A Queda do Céu | 2025

A Queda do Céu | 2025

Por Carol Ballan

Mal se inicia A Queda do Céu, dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha,  e somos apresentados ao conceito que o nomeia. Dentro da cosmologia Yanomami, a queda do céu acontecerá quando não existir mais nenhum xamã capaz de apaziguar os deuses, e uma catástrofe impossível de ser impedida entrará em curso. Em um mundo em que este saber ancestral sobre a destruição de povos originários está quase se tornando uma realidade palpável, e no qual a ameaça climática se tornou uma das grandes dificuldades a ser transpostas coletivamente, o longa-metragem observacional relembra aos espectadores sobre outras possibilidades de vida.

Estruturalmente, o filme se divide em três eixos: Convite, Diagnóstico e Alerta. Seguindo a lógica de cada um desses capítulos internos, ele apresenta um pouco do modo de pensar Yanomami para os espectadores, principalmente através do confronto entre narração de Davi Kopenawa e cenas gravadas em meio à tribo. Ele é homônimo ao livro escrito pelo xamã em conjunto com o antropólogo francês Bruce Albert, através do qual ensinamentos do povo Yanomami se tornaram mais conhecidos pelo público geral, e que foi fruto de uma extensa pesquisa e trocas entre os dois. Entende-se então que o longa-metragem é uma versão audiovisual da obra escrita, como um novo alerta que está sendo passado do povo indígena para o que eles chamam de “povo da mercadoria”, os não-indígenas.

Mais do que a voz que narra o filme, Kopenawa é também a sua espinha dorsal no sentido da escolha do que pode e deve ser mostrado. Se a obra funciona como uma grande crítica ao colonialismo em sentido tanto existencial quanto ambiental, o líder ajuda um público que não é letrado nesse sistema a adentrá-lo. Mesmo com essa proposta, a obra é firme em não se tornar uma militância rasa tentando apenas traduzir uma mensagem importante, até porque atualmente o recado mais amplo, de necessidade de uma mudança global para que o planeta volte a ser sustentável, já é conhecido por qualquer espectador com conhecimento ecológico mínimo. Mais do que isso, ele é capaz de trazer uma experiência de imersão profunda que nos aproxima dos retratados sem a necessidade de didatismo.

Já em sua primeira cena sentimos como a obra se desdobrará. Temos uma câmera estática, que apenas observa um grupo de pessoas se aproximando de uma distância longínqua até passar, com calma, por toda a profundidade de campo que se apresenta. Os sons são extremamente imersivos e apresentam um desenho que nos transporta para uma floresta imediatamente. Sem didatismos e sem criar o preconceituoso tom de apresentação de algo exótico, o esforço realizado é do espectador para se situar e compreender o ritmo hipnótico apresentado. Com imagens plasticamente belas e com representação indígena abrangente, é como se fossemos convidados a participar de um universo ao qual raramente temos acesso.

Talvez para um público estrangeiro, seja até mais difícil a compreensão do quanto houve de generosidade dos Yanomamis para a construção dessa obra. Existe uma escolha consciente de falar sobre seus ritos fúnebres, que são parte muito essencial de sua cultura sagrada. Isso vem de um trabalho profundo entre os diretores para gerar a confiança de que tal material seria tratado corretamente para ajudar na formação do imaginário da obra. Isso também engrandece o filme ao colocá-lo como uma fonte sociológica sobre elementos pouco acessíveis de outra maneira.

É necessário dizer que a obra segue sendo desafiadora para o público não-indígena. Tanto por conta do ritmo das imagens captadas, mais lento em comparação ao atual ritmo frenético de uma sociedade viciada em telas e estímulos, quanto pela edição que mantém-se mínima em meio aos longos planos captados. Mesmo sabendo que isso é uma escolha proposital, é necessário se preparar para ser confrontado com um material de compreensão mais trabalhosa.
Mais do que uma obra que ajuda a compreender uma parte da diversidade do povo brasileiro, A Queda do Céu é um alerta sobre a necessidade de preservação que foi ignorada por muitos anos. Como tal, que ele seja visto, distribuído e comentado é essencial para sua concretização como ferramenta política, ainda mais com as suas felizes decisões de mostrar ao invés de contar, que o tornam uma experiência mais imersiva do que uma peça diretamente panfletária.

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