Dog of God | 2025
Entre o sagrado e o profano
Há um nicho de filmes profanos, esses que são feitos para desestabilizar os ditames da moral cristã, para causar repulsa e desvelar os desejos obscuros do ser humano. Talvez Saló, ou 120 Dias de Sodoma (1975), de Pier Paolo Pasolini, seja o mais falado, mas lembremos também de Os Demônios (1971), de Ken Russel, Possessão (1981), de Andrzej Żuławski, Madre Joana dos Anjos (1961), de Jerzy Kawalerowicz, entre outros. Dog of God entra para o clube com méritos. Recheado de blasfêmia, caça às bruxas, orgias e surrealismo, a animação dirigida pelos irmãos Lauris e Raitis Abele nem parece ser conterrânea da fofura Flow (2024), mas reforça a Letônia como nova potência no cinema animado, longe das técnicas e narrativas convencionais.
Ambientado num vilarejo do século XVII, na então Livônia, Dog of God é inspirado na história real de Thiess of Kaltenbrun, um idoso que alegava ser um “lobisomem de Deus”, transformando-se não para aterrorizar pessoas comuns, mas para lutar contra o próprio diabo, ladrões e bruxas. Uma corte luterana o culpou por heresia. Entretanto, esse conto folclórico não é o tema principal do filme, funcionando muito mais como um guia para as tramas que se seguem, ou, ainda, como uma metáfora para o dualismo sagrado/profano. A rotina dos moradores é carregar suas desilusões existenciais do culto religioso na igreja luterana para, depois, afogá-las na bebida da taberna.
A técnica utilizada pelos irmãos Abele é a rotoscopia, quando atores reais são filmados para depois serem “contornados” em desenhos animados. Não é nenhuma novidade, mas algo que pouco se vê no mainstream hoje em dia. A escolha dos diretores por este formato combina perfeitamente com a atmosfera e o tema do filme, principalmente, por dois motivos: a semelhança anatômica dos personagens com o espectador, o que contribui para o sentimento de asco em certos momentos; e a possibilidade de esticar essa proximidade e ao surreal, o que faz a ambientação mais sombria e, consequentemente, mais tensa, como um pesadelo. Os traços não são refinados ou realistas, mas suficientes para que percebamos expressões de espanto, desejo e loucura, como, por exemplo, a cena em que os fiéis estão sedentos para beber o sangue de Cristo e comer seu corpo na comunhão, tudo sob pouca luz, porém carregado de ironia blasfema nos rostos ocultos ali presentes.
O pastor da igreja é a figura central em Dog of God. Capaz de manipular a opinião pública do vilarejo, ele acha por bem acusar Neze, a dona da taberna, de bruxaria. Sabemos que essa acusação é fruto de suas frustrações sexuais e de sua fé fragilizada. Tudo o que vemos nesse personagem é a hipocrisia que cerca a religiosidade e os habitantes daquele lugar. Mesmo que ele trate seu fiel escudeiro como um escravo, os moradores ignoram esse fato e preferem seguir seus sermões para também mirarem suas frustrações em Neze, uma mulher que, na realidade, pratica a ciência e, inclusive, era procurada por eles mesmos quando precisavam de alguma cura milagrosa.
Então, Neze é presa e levada à julgamento por prática de bruxaria, fato que nos apresenta outro personagem importante na história: o Barão que não consegue manter seu pênis ereto para procriar. Entra em cena o sarcasmo político. O Barão é um dos juízes, mas pouco se importa com seu povoado, com os problemas do pastor ou com a suposta feitiçaria. Isso muda quando vê na “bruxa” da taberna a possibilidade de ter uma poção mágica para ereção. Ele troca o líquido mágico pela liberdade da moça e foca somente naquilo que queria: o sexo duradouro com a baronesa. O bizarro é elemento comum no cinema surrealista e está presente em Dog of God desde o começo, muito ligado às aparições místicas do lobisomem de Deus. Quando ele surge, a imagem se torna mais insana e experimental.
O ápice da imagem é também o ápice da loucura em um final insólito. Os Abele com certeza se divertiram e gozaram de liberdade criativa. Dog of God é um folk horror muito bem feito e inventivo, e que sente prazer em ofender as convenções sociais que pautaram a hipocrisia do mundo em que vivemos.
