Amiga Silenciosa | 2025

Amiga Silenciosa | 2025

Você percebe estar diante de uma obra cinematográfica, no mínimo, singular, quando um personagem, sentindo-se mal, expele seu jantar aos pés de uma árvore. Pouco interessa que ele esteja adoentado. Importa o trajeto do conteúdo estomacal sendo absorvido pela terra, tal qual a seiva e sua força vital, até nutrir as raízes daquele ser majestoso, e é para o solo que a câmera nos leva. Ou, ainda, quando um neurocientista, analisando a capacidade de foco humano, conclui em sua pesquisa, através do estudo da atividade cerebral do recém-nascido, que “bebês estão chapados o tempo todo”, já que interferências ou atividades paralelas não prejudicam sua concentração principal

São peculiaridades como as narradas que fazem de Amiga Silenciosa, dirigido pela húngara Ildikó Enyedi, exibido na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, uma obra que exige um olhar diferenciado, atento, que siga além daquilo que está na superfície telúrica. Ainda somos capazes de observar, fazer uma coisa por vez, com foco, em constante estado meditativo – como fazíamos na tenra idade? Uma suntuosa árvore da espécie Ginkgo biloba é a amiga silenciosa que transcende gerações, testemunha acontecimentos e que nos leva no ritmo de transe fílmico para dizer que sim.

Amiga Silenciosa nos desafia a meditar. A diretora testa nossa capacidade interpretativa e de priorização mental nos inserindo em três pontos de interesse narrativo temporalmente distintos, mas conectados, justamente, pelo espaço da cidade universitária medieval da Alemanha e a Ginkgo biloba que emana em seu jardim botânico. No tempo presente, em 2020, durante a pandemia da Covid-19, o mencionado neurocientista de Hong Kong, dedicado a estudar a mente dos bebês, forçado ao distanciamento social na universidade alemã, resolve iniciar um experimento com a antiga árvore. Em 1972, uma jovem estudante observa um singelo gerânio e capta, por meio de um sensor, as mudanças provocadas pela interação entre ambas. Em 1908, acompanhamos a trajetória desafiadora da primeira mulher admitida na universidade, uma estudante de botânica que faz uso da arte da fotografia como instrumento de estudo das plantas.

Ildikó Enyedi trabalha a distinção de cada um desses tempos pela adequação estética da fotografia e pelas sutilezas de figurino e direção de arte, garantindo clareza sobre nossa posição nessa viagem fílmica. Em 2020, a alta definição da imagem e a textural digital revelam um aspecto quase documental dos acontecimentos, o que é reforçado por alguns monólogos explicativos do cientista em palestras e pelas interações por vídeo que ele mantém à distância. No tempo de 1972, a textura da imagem é granulada, e sua iluminação agrega um calor ausente no tempo mais recente. Tudo soa solar, floral e romântico, expressando-se como memória confortável de uma juventude nostálgica. A representação do ano de 1908 é refletida no tradicional monocromático, retratando não só a ausência do cinema colorido da época,  mas também a rigidez do contexto social para uma mulher que afronta uma coletividade masculina, encontrando delicadeza e acalanto nas fotografias que ela tira com muita sensibilidade de seus objetos de estudo, as plantas e flores.

O elo entre os três tempos se dá pela árvore, mas é através dos momentos que ela testemunha e absorve que essa conexão se transforma em memória. Sob uma trilha sonora que atravessa as gerações ali representadas, fumaças, líquidos, impactos e toques são assimilados pela Ginkgo biloba, que impassível e contemplativa, tudo observa e guarda como parte de si e daqueles que com ela interagem, ainda que inconscientemente. Enyedi exprime esse caráter vigilante no posicionamento de sua câmera como subjetiva do próprio corpo vegetal, de sua copa e seus galhos, olhando aqueles que estão abaixo dela. 

Em contraponto aos tempos narrativos diversos, os personagens de Amiga Silenciosa realizam, com parcimônia, uma atividade por vez. Se a pesquisa demanda a espera de algumas horas para apresentação de resultado, é exatamente isso que o neurocientista faz: senta-se num banco e aguarda, sem realizar qualquer outra atividade (diga-se, sem nem mesmo contar com a distração de celulares ou telas). Se o gerânio precisa ser aguado em determinado horário, será essa a única realização de seu tutor. Se há uma sequência de hortaliças a serem estudadas e fotografadas, todo o foco da pesquisadora se concentra nesse momento. O aqui e agora é sobremaneira significativo. A diretora apresenta um cinema que ousa nos fazer parar, respirar fundo e estimular a função cerebral da atenção absoluta quase como um efeito psicotrópico. 

Paira a dúvida: Amiga Silenciosa é uma obra sobre pessoas ou sobre plantas? A resposta pouco importa ao resultado fílmico. Plantas e cérebros caminham lado a lado em termos de mistério e magnitude. Certo é que o filme é um convite ao aproveitamento do estado meditativo que ele mesmo propicia, como registro da memória de uma árvore que reage, internamente, a tudo que recebe, que tudo conecta, e assiste, introspectiva e fiel aos segredos, a tantas vidas humanas que por ela passam e se vão antes dela. 

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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