Bugonia | 2025

Bugonia | 2025

A palavra grega “bugonia” remete à ideia de nascimento espontâneo. Etimologicamente, é construída pela junção dos significados de boi e geração, aludindo ao mito segundo o qual especificamente as abelhas podem nascer a partir de um boi ou animal morto em sacrifício. Segundo a crença, um apicultor chamado Aristeu, após perder suas colmeias, recupera-as por meio da bugonia, fazendo emergir novas abelhas da carcaça de um boi. 

Dessa forma, inspirando-se no mito, Yorgos Lanthimos cria o seu Bugonia, transformando-o em teoria conspiratória que dá estofo a uma narrativa que acompanha o sequestro da CEO de uma grande empresa de biomedicina, Michelle Fuller (Emma Stone), por dois jovens, Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis), obcecados com a ideia de que ela é uma alienígena que almeja destruir o planeta.

Bugonia usa da crença e da conspiração, a princípio, para discutir uma temática cara à existência humana: a ecologia e a necessidade de equilíbrio dos ecossistemas para nossa sobrevivência. E é importante que se diga que trata-se de uma discussão ecológica e também social “a princípio”. Isto porque, a ironia de Lanthimos é tamanha e tão assumida que o decorrer fílmico torna claro que não há qualquer compromisso realmente sério com a mensagem que ele inicia seu longa. Em uma atmosfera de beleza natural exibida em closes, que de tão magnífica e colorida soa artificial, o longa nos apresenta, na sua primeira sequência, ao universo das abelhas e seu sexo limpo, polinizador, responsável pelo fornecimento de ⅓ dos alimentos consumidos pelos seres humanos. Na sequência, contextualiza-nos. O apicultor é Teddy, que juntamente com seu parente Don, numa moradia simples, decadente e rural, se prepara física e mentalmente com meditação, ioga e exercícios caseiros para algo que ainda não compreendemos.

O treinamento mostra-se injusto e desproporcional quando conhecemos o inimigo. Fuller, alvo da ação preparada pelos jovens, é igualmente adepta à ioga e à meditação, mas também das aulas supervisionadas de defesa pessoal, todas praticadas em sua mansão de luxo de brancura hospitalar. Os contrastes sociais são espalhafatosos e dão o tom do sarcasmo que Lanthimos manterá em Bugonia.

Aqui, dispensam-se os óculos escuros de Carpenter, reveladores de quem são “eles”, os alienígenas. Os sinais, as características, estão todas online: a internet, fonte máxima de pesquisa para que cada um crie sua própria teoria conspiratória com convicção absoluta, dá todas as respostas que Teddy, cérebro do plano de sequestro, precisa. Lanthimos notoriamente referencia Eles Vivem tanto nas discrepâncias evidentes de classe como no posicionamento da condição alien como algo a ser descoberto. Em Bugonia, o personagem de Plemons decifra a natureza de sua inimiga através dos indícios de seu perfil no Instagram e do comprimento de seu cabelo, evidências que, segundo suas pesquisas, dão conta que ela pertence a um império situado na galáxia de Andrômeda, fazendo uso dos pelos de sua cabeça para manter contato com a nave-mãe.

De fato, o oprimido é quem bebe abundantemente dessa fonte duvidosa. Lanthimos brinca, sem compromisso, com essa figura, através de um Jesse Plemons limítrofe entre boas intenções e a loucura da alienação. A relação entre opressor e oprimido, a ilusão do poder momentâneo, a mensagem ecológica e a era da pós-verdade se transformam em insanidade também imagética e sensitiva nas mãos do diretor grego (a trilha sonora grita a loucura). Se tudo pode ser verdade, a lógica do diretor é assumir e se divertir com a conspiração. E pronto, temos excessos, sangue, violência e ironia. 

Se a hierarquização social é manifesta nas relações, Bugonia soa exagerado na representação do oprimido. Lanthimos não se importa em ridicularizar essas figuras, para submetê-las cada vez mais profundamente a uma exploração pelo corporativismo representado pela CEO a ponto de fundir a ignorância à classe trabalhadora. Não há vitimização do oprimido, que vai reproduzir a lógica de violência como resposta à sua realidade, e fica evidente a ideia de imutabilidade do poder. Entretanto, o tom da ridicularização ultrapassa os limites de uma ironia que já ficou por nós bem compreendida, tornando-se expressão incômoda de uma classe. 

Em que pese a abundância do deboche, o pessimismo de Yorgos Lanthimos é manifesto. Em meio ao caos sem salvação aparente, para Bugonia, resta-nos confiar no mito, e torcer para que, dos corpos mortos, possam renascer as abelhas – vida renovada por completo, já que tudo que havia antes dela é um projeto falho de existência.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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