Eleanor the Great | 2025
Envelhecer, mas sem perder a ternura
Envelhecer é algo inerente ao ser humano, lidar com a velhice, nem tanto. Muitas pessoas não têm sensibilidade com os mais velhos e a sociedade comumente os isola ou os incapacita de forma cruel. Tal comportamento geralmente só é sentido e percebido por quem sofre, pois, não raro vemos um adulto achar que está fazendo bem a um parente idoso o colocando em um asilo, por exemplo, quando o mesmo se sente mal com isso. Eleanor the Great, filme que marca a estreia da atriz Scarlett Johansson na direção, tem um olhar direcionado às nuances da vida de pessoas com idade mais avançada.
O etarismo, por definição, é uma forma de preconceito e discriminação baseada na idade, que, embora possa atingir pessoas de todas as faixas etárias, costuma afetar com mais intensidade os indivíduos mais velhos. Essa discriminação se manifesta de diversas maneiras, por meio de estereótipos, exclusão social, barreiras no mercado de trabalho e até no acesso à saúde.
Escrito por Tory Kamen e protagonizado pela cativante June Squibb, que ano passado estrelou o longa Thelma, de Josh Margolin e brilhou em Nebraska (2013), o filme se mostra um estudo sobre a personagem da espirituosa Eleanor Morgenstein, uma mulher de 94 anos que mantém uma relação distante de sua filha Lisa (Jessica Hecht) e com seu neto (Will Price), que vivem em Nova Iorque. Impossibilitada de morar sozinha após o falecimento de sua melhor amiga Bessie (Rita Zohar), uma sobrevivente do Holocausto com quem Eleanor dividia moradia na Flórida por décadas, ela se vê forçada ir viver na casa de sua filha.
Eleanor começa a ser tratada como uma pessoa frágil, que precisa de cuidados que Lisa não consegue proporcionar na vida agitada entre emprego e maternidade solo, decidindo, então, inscrever a mãe em uma espécie de grupo de convivência para idosos. Lá, inesperadamente, ela forma uma amizade com Nina (Erin Kellyman), uma estudante de 19 anos filha de um famoso âncora de TV, que lida com o luto pela perda recente de sua mãe. As duas se identificam em suas perdas e se unem de maneira fulminante, preenchendo os vazios uma da outra. Enquanto Eleanor parece ganhar uma nova neta que a acha interessante e instigante, Nina supre a ausência da mãe com a única pessoa que foi sensível e acolhedora diante de seu sofrimento recente.
Eleanor, que levava uma vida livre e independente com Bessie, começa a sofrer os desafios de recomeçar a vida, vista de uma forma a qual não estava acostumada. O convívio entre duas pessoas próximas em idade se mostrava algo bem mais pacífico do que o que mantém com sua filha e neto. As peculiaridades da protagonista começam a aparecer e durante as entrevistas e conversas com Nina, entre os desabafos da jovem sobre seu luto e a vontade de saber do passado de Eleanor, acaba contando uma história que ganha vida própria, e uma pequena mentira ganha grandes proporções. A idosa se mostra saudosista ao olhar fotos de sua juventude, porém, mais do que isso, essa cena evidencia que aquele espírito aventureiro da Eleanor do passado, ainda existe na mulher de agora.
O tom de comédia é elegante, muito por mérito da personalidade dada à protagonista por Squibb, que durante quase toda sua carreira só fez papéis coadjuvantes. Em Eleanor the Great ela atinge um nível de carisma encantador, reforçando o ponto de drama do filme, que enfatiza como a vida não termina tão rápido assim na velhice. Quando perguntada pela jovem aspirante a jornalista, que decide entrevistar Eleanor para um artigo da faculdade, como ela se sentia aos 94 anos, ela prontamente responde “eu me sinto como aos 60, nada mudou”.
O longa também se dedica a explorar um pouco o universo de Nina, sua relação familiar fraturada pelo falecimento da mãe, refletindo em um pai relapso, afogado na própria dor e que não encontra tempo para dar a devida atenção à filha. Por vezes ele julga as escolhas dela com soberba e desdém, de alguém mais velho que olha uma jovem sonhadora com descaso. Enquanto ela se esforça para mostrar que quer seguir os passos do pai, ele solta frases que a incentivam a investir em uma carreira de verdade.
Johansson não chega a impressionar, e Eleanor the Great acaba bem mediano, não criando situações profundas ao ponto de emocionar o espectador, mesmo com dramas que envolvem luto e discriminação, cria-se um ambiente afetivo, mas morno. A direção também se mantém tímida ao desenvolver pouco sobre o relacionamento de Eleanor e sua melhor amiga, duas mulheres solitárias que parecem cultivar mais do que uma amizade nessa partilha de vida. Mas, a escolha do elenco foi bastante acertada, assim como a condução sutil dos acontecimentos, que resultam em um filme leve, divertido e reflexivo sobre etarismo. Nada mal para um começo, e que venham mais filmes protagonizados por June Squibb, por favor.
