscar uma solução justa.

A morte de Mehdi, em meio a mais uma das violentas brigas das famílias Trousselard e Azizi, em torno do montante em dinheiro que deveria ser pago para que a demissão fosse concretizada, representa, no plano simbólico, a morte do idealismo e de um ideal meritocrático.

A reação daqueles personagens em relação indiferente, sobretudo à tragicidade da morte daquele jovem, mostra claramente o que é a realpolitik, o desprezo por questões morais e idealismos e a opção por abordagens pragmáticas que, naquele conflito, significam tão somente ganhar ou perder dinheiro. Assim, A Festa Acabou é digno de aplausos ao trazer uma mirada da luta de classes que é satírica, com humor, mas também violência, com muitas pitadas de realpolitik, sem ser algo formulaico e desinteressante.

Nota

Author

  • O representante do Pará no Coletivo Crítico que, entre o doutorado em Direito e os jogos do Paysandu, não dispensa uma pipoca para comer, uma Coca Cola gelada para beber e um bom filme para ver.

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