Animais Perigosos | 2025

Animais Perigosos | 2025

O homem como o mais perigoso dos animais

“Filmes de tubarão” se tornaram tão populares que o termo já é praticamente assumido como um subgênero cinematográfico. Desde 1975, quando Steven Spielberg lançou o icônico e divisor de águas Tubarão, o peixe mais feroz dos mares passou a ser estrela de cinema e a conquistar o público ansioso pela tensão e  adrenalina que tais obras provocam. Desde então, praticamente todo ano temos um lançamento relacionado ao tema, como Mar Aberto (2003) ou Águas Rasas (2016), por vezes com variações bizarras e criativas (até demais) como Megatubarão (2018) e Sharknado (2013), por exemplo. 

Animais Perigosos, terceiro longa do diretor australiano Sean Byrne, não se trata de um filme como os citados acima, mas sim de um filme de assassino em série, onde a obsessão por tubarões emula e homenageia um verdadeiro “filme de tubarão”. Somos introduzidos ao clima amistoso, contagiante e solar de um litoral praiano, assim como se inicia a obra de Spielberg e tantas outras, mas ao contrário dos demais, as pessoas não são caçadas pelos monstros de dentes afiados, elas são usadas como iscas por um psicopata que registra e coleciona cenas violentas e insanas das mulheres que aprisiona em seu barco.

A direção adora brincar com as quebras de expectativa. Quando achamos que algo vai se resolver, situações são criadas para que tudo volte ao controle do vilão Bruce Trucker (Jai Courtney). Isso pode acontecer repetitivamente até quase a exaustão, mas de formas que causam tensão e apreensão sem nos deixar perder a esperança de que alguma justiça será feita. 

Comumente os “filmes de tubarão” levam seu drama e sua proximidade com um perigo da vida real mais a sério. Em Animais Perigosos, toda a trama é amarrada à uma boa dose de senso de humor e ironia, mostrando não se preocupar com isso ao abraçar as situações cômicas, assim como na franquia Piranha, iniciada em 1978 por Joe Dante; uma prima não tão distante e bastante escrachada dos filmes de tubarões e que (como estes) ganhou diversas sequências e adaptações desde então.

Trucker é um serial killer que gosta de matar mulheres, capturar suas vítimas e as dopar como um homem covarde. Seu universo macabro, controlado e confortável é totalmente abalado quando captura Zephyr (Hassie Harrison), uma jovem surfista independente e destemida que nos é apresentada ao som de Dance With Myself. Como uma loba solitária, ela dispensa companhias e o flerte de Moses (Josh Heuston), rapaz que conhece enquanto para rapidamente em uma loja de conveniência na estrada. A relação dos dois é rápida e fulminante e Animais Perigosos investe numa subtrama romântica que funciona.

O longa é sangrento, e se dedica na exposição da violência como potencializador das aflições nas cenas. A direção deixa claro que há dois tipos de violência em foco: a dos animais que provocam mutilações terríveis a quem devora; e a humana, a do homem frio, narcisista e auto centrado em sua fixação  absurda que o faz se equiparar a um tubarão. Trucker é fascinado pelo ataque, mas também demostra se preocupar com a preservação animal. Nesse dilema o filme exibe padrões de comportamentos muito mais respeitáveis vindos dos ferozes tubarões e, graças a Zephyr, uma sobrevivente implacável, que se auto mutila para escapar e nunca desiste de viver, vemos a ridicularização do homem.

Animais Perigosos é um filme que constrói ação, horror, comédia e romance com equilíbrio e fluidez eficazes. Onde está o verdadeiro perigo? É o que o longa nos faz questionar, ao mesmo tempo que homenageia obras que o diretor mostra ser fã. Diante de duas vítimas tão distintas aprisionadas por Trucker, Zephyr e Heather (Ella Newton), vemos a estigmatizada fragilidade feminina se converter em força, através de uma gana brutal por sobrevivência.

Nota

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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