Bem-Vindos de Novo (Especial 17ª CineOP)
O coletivo crítico esteve presente na 17ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, ocorrida entre os dias 22 e 27 de junho de 2022. Um dos mais belos filmes do evento foi o longa Bem-Vindos de Novo que conta a história da família do próprio diretor, Marcos Yoshi. Descendentes de japoneses, vivem já há várias gerações no Brasil. Contudo, encontram ainda dificuldades em obter um padrão de vida satisfatório em solo brasileiro. Por isso, seus pais se viram diante da necessidade de retornar ao Japão em busca de melhores empregos. Yoshi e suas irmãs, porém, continuaram no Brasil.
Assim brevemente apresentado, Bem-vindos de Volta já desperta o interesse do espectador em acompanhar o desenrolar dessa história. O grande mérito do filme, no entanto, não está em sua trama, mas no modo inventivo como ela se desenvolve. Tratando de tema bastante conhecido – a história dos descendentes japoneses no Brasil, os chamados dekasseguis –, Yoshi nos insere nessa história passando longe dos clichês documentais que exploram o tema a partir de relatos dos envolvidos alternados com imagens de arquivo. A proposta aqui é radicalmente distinta.
No primeiro ato, conhecemos aspectos do passado daquela família. Chama especialmente a atenção o fato de os pais terem ido para o Japão quando os filhos eram ainda crianças. Voltaram apenas 13 anos depois, quando já eram adultos – Yoshi, inclusive, já estava casado e tinha concluído a Faculdade de Cinema. Nesse sentido, estabelece-se desde já o ponto de partida marcadamente afetivo a partir do qual saberemos um pouco mais da temática dos descendentes japoneses.
A proposta de Yoshi não se vale de dados ou de estatísticas, apenas resolve por meio de sua câmera registrar o cotidiano familiar. É desse modo, e junto do diretor, que conhecemos melhor seus pais nesse reencontro treze anos após a separação. Mas o dia a dia não é registrado a partir de câmeras escondidas, ao contrário, o diretor faz questão de mostrar cenas em que os pais agem de forma artificial diante da presença da câmera e até alguns momentos em que se aproximam do que seria propriamente uma atuação.
Ao longo da trama, porém, o próprio espectador tende a esquecer que está diante de um filme não ficcional e que os registros estão sendo feitos em tempo real. É possível que os próprios familiares de Marcos (Roberto Shinhti Yoshisaki, Yayoko Furukawa Yoshisaki, Nathalie Yoshisaki, Cintya Thayse Yoshisaki e Mitsue Furukawa Yoshi) tenham passado a naturalizar a presença da câmera agindo com considerável naturalidade. Seja como for, o diretor capta diversos momentos daquela família, inclusive aqueles mais sensíveis, evidenciando sua obsessão na produção desse filme.
Após muitos anos filmando a própria família e a relação entre pais e filhos, Yoshi é capaz de oferecer um longa que cumpre um caráter documental, é profundamente sensível e apresenta um bom desenvolvimento, com três atos bastante claros que constroem um sentido para os registros do cotidiano. Méritos de Yoshi e da montagem, a cargo de Yuri Amaral.
Ao apresentar a reconstrução afetiva de uma família dekassegui, Bem-vindo de volta entrega muito mais que isso. É capaz de sutilmente conectar a vida dessa família às questões da política nacional brasileira; de forma igualmente sutil nos apresenta em profundidade um padrão familiar, oferecendo ao espectador a possibilidade de refletir sobre diversos aspectos, especialmente sobre as questões de gênero que atravessam aquela família; e, claro, a partir de uma experiência particular, nos apresenta uma situação de precariedade dos migrantes japoneses que está longe de se limitar apenas àquela família.
Trata-se de um belíssimo filme que, sem contar com apoios importantes para o seu financiamento, foi produzido ao longo de muitos anos. É, pois, uma obra fruto da persistência, da obsessão e do afeto de Yoshi tanto pelo cinema quanto por sua própria família.
