Amores Materialistas | 2025
Ainda é difícil aceitar que o casamento é muito mais uma instituição comercial aperfeiçoada pelo capitalismo, como evidente instrumento normatizante de manutenção de privilégios, dominação social e fomentador industrial, do que a união de duas pessoas que se amam permanentemente a ponto de acompanharem-se por toda uma vida como parceiras únicas. Por mais que haja consciência a esse respeito, de fato é muito mais simples viver sob o efeito manada de seguir as regras socialmente impostas do que enfrentá-las, principalmente, se você faz parte do grupo privilegiado pela legalidade dessa instituição majoritariamente heteronormativa.
Casar-se também significa viver em sociedade. Do mesmo modo como racionalmente sabemos ser idealizado e utópico o conceito de amor único para a vida toda, essência do que se entende como fidelidade nos casamentos, é ilusório pensar na resolução de todos os problemas deste modelo através da adesão a outros modos de relacionamentos, quando se está inserido, sem opção de escolha, dentro da lógica capitalista de sociedade.
Em que pese a tomada de consciência, fato é que estamos amarrados ao capitalismo e sua lógica. Portanto, continuamos nos casando, firmando contratos duradouros para, na maioria das vezes, preservar uma linha sucessória e garantir a continuidade de uma linhagem familiar. Essa é, pelo menos, a ideia do casamento aplicada aos donos do privilégio, aos quais a continuidade dessa instituição mais interessa. Aos não privilegiados, resta, também, continuar aderindo ao casamento para partilha de ganhos, dívidas, e geração de prole para a continuidade da mão-de-obra necessitada pelo sistema do capital.
Claro que, para tornar tudo ainda mais complexo, há o amor. E é evidente que a lógica capitalista vai também modular nosso modo de amar, ao ponto de trazer uma outra idealização: a do parceiro ideal. Em tempos onde é possível valorar pessoas por checklists e fotos de redes sociais, Celine Song vai materializar essa lógica de escolha através de uma empresa casamenteira em Amores Materialistas, seu novo e muito esperado (e com altíssimas expectativas) longa, após o excepcional Vidas Passadas. Lucy (Dakota Johnson) é funcionária exemplar da Adore, e a conhecemos celebrando a concretização do nono casamento de sua carreira. Nesse contexto de casamentos arranjados e objetificação de pessoas, clientes contratam profissionais especializadas (são todas mulheres) para encontrarem seus companheiros perfeitos, de acordo com os critérios listados em qualidade e quantidade personalizada: personalidade, profissão, renda anual, classe social, idade, tipo físico, peso, IMC, raça, cor e tipo de cabelo – os critérios são infinitos, ao gosto do freguês. Cabe à casamenteira possibilitar o match esperado.
Na celebração do casamento de sua cliente abastada, Song desenha e estabelece o conflito central de Amores Materialistas. A celibatária por escolha, Lucy, que diz às amigas em alto e bom som que “morrerá solteira ou se casará com um homem rico, o que dá no mesmo”, portadora da beleza ideal e que atende plenamente ao padrão estético socialmente imposto (Johnson é a representação deste perfil), chamará a atenção do irmão do noivo, o galanteador, sexy e milionário Harry (Pedro Pascal). Enquanto age com natural indiferença perante aquele que seria o parceiro ideal de todas as suas clientes, ou seja, o modelo de homem perfeito da sociedade capitalista e que materializa o amor, ela encontra John (Chris Evans), seu antigo namorado, trabalhando como garçom no evento. Já sabemos qual será o dilema de Lucy – forma-se a narrativa da mulher que precisa escolher entre dois homens.
Veja-se que, no caso de Amores Materialistas, estamos diante de um triângulo amoroso irrepreensível e incontestável em beleza. Não há em Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans uma linha sequer fora dos padrões estéticos prescritos pela indústria de cosméticos, vestuário, pelos filmes, séries e comerciais de TV. A crítica da diretora ao materialismo dos relacionamentos e do tratamento de pessoas como objetos e mercadorias através de um elenco composto por pessoas tidas como perfeitas me leva, irremediavelmente, a algumas reflexões.
A primeira delas é uma leitura que faz concluir pelo acerto dessa escolha. Afinal, faz parte de um possível cinismo lidar com a temática por meio de pessoas que são, elas mesmas, objetificadas pela indústria cultural. A segunda linha reflexiva vai buscar dialogar essa escolha com a (in)coerência do longa como um todo. Ao mesmo tempo que tece uma crítica ao casamento como instituição notoriamente comercial onde pouco importa o amor, o faz através de personagens que vão questionar essa lógica, para depois aderir a ela de modo surpreendentemente romantizado. Portanto, neste viés, a escolha do elenco vai apenas reforçar o caráter idealizado, padronizado e heteronormativo do casamento.
Entre dois príncipes encantados belíssimos, um pobre e um rico, a princesa trabalhadora de origem pobre que almeja, como gana e instinto de autoproteção e superação de traumas, ascensão social e dinheiro, que lida com o casamento de forma lógica e racional, e que se compreende, inclusive, como uma má pessoa por tal motivo, vai passar por uma revolução interna até fazer sua escolha da forma mais óbvia possível. Não há nenhuma escolha complexa aqui. Amores Materialistas se resolve tão óbvia e facilmente que torna simples a complexidade que é viver num mundo que transforma amor em capital.
Diga-se que a própria transformação de Lucy é rasa e trabalhada não só acompanhando a crescente e incômoda previsibilidade do longa, mas também como tentativa de atribuir algum feminismo a essa bagunça que vai se tornando Amores Materialistas. Muito embora a personagem entenda-se como uma pessoa ruim, não há nada na personagem que não seja essencialmente humano. É natural que, como reflexo dos traumas de sua infância de pais divorciados que brigavam constantemente em razão da precariedade financeira, como mulher adulta, ela queira tomar rumos diferentes em sua vida, e dê importância ao dinheiro no momento da escolha de seu parceiro. Numa sociedade capitalista, onde o amor sincero é minado pela pobreza, prezar por uma melhora na qualidade de vida não vilaniza ninguém, e aqui, não a torna uma personagem moralmente duvidosa. Celine Song prefere, entretanto, notorizar essa suposta característica de Lucy para entregar sua redenção através da missão que ela resolve adentrar para salvar uma cliente de um relacionamento abusivo e violento do qual ela se responsabiliza. Chega a ser risível quando, mesmo contratualmente obrigada a manter-se afastada de tal cliente, Lucy veste-se de boné, óculos escuro e sobretudo de espiã para que não seja reconhecida andando aos arredores da casa da vítima.
Muito embora seja bonita a forma como a diretora mantém os pés no chão ao tratar dos desafios dos relacionamentos duradouros, sua esperança é até destoante, principalmente, quando se materializa através desses personagens. Beira a inconsistência destacar, em tom de crítica, a comercialização de características físicas de pessoas e sua valoração – recorde-se o excesso de piadas com a idealização de homens altos como únicos parceiros possíveis – por intermédio de personagens que formam, seja qual for a escolha de Lucy, o padrão de casal visualmente ideal.
Se houvesse alguma ironia no texto de Song, não haveria incongruências. O roteiro, porém, é cristalino e expositivo (e preguiçoso) o suficiente para que compreendamos bem que há em Amores Materialistas uma esperança que não só supera as críticas ao casamento como o endossa como instituição, o que mostra-se, inclusive, um tanto conservador. A opção pela romantização e na transformação da personagem, presente de forma muito evidente nos figurinos de Lucy, que transitam de sexys e formais para vestidos florais e soltos, revela uma Celine Song indecisa em sua própria intenção.
Parece ainda haver esperança de coerência narrativa em Amores Materialistas quando Lucy e John se fazem penetras num casamento. Depois de se emocionar com a união de desconhecidos, eles refletem, de forma melancólica e belamente realista a instituição em si e os motivos pelos quais as pessoas ainda se casam, sequenciando todas as etapas desse relacionamento, e portanto, de toda uma vida, baseada em casar-se, ter filhos, discutir e decidir pela separação ou pela continuidade de uma relação que, emocionalmente, já não faz sentido. A conclusão é pela esperança: as pessoas continuam se casando mais porque acreditam e menos porque são mandadas a fazê-lo, ainda que inconscientemente.
Amores Materialistas começa e encontra seu fim no estudo das primeiras uniões humanas registradas em tempos pré-históricos. Um casal apaixonado sela o amor por meio de um anel natural, e manifesta sentimentos através do oferecimento e troca de flores e alimentos. A moeda de troca do casamento já está aí instituída. O discurso anticapitalista, a honestidade inicial de Lucy que traz a ideia de que a indústria casamenteira é semelhante a dos necrotérios e companhias de seguro, no entanto, se esvazia num romantismo encaixado forçosamente e no conservadorismo que dita a palavra final.
