A Noiva! | 2026

A Noiva! | 2026

Maggie Gyllenhaal cria uma noiva insubmissa e revolucionária

Em tempos extremos, o cinema também tende a reagir de forma extrema. Em um contexto marcado por números alarmantes de feminicídio e violência contra mulheres no Brasil e no mundo, A Noiva! surge como uma obra que transforma o horror clássico em manifesto. Segundo longa dirigido por Maggie Gyllenhaal, o filme revisita o imaginário gótico associado à criatura de Frankenstein para propor uma releitura abertamente política e feminista ambientada nos anos 1930.

A escolha do título já indica essa mudança de perspectiva. Ao abandonar A Noiva de Frankenstein e assumir apenas A Noiva!, Gyllenhaal retira da personagem qualquer vínculo de posse. Ela deixa de ser definida pelo monstro e passa a existir como sujeito próprio; uma noiva de ninguém, e sobretudo de si mesma.

Na célebre adaptação de 1935 dirigida por James Whale, que consolidou a figura da criatura interpretada por Boris Karloff após Frankenstein (1931), Mary Shelley já aparecia na narrativa como uma homenagem à autora. Em A Noiva!, a diretora amplia significativamente esse recurso e confere à escritora um papel muito mais central na trama. Shelley não surge apenas no primeiro ato como no filme clássico, mas se manifesta como uma espécie de entidade, um espírito raivoso que atravessa, possui e influencia a protagonista. Ambas são interpretadas por Jessie Buckley, que volta a colaborar com Gyllenhaal após seu papel de destaque em A Filha Perdida (2021) — primeiro longa da diretora, e que aqui assume a dupla função de dar vida tanto ao espectro de Shelley quanto a Ida Bolinski, a futura Noiva.

Enquanto o filme da década de 1930 se dedicava a explorar as angústias e emoções que definem a experiência humana aprisionada em um corpo reanimado, uma criatura que atravessa o tempo quase imune à morte, condenada a uma existência solitária, A Noiva! desloca esse eixo para uma narrativa marcada pela resiliência feminina. Aqui, duas criaturas errantes formam uma dupla explosiva e passam a compartilhar um amor louco, marginal e feroz. Frank e Ida atravessam a história cometendo crimes e fugindo estrada afora como em um road movie, numa dinâmica que remete à mítica parceria de Bonnie e Clyde. Em certos momentos, o filme também flerta com a rebeldia caótica de Coringa e Arlequina no cinema, incitando uma revolução, com pegada pop e repaginada, porém com uma anarquia mais orgânica e bem integrada ao projeto narrativo de Gyllenhaal.

A narração constante de Mary Shelley guia o espectador pela história de Ida, uma jovem prostituta que morre e retorna à vida pelas mãos da cientista pioneira. A própria criação da Noiva nasce de um pedido explícito de Frankenstein, que busca alguém que satisfaça seus desejos carnais. A mudança de motivação é significativa: no filme de Whale, o monstro buscava apenas uma “companheira”; aqui, a exigência masculina ganha contornos mais egoístas e contemporâneos e se torna alvo da crítica do filme.

Visualmente, a noiva sempre foi uma das figuras mais icônicas do horror clássico, eternizada por Elsa Lanchester com sua pele pálida e cabelo elétrico atravessado por uma mecha branca. Gyllenhaal parte dessa imagem, mas se recusa a deixá-la restrita ao campo da estética. Sua versão transforma a personagem em protagonista absoluta, combinando referências que vão do musical da Broadway ao cinema noir, com uma subtrama que envolve uma dupla de detetives interpretada por Penélope Cruz eJohn Magaro. Além de recriar momentos em preto e branco bem definidos, que evocam os clássicos monstros da Universal.

Se produções recentes revisitaram o universo de Frankenstein por caminhos mais leves ou nostálgicos, como a comédia romântica de horror, Lisa Frankenstein (2024), de Zelda Williams, ou adaptações que buscam fidelidade ao clássico, como a de Del Toro em 2025, A Noiva! segue na direção oposta. Gyllenhaal assume o risco da ruptura e transforma um dos ícones mais famosos do horror em um gesto de insubordinação estética e narrativa. O resultado é um filme punk e anárquico, estilizado e provocador, que resgata a figura da Noiva não como complemento da criatura, mas como força própria. Uma personagem que finalmente se recusa a existir à sombra de seu criador.

Nota

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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