As Pontes de Madison: A Criação de uma Obra-Prima

As Pontes de Madison: A Criação de uma Obra-Prima

Texto por Diego Quaglia

“Eu estou aqui pra fazer um filme sobre um homem e uma mulher que se apaixonam completamente um pelo outro.”

Clint Eastwood

Muito antes de ser conhecida hoje em dia como a presidente da Lucasfilm, Kathleen Kennedy era uma produtora de sucesso da Amblin Entertainment, fundada por Steven Spielberg. Kathleen conheceu Spielberg sendo assistente de produção de John Milius – naquele momento trabalhando para Spielberg – no filme dele 1941 (1979) e então seguiu o diretor em filmes como Os Caçadores da Arca Perdida (1981), Poltergeist (1982), E.T. (1982) e diversos outros até se tornar co–presidente da produtora junto com o seu marido Frank Marshall e a braço–direito do cineasta de maior êxito comercial dos anos 80 e 90. 

A carreira dela estava cercada de sucessos infantojuvenis: Gremlins (1984), Os Goonies (1985), a trilogia De Volta Para o Futuro (1985, 1989 e 1990), Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988), Jurassic Park (1993) e etc. Mas Kathleen Kennedy tinha vontade de trabalhar em produções diferentes do que estava acostumada, com conteúdo mais adulto e explorar outros lados do cinema, o que já havia feito em filmes como Cabo do Medo (1991) de Martin Scorsese e decidiu dar seguimento.

Ela acabou lendo um manuscrito do livro As Pontes de Madison (The Bridges of Madison Country), um romance 1992 do escritor Robert James Wall sobre o caso extraconjugal de duas pessoas maduras numa cidade pequena e que se tornou um imenso sucesso popular no começo da década de 90. Kennedy pensou que uma adaptação cinematográfica dele seria o projeto perfeito para a sua empreitada. Com os direitos do livro já comprados pela Amblin para ser adaptado pro cinema, Spielberg se juntou à Kennedy com a missão de assessorar a sua colaboradora a fazê-lo.A questão agora era encontrar os elementos certos para o projeto: um diretor, um roteiro e o elenco. O cineasta Sydney Pollack foi o primeiro cotado, mas saiu do projeto assim que o primeiro tratamento do seu roteirista recorrente Kurt Luedtke foi rejeitado e o também roteirista Ronald Bass – famosos por Rain Man (1988) e suas colaborações com Julia Roberts – foi contratado para escrever um novo tratamento, que também acabou não agradando Spielberg e Kennedy.

Jacqueline Bisset, Cher, Glenn Close, Catherine Deneuve, Anjelica Huston, Jessica Lange, Isabella Rossellini, Lena Olin, Susan Sarandon e Kathleen Turner foram cotadas para o papel da protagonista Francesa Johnson. Harrison Ford, Paul Newman e Sam Shepard foram os cotados para o papel do protagonista masculino Robert Kincaid. Robert Redford também foi cotado tanto para protagonizar o filme quanto para dirigir, mas acabou não conseguindo chegar num acordo com a Amblin. Depois de assistirem Os Imperdoáveis (1992), Spielberg e Kennedy sentiram que o ator certo para interpretar Robert Kincaid era mesmo Clint Eastwood, alguém que por debaixo da imagem de “machão” era capaz de imprimir melancolia e humanidade no personagem que eles acharam ao verem Eastwood desconstruindo a sua própria imagem e apresentando um lado mais fragilizado, reflexivo e mundano dela no filme que lhe consagrou com dois Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor, além de uma indicação ao Oscar de Melhor Ator.

Histoires fantastiques 1-12 : Vanessa - Clint Eastwood - Tortillapolis

Eastwood e Spielberg já haviam colaborado juntos num belíssimo episódio da série Amazing Stories (1985–1987) chamado Vanessa in the Garden (1985), que curiosamente serve como um esboço para o que eles fariam novamente em As Pontes de Madison. O episódio, co–escrito por ambos e dirigido por Clint, é um romance melodramático de época interiorano focado num artista, passado num século 90. Cercado por aspectos fantasmagóricos, melancolia, a dor da perda, apresenta a questão da pintura, outro interesse constante de Eastwood e que surge em As Pontes de Madison na maneira vistosa e belíssima em que compõe suas paisagens e a natureza, e a trilha sonora do compositor Lennie Niehaus, compositor, saxofonista, música de jazz e parceiro de Eastwood em diversas trilhas sonoras. 

Clint, um fanático por jazz, alguém que sonhava com a carreira de pianista e que tem, como um dos seus hobbies, uma própria carreira musical também de muito talento, recorrentemente costuma trabalhar em suas obras com compositores enraizados no jazz. Spielberg e Eastwood não eram estranhos e mais importante do que isso: Spielberg sempre reconheceu e compreendeu que Eastwood era muito mais que um astro ou uma figura icônica, mas sim  um artista e um criador. Spielberg foi um dos primeiros a reconhecer isso juntamente com Orson Welles, Norman Mailer, Tim Cahill e alguns poucos outros.

Só se surpreende com o lado delicado, sensível, espirituoso, denso, romântico e suave de Clint, quem só conhece a sua figura como Dirty Harry, como o protagonista estoico de faroestes e símbolo de uma masculinidade mais bruta e não conhece filmes como Breezy (1973), Bird (1988) e quase todos os outros da sua carreira até então. Felizmente, Spielberg e Kennedy não eram essas pessoas e apresentaram o livro para Eastwood, que viu potencial no enredo e se conectou, particularmente, com o personagem de Robert Kincaid. 

Um então jovem roteirista, Richard LaGravenese, fez um terceiro tratamento de roteiro para o filme, que acabou caindo nas graças tanto de Clint quanto de Spielberg. Porém, tanto Eastwood quanto Spielberg acharam necessário que eles mesmos reescrevessem juntos o tratamento de LaGravenese por fax e telefone, para ajustarem as imperfeições que perceberam e encontrarem a voz exata que eles queriam. Tanto Clint quanto Spielberg gostaram que a versão que LaGravenese apresentasse a história do ponto de vista de Francesca, mas tiveram a ideia de criar a trama paralela dos filhos de Francesa lendo os seus diários, para voltar ao passado conforme as descobertas deles vão acontecendo. 

Por questões do Sindicato de Roteiristas, nem Spielberg e nem Eastwood acabaram sendo creditados. Spielberg, inclusive, gostou tanto do processo de escrever a versão final do roteiro ao lado de Clint que considerou fazer de As Pontes de Madison o seu próximo filme depois de A Lista de Schindler (1993), que estava em pós– produção na época. Porém, os compromissos com a estreia de seu novo filme e a agenda já estipulada de pré–produção e filmagem de As Pontes de Madison, fizeram com que Spielberg desistisse da ideia de ser o diretor.

Bruce Beresford, de Conduzindo Miss Daisy, foi chamado por Spielberg para negociar a direção do filme. Ele fez o seu roteirista Alfred Uhry (também de Conduzindo Miss Daisy) reescrever o roteiro mais uma vez para um quinto tratamento, o que Eastwood achava desnecessário. Enquanto isso, Clint acabou arranjando que As Pontes de Madison fosse distribuído e co–financiado pela Warner Bros, o estúdio com quem mantém uma parceria intacta de décadas e a própria Warner preferiu o roteiro que Clint e Spielberg escreveram a partir do tratamento de LaGravenese. 

Beresford e a Warner queriam contratar uma atriz jovem para o papel de Francesca, ao que Eastwood foi totalmente contrário, fazendo com as suas desavenças com Beresford ficassem ainda mais profundas.pós ter o seu tratamento de roteiro favorito negado, Beresford desistiu de dirigir o filme. Foi nesse momento que Clint Eastwood pediu que Kennedy e Spielberg deixassem-no dirigir e co–produzir com sua produtora, Malpaso Productions, em parceria com a Amblin, para maior controle criativo e para que o  projeto finalmente avançasse sem mais demoras, evidenciando sua já costumeira rapidez e praticidade como diretor. Kennedy e Spielberg toparam imediatamente.

Simply Streep – The Meryl Streep Archives » The Bridges of Madison County

Spielberg e Eastwood, entretanto, discordavam sobre uma questão crucial: Spielberg queria uma atriz italiana para fazer Francesa (por isso Rossellini era a sua favorita para o papel), enquanto Clint já tinha a atriz certa em mente: Meryl Streep, escolha que desagradava a Spielberg, por ser americana. Mas Clint sabia da sua famosa habilidade de conseguir compor diferentes sotaques e achava que conseguiria mostrar a vulnerabilidade e intensidade de Francesa com a sutileza e teor intimista que ele queria, conseguindo acessar o tom mundano que o cineasta buscava.

Spielberg aceitou, por fim, a escolha de Eastwood, mesmo discordando. Precisou bater o pé na Warner pelo nome de Meryl Streep também, já que eles ainda queriam uma atriz mais nova e que fosse na visão deles mais “atraente”. E Streep ainda estava vindo de fracassos como o injustiçado A Morte Lhe Cai Bem (1992) e A Casa dos Espíritos (1993). Clint pessoalmente ligou para Streep, a convidando para protagonizar o filme, e o primeiro instinto dela foi negar, porque não gostava do livro. Clint mostrou a ela o roteiro final da adaptação, que fugia da escrita mais simplória e afetada que incomodava tanto Streep na obra literária, e apresentou a sua interpretação daquela história para ela. Meryl então aceitou protagonizar o filme e assim o longa–metragem As Pontes de Madison começou a ganhar carne e osso. 

Foi se tornando esse filme de um gênio supremo no seu auge criativo. De um mestre absoluto chegando no apogeu como encenador e contador de histórias. Um filme que tinha que ser exibido sem parar em aulas de direção, roteiro, montagem, fotografia, atuação e etc. Em que todos os envolvidos estão no seu auge, todas as peças estão encaixadas com perfeição, depuradas ao máximo. Onde os gêneros, a narrativa e a própria linguagem do cinema chegam no seu ponto mais alto: no seu lugar mais harmonioso, certeiro e criativamente rico possível. Eastwood, desde Coração de Caçador (1990) até Crime Verdadeiro (1999), viveu a década mais iluminada e mais inspirada que qualquer cineasta que eu conheça já viveu, e As Pontes de Madison é a manifestação máxima disso.

Desde a primeira sequência na caixa de correio, em primeiríssimo plano, com o fundo desfocado em segundo plano, até o último momento, com as cinzas sendo jogadas na ponte, a câmera acompanhando sua trajetória; ou, ainda, os créditos finais acompanhando o amanhecer de cada um dos locais do sítio de Francesca: todas as estratégias inteligentíssimas da encenação estão no seu lugar mais exato com o tino natural e lapidado do diretor, que sabe exatamente como se aproveitar da blocagem dos atores nos espaços, das composições pictóricas rigorosas e fixas na casa de Francesca, criando molduras que capturam os personagens em salas e portas, em controle espacial absurdo. 

No jogo de distância e profundidade da câmera, quando  os protagonistas conversam enquanto comem, são capturados por fora do papo ou dentro dele; nos planos super abertos, majestosos das paisagens, da natureza, na profundidade de campo imensa; dos passeios dos personagens e a noção total nas escolhas dos planos nos momentos certos; de quando fazer um foco dividido de Francesca observando Robert; o plongée de Francesa na banheira; um over the shoulder do casal conversando; uma panorâmica de Francesca andando na ponte; um plano detalhe no bilhete de Francesa; os planos detalhes de Francesa com a mão na maçaneta do carro; pequenas subjetivas do ponto de vista dela olhando o mundo ao seu redor, desde o seu ambiente caseiro até as janelas do carro na chuva por dentro; os closes, os planos conjuntos, a câmera entrando com os personagens nos espaços e por aí vai. Tudo compõe uma afinação imensa entre cada plano que entra e é substituído por outro nos tempos certos, como é típico dos filmes dele.

Os filmes do Eastwood são sempre marcados por uma equação e um encontro entre a secura e a suavidade. Mas As Pontes de Madison é suavidade pura.. Desde a movimentação de câmera delicada e terna do Jack N. Green, se movendo calmamente pelos personagens – algo típico nos filmes do Clint – até as suas cores muito quentes e claras num território idílico lindíssimo de alto contraste entre o branco e preto. Mas dentro dessa suavidade, existe a sobriedade, a densidade emocional e a melancolia de Clint na sua elaboração que impedem o filme de cair num lugar piegas e apelativo, preservando um interesse e impacto pela ambição emocional e pelo seu domínio sentimentalista completo, ao criar esse melodrama meloso, mas que acaba sendo totalmente genuíno, robusto, equilibrado, cheio de gravidade e profundidade na construção e exposição dos personagens e dos seus sentimentos. Tudo graças às reescritas de roteiro que Clint com a colaboração de Steven Spielberg fez, transformando o filme completamente até chegar no tratamento final feito pelo nosso Dirty Harry.

Clint Eastwood Shocked Meryl Streep in The Bridges of Madison County

Se outro cineasta mais apelativo, quadrado, básico ou/e menos talentoso – como todos os cotados para o projeto antes de Clint – tivesse essa mesma história em mãos,facilmente teríamos um dramalhão bobo e genérico. No entanto, Clint, como o autor natural que é, se apropria de uma premissa simples já existente vinda de materiais prévios sem grandes valores, e faz disso algo absolutamente seu, introjetando valores gigantescos (tal qual Hitchcock fazia com os livros vagabundos que adaptava e roteiros que encomendava). Imprime uma reflexão muito pessoal, poderosa e complexa, sem respostas e com muitas perguntas, sobre o comportamento humano, dúvidas, as impossibilidades do amor, adultério, matrimônio, família e empatia. Isso não só no poder narrativo, mas também na força formal que encontra a essência de cada decisão. Seus filmes são assim: partem de premissas simples e mundanas para construir estudos muito existenciais e filosóficos sobre o comportamento e emoção humanos.

Um amigo me lembrou, no dia que revi esse filme pela última vez  (e finalmente o vi no cinema,uma das melhores experiencias da minha vida), da frase muito acertada do Martin Scorsese no documentário Clint Eastwood: A Cinematic Legacy (2021), que diz que o “Clint é sem dúvidas o elo entre o cinema clássico que eu cresci amando e o cinema dos tempos modernos” e a questão do classicismo rodeia o seu cinema.

Eastwood, herdeiro de cineastas que vão desde o seu “pai cinematográfico” Don Siegel até William A. Wellman, é representante desde sempre de uma construção de linguagem clássica: seus filmes são objetivos e discretos, dando uma continuidade a tradições já estabelecidas no cinema dentro de narrativas lineares, aqui, nesse caso, por exemplo, o melodrama romântico. O classicismo pede uma direção que é ativa, precisa e imaginativa, porém, Clint o faz num registro e num fluxo mais contido, sóbrio e discreto, sem deixar de representar esses fatores, evitando se exibir para reforçar aspectos narrativos, dos atores e emocionais. Foge das extravagâncias visuais e formais, os principais pontos dos mais geniais classicistas do cinema.

Diferenciar o que é clássico, sóbrio e discreto, do que é genérico, simples, “feijão com arroz” e básico, é o que evita as injustiças que o classicismo sofre.

O fato de um filme não ser exagerado, grandiloquente e extravagante visualmente, optando por um caminho esteticamente mais discreto, sóbrio e prático, não significa que ele não tenha uma direção apurada e ativa. Na realidade, é extremamente difícil dominar esse estilo de direção, sem deixá-la cair na mesmice. Criar uma condução esteticamente forte com uma direção que está lá, sempre, e que é sábia, é um grande desafio. Por outro lado, um tipo de direção mais extravagante facilmente pode cair na obviedade, no afetado, na incompetência e no apelativo. 

Por vezes, um filme com um estilo de direção mais clássico e sóbrio pode ter muito mais unidade, domínio e força do que um filme cheio de jogadas de câmera, intervenções visuais e esteticismos, que no seu todo não possuem nenhuma harmonia. O classicismo do Eastwood sempre vem acompanhado de uma intensidade muito moderna e de traços muito modernistas, que sempre infectam no melhor dos sentidos esse classicismo, que está longe de ser tão extremo e puro assim, mesmo buscando ativamente não se exibir.

Ao mesmo tempo que ele é um obcecado por esses ambientes e registros mais realistas, intimistas e naturalistas (o que também equilibra e lapida o seu lado melodramático), o diretor  odeia malabarismos formais, detectados como distrações por ele. Por outro lado, a belíssima trilha sonora triste sobe nos momentos emocionais certos, enquanto temos os dissolves nas transições, a atenção aos gestos de carinho, toques, sintonia instantânea cada vez mais profunda e os flertes entre Eastwood e Meryl. 

As Pontes de Madison nos fornece momentos de pura contemplação lírica e poética da natureza e dos sentimentos dos personagens, tal qual Meryl Streep abrindo o seu roupão no vento, num dos ápices dos seus desejos, acompanhada da trilha sonora e dos sons dos grilos. Existem momentos em que a câmera só vai se aproximando do rosto de Meryl Streep  para nele ler sua expressividade até a cena seguir. Ou, ainda, como quando Robert Kincaid vai embora, por exemplo. Existe uma calma e uma tranquilidade puramente meditativa, típica dos filmes do Eastwood, para análise e vivência dos momentos mundanos da vida, que nenhum outro diretor mainstream do cinema americano tem.

How The Bridges of Madison County Exemplifies Clint Eastwood's Minimalism

A fluidez na montagem do Joel Cox, no casamento dos planos e na condução narrativa, faz com que 2 horas e 15 minutos pareçam menos de uma hora pelo poder gigante de imersão e efetividade que o filme possui. Questões como a iluminação estilizada pelo uso do chiaroscuro, principalmente nos momentos de caminhada de Francesca pela ponte, consumida pelo desejo e encanto por aquele homem, ou intervenções visuais mais extravagantes, como o rápido slow motion quando as cinzas de Francesa são jogadas, nas intersecções paralelas da montagem ou como a cena da dança é montada depois do beijo, evidenciam escolhas extremamente modernas que quebram – no melhor dos sentidos – esse classicismo.

Neste ponto, podemos estudar dramaturgia do filme. A premissa é simples, segue uma tradição narrativa que perdura há anos, os personagens se encaixam como arquétipos. Entretanto, existem diversos elementos que quebram essa lógica clássica. É muito moderno como o filme não invisibiliza, mas dá destaque e não condena o desejo sexual feminino de uma mulher já madura, que sente tesão, ou como o filme não é conclusivo nos seus dilemas morais.Francesca poderia ir embora com Robert, mas viveria longe dos filhos e possivelmente seria odiada por eles pela eternidade, ao mesmo tempo que a sua decisão de ficar faz com que ela viva uma realidade marcada por uma dor interna e uma infelicidade que nunca vai passar . A sofisticação é perceptível, ainda, no modo como ele recusa qualquer maniqueísmo. Não temos um final propriamente feliz, como vemos duas linhas de tempo paralelas em contraste muito evidente.

Até o fato dos dois filhos de Francesca serem interpretados por atores inexpressivos, completamente mundanos e comuns, enquanto Frances e Robert são interpretados por dois hipnotizantes Meryl Streep e Clint Eastwood, são elementos que enriquecem o contraste e a unidade. Os dois filhos (que também são representantes do público), descobrindo que a mãe era uma mulher completa, não um ser idealizando, se empatizando aos poucos com ela, após um julgamento e choque inicial (assim como Francesa se empatiza com Lucy Redfield em meio a uma cidade preconceituosa e retrógrada ao se ver na mesma situação que ela), abandonam seus preconceitos, levando os ensinamentos daquela história para suas vidas, melhorando com isso, e fazendo as pazes com ela.

Nos filmes do Clint, existe essa tendência de uma atenção para a psique dos personagens centrais, uma recusa de tratar os seus protagonistas superficialmente, um desejo de descobrir quem são essas pessoas e mostrar isso de modo complexo. Ele quer que o público absorva os personagens, suas realidades, vidas, personalidades e bons desenvolvimentos. Os diálogos incríveis nas conversas que começam descontraídas até ficarem fortes entre Robert e Francesca, vão nos transportando para uma dinâmica especial de troca que reflete não só a realidade dos dois, mas questões, dúvidas e dilemas sobre o mundo. 

A atenção aos personagens sempre é maior que a dada à trama.  Alcançar um grau de humanidade para essas figuras sempre é o objetivo central dos roteiros que ele brilhantemente faz a curadoria, reescreve e escreve em parceria ou a partir de argumentos iniciais de outros, transformando em seus por completo. Existe uma densidade, uma complexidade, uma ambiguidade, muitas nuances e contradições nos textos do Clint e no seu tratamento dos personagens, que raramente vemos no cinema – e principalmente não no americano – e mais normalmente vemos na literatura. 

As Pontes de Madison, junto com filmes como Os Imperdoáveis (1992) e Um Mundo Perfeito (993) representam um certo topo – não só da melhor fase que qualquer cineasta já teve – de Eastwood como um diretor mais visualmente carregado, místico e iconoclasta, mesmo que ainda mantenha um estilo de condução e imagética mais sisuda, sutil e clássica. 

Seus filmes, a partir de Sobre Meninos e Lobos (2003), ganham um aspecto ainda mais seco, cru, sombrio, fúnebre, e espectral. Ao lado do seu fotógrafo Tom Stern, seus filmes vão até o limite com experimentos de contrastes marcados de luzes e sombras expressivas, que ele sempre gostou, com cores mais frias, sem deixar de trazer um aspecto mais carregado visualmente, que é levado a uma radicalidade tão profunda,que depois de atingir o máximo da exploração, outro caminho passa a perseguir a sua mente, carreira e habilidades.

How Clint Eastwood Saved The Bridges Of Madison County From Production Limbo

A partir de Sully (2016), mais ou menos vejo que o seu cinema entra numa busca e numa construção mais minimalista, mais sucinta, ainda mais discreta, mesmo sem abandonar suas intervenções formais pontuais mais extravagantes aqui e ali, e onde a sua economia cinematográfica e praticidade técnica de sempre se radicalizam ainda mais ao ponto de chegarmos no espetáculo que é seu último filme Jurado nº 2 (2024). provavelmente, o filme em que a ideia de uma condução contida é levada ao extremo, sem abdicar de um esmero, um olhar atento, de uma sensibilidade e de um controle imaginativo na criação do filme. O Marcelo Hessel, num debate que eu fui com a exibição desse filme, chamou de uma lapidação de estilo, que vai na síntese das coisas, e eu concordo. Lapidação essa que pode ser vista como “formulaica” ou “comum”, mas que são totalmente o contrário disso.

Se Eastwood está genial como o grande comandante desse espetáculo, ele também não deixa nada a desejar como ator, vivendo uma das suas melhores interpretações em As Pontes de Madison. Excelente como o seu tipo mais charmoso, mais carismático e mais encantador, utilizando da sua persona típica de modo muito mais relaxado que o de costume, mas que na sua melancolia filosófica e no clímax acaba chegando num ponto muito comovente de dor, quando vemos seu coração sendo destroçado na chuva, outra grande herança clássica. 

Seu olhar triste, desolado, seu sorriso melancólico e a aproximação da câmera do seu rosto: o gênio Clint Eastwood aqui encontra um casamento com a genialidade de Meryl Streep, uma atriz gigantesca e totalmente treinada que algumas vezes é prejudicada e injustiçada por filmes e cineastas ridículos e mais quadrados que não conseguem se utilizar da extensão do seu talento e do aspecto muito técnico do seu berço teatral. Aqui, seu casamento com a suavidade de Eastwood é tamanho que ela consegue demonstrar o que a faz uma atriz tão diferenciada e tão fantástica: ela constrói uma interpretação de gestos mínimos, de viradas do rosto, de mãos no rosto, de olhares, expressões e emoções gigantes, compondo de maneira detalhada o sutil sotaque italiano, a sinceridade em tudo, desde a sua personalidade, a atração, encanto empolgado e a fascinação por Robert, até a devastação final que acomete a sua trajetória e o seu olhar.

Talvez seja a melhor interpretação que eu já vi, fruto de uma atriz imensamente talentosa, do entendimento de Eastwood pra escalação de atores e da habilidade dele de criar um ambiente confortável no set que deixe os atores, a equipe e os gestos soltos e livres, para colocá–lós criativamente e expor seus melhores talentos e instintos. Esse Eastwood, que acha “que os filmes devem ser emocionais, não intelectuais”, mas é capaz de fazer longas–metragens mais inteligentes e reflexivos que qualquer outro autor estadunidense e alinhar isso com a forma que constrói suas traduções sentimentais. 

Esse Eastwood, que não é um intelectual, mas que, por trás da imagem de homem bronco e duro que o popularizou nos faroestes e thrillers policiais, é alguém culto e capaz de erudição que ama literatura, pintura, música e tem um olhar pra vida e pro mundo que é fascinante e astuto de um modo natural ao extremo. Esse Eastwood, que não é um cinéfilo compulsivo e não é um acadêmico que estudou cinema de modo tradicional, mas aprendeu a linguagem cinematográfica de maneira autodidata, instintiva, a estudando e a praticando por conta própria, e com isso desenvolvendo um amor imenso pelo cinema, sua história, suas influências, seus ídolos e pelo fazer cinematográfico. Esse Eastwood, que assim como Robert Kincaid, toma a coragem de se ver e ser visto como um artista, não só como um profissional. Esse Eastwood que é o diretor mais único e fascinante que eu conheço, que é um artista radical, coerente e poderoso mesmo sem se auto– proclamar dessa maneira, assim como Robert Kincaid. 

Alguns outros detalhes sobre o filme que me saltaram aos olhos revendo agora:

–  Claro que o Clint ia levar Robert e Francesca para terem uma noite apaixonada de curtição num clube negro de jazz frequentado por pessoas negras. Duas das obsessões dele: jazz e a cultura afro–americana.

–  Kyle Eastwood, filho de Clint, compositor, músico de jazz e protagonista de Honkytonk Man, toca no clube.

–  Betty, a nora de Francesa, já é um esboço e uma versão mais suavizada da família e da neta de Walt Kowalski em Gran Torino de 2008.

–  Robert e Francesa, ambos um casal de “fantasmas”, um tipo de personagem e temática que Eastwood é completamente obcecado.

–  O tema musical, Doe Eyes, que Clint co–escreveu com Lennie Niehaus para a trilha sonora do último, não é só a melhor composição que o cineasta fez na sua carreira musical, mas um é um dos melhores temas musicais que eu já ouvi. Os temas musicais de Clint se movimentam da forma que ele dirige e são lindos justamente por isso.

–  Robert conta uma piada sobre suas aventuras cômicas com macacos para Francesca e fala sobre uma viagem para a África. Ambas as citações são auto–referências a filmes que ele fez como ator ou como diretor também: Doido para Brigar… Louco para Amar (1978), Punhos de Aço: Um Lutador de Rua (1980) e Coração de Caçador (1990). Curiosamente, anos antes, Meryl Streep protagonizou Entre Dois Amores (1985), filme ganhador do Oscar.

–  É o filme mais triste e comovente do mundo, mas ao mesmo tempo não lembrava o quão engraçado ele também é, e como ele tem sacadas de humor hilárias nas reações e falas, graças ao sarcasmo e espirituosidade que o Clint sempre imprime aos filmes dele em algum nível.

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