Chicharras | 2025

Chicharras | 2025

Maquinários pesados e tratores são transportados até as portas da comunidade indígena de San Pablo de Begú, região serrana de Oaxaca, no México. O grupo de veículos é robusto, intimidador, e conduzido por um homem que tem sua presença intrusiva justificada em virtude da construção: será iniciada a construção de uma estrada de quatro faixas que atravessará o povoado. Essa potencial ameaça é interceptada por uma mulher, Yuli, uma espécie de policial responsável pelo controle de acesso. Em que pese a presença imponente do homem que a pressiona e da hostilidade maquínica, ela não cede, já que não possui qualquer informação a respeito da autorização de tal construção. Nesse contexto, Yuli inicia uma série de contatos com outras autoridades comunitárias, e ao tentar obter de alguma delas alguma confirmação a respeito da iminente invasão, nos revela que aquela comunidade é um corpo político coletivo organizado, distribuído democraticamente em funções burocráticas específicas, que decidem todos os assuntos em conjunto.

Em Chicharras, obra mexicana de gênero híbrido de Luna Marán, é como se nosso olhar recebesse o aval de Yuli para adentrarmos no seio comunitário de San Pablo de Begú, e o portão que guarda com segurança o povo originário e sua cultura se abre para nós de forma gradativa, permitindo nossa integração em sua organização, seus debates, seus problemas, e nos aproximando de seus pares. Em sendo aquele um espaço privado, onde a entrada daquele que vem de fora é minuciosamente controlada pela decisão coletiva, é certo dizer que nós, como espectadores, obtemos o consentimento necessário para observarmos de dentro, e o domínio da diretora na condução parcimoniosa de nossa contemplação carrega o mesmo senso democrático expresso em seu longa. 

Muito embora Chicharras envolva sua trama ao redor da decisão de aceitar ou não a entrada dos maquinários para construção da estrada, esse manifestamente não é seu único propósito. Há, de fato, uma finalidade maior de mostrar o caminho do trabalho coletivo que se segue a partir do dilema, e não de, necessariamente, encontrar a solução derradeira. Apresenta-nos a seus vereadores, seus líderes, prefeitos, e principalmente, atenta-nos às figuras femininas que ocupam esses postos, mulheres que lideram, ocupam cargos decisivos na comunidade, e que seguem sendo mães, esposas e namoradas, mas que sobretudo impõem-se em suas vontades com autonomia. A intenção de destacar tais personagens e suas emancipações se mostra evidente quando, por exemplo, uma das líderes deixa sua casa para comprar leite, e retorna somente muitas horas depois, esclarecendo sem rodeios que encontrou amigos no caminho e parou para beber com eles.

O formato híbrido de Chicharras, que mistura ficção e documentário, permite à diretora alguns gracejos na construção das tramas individuais dos personagens que enriquecem e imprimem leveza à narrativa, que trata sobre a persistência e insistência da invasão colonizadora naquele espaço. A figura de Yuli é central na ficcionalização, e uma importante representação da imposição feminista naquela comunidade. Ela trabalha para o funcionamento da comunidade como instituição, ao mesmo tempo em que vive uma história romântica com seu namorado, que retorna após muito tempo para permanecer com a amada. Ela, entretanto, muito embora apaixonada, tem planos de estudar, e não abrirá mão de seus objetivos. 

Chicharras, premiado no 19º CineBH, onde recebeu menção honrosa do júri da crítica Abraccine, e o prêmio de melhor elenco do júri oficial, é uma obra fluida que nos guia nas entranhas de uma comunidade indígena institucionalmente organizada, ciente de seus problemas, longe de apresentar soluções, mas que nutre um amor por si mesma e por sua juventude que é esperançoso e inspirador como corpo realmente democrático, um filme que se mostra instrumento de luta contra o colonialismo imperecível e beligerante que avassala povos originários – mas que aqui, são barrados e questionados pela força coletiva.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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