Emmanuelle | 2024

Emmanuelle | 2024

A releitura do clássico erótico passeia entre o desejo e o desconforto

Com sabor de comida sofisticada requentada, o novo filme da personagem que já mexeu bastante com o imaginário popular dos brasileiros nos anos 2000 se equivoca ao suavizar o erotismo em prol de certa seriedade no trato de temas pessoais e nebulosos da protagonista. Emmanuelle, dirigido por Audrey Diwan faz uma releitura moderna do clássico de 1974, dirigido pelo também francês Just Jaeckin e baseado no romance homônimo de Emmanuelle Arsan. O longa foi um dos primeiros filmes eróticos europeus a alcançar grande sucesso comercial em cinemas convencionais ao redor do mundo.

No Brasil, a série de filmes virou febre entre os espectadores do Cine Band Privé, onde o canal aberto exibia frequentemente suas diversas sequências. Emmanuelle dos anos 70 é ambientado na Tailândia, se mantendo fiel à adaptação do livro, explorando o sexo, mesmo que em um tom softporn, como um genuino prazer pela perversão da personagem-título. Jaeckin ficou conhecido por dirigir diversos filmes eróticos, entre os mais conhecidos está o A História de O (1975). Diwan constrói sua recente carreira traduzindo dramas femininos potentes, como no excelente O Acontecimento, de 2021, onde ela traz fortes reflexões sobre o aborto. 

Talvez, em uma tentativa de não fetichizar demais o sexo e o corpo feminino em uma protagonista já estigmatizada por tais, a diretora tenha seguido por caminhos diferentes e optado também por uma renovação estética luxuosa. Emmanuelle é ambientado em um hotel de alto padrão em Hong Kong, e o longa se passa quase que inteiramente dentro dele, entre momentos no enorme hall de entrada, no restaurante, bar e quartos. A cidade em si é pouco explorada, vislumbramos as luzes de seus arranha-céus através dos vidros embaçados do hotel, ao contrário do que ocorre no filme de 74, onde há um passeio mais intenso pela cultura e ambiência tailandesa. 

Logo no começo, Emmanuelle (Noémie Merlant) está em um voô em direção a China, pois trabalha com controle de qualidade de hotéis de luxo e está a caminho de uma avaliação a ser feita no que é administrado por Margot Parson (Naomi Watts). Nesse vôo, ela flerta com dois homens e acaba fazendo sexo com um deles no banheiro da aeronave. Um sexo rápido, sem paixão, sem olhares, ela está de costas para o desconhecido, quase debruçada na pia e quase sem demostrar satisfação com o ato. Ao sair do banheiro, notamos que seu olhar é distante e triste, não o de uma mulher satisfeita por viver uma aventura inusitada e excitante como parecia ser. Curioso apontar que essa situação dialoga com o filme de Jaeckin, onde dois homens deitados em uma cama de massagem conversam sobre mulheres e sobre como seria absurdo transar no avião. 

É nesse tom o filme vai se seguindo, costurando flertes e insinuações da protagonista, que, diga-se de passagem, caiu bem com a atriz francesa que já interpretou papéis sexys e provocantes em filmes como em Retrato de Uma Jovem em Chamas (2019) e Curiosa (2019). Pena que toda a atmosfera erótica em Emmanuelle é carregada por um trauma ou algum grau de desconforto, não vemos uma entrega realmente prazerosa nas relações vividas pela moça. 

Ainda fazendo contraponto com o filme dos anos 70, onde havia um discurso que, longe de mim chamar de feminista, pregava pela liberdade sexual, onde Emmanuelle era uma modelo casada com um diplomata, em uma relação onde os dois viajavam muito, era explícito que para suprir a ausência física de cada um, eles se permitiam viver aventuras sexuais individuais. No filme de Diwan temos uma Emmanuelle solteira, que vive sua própria liberdade sexual de uma forma mais dura e menos confortável com seus desvios. 

A protagonista trabalha para o mundo corporativo e está quase sempre com vestimentas neutras, em tons mais sóbrios, porém com a pele à mostra, decotes e tecidos que valorizam seu corpo. Naomi Watts é uma atriz sexy, inserida como coadjuvante em um romance erótico e é bastante disperdiçada nesse sentido, cumprindo seu papel de forma burocrática e um pouco sem graça. Faltou graça também na fotografia e na iluminação do filme, que usa mais tons frios do que quentes e se prende a esse universo fechado do hotel. Lá, Emmanuelle se envolve com uma hóspede, Zelda (Chacha Huang), mas é totalmente conduzida por ela, enfraquecendo ainda mais o imaginário de uma Emmanuelle que provoca muito mais do que é provocada. Assim como sua atração súbita por um hóspede que a dispensa, ela fica aficionada por alguém que demonstra falta de desejo por ela.

Achei fácil de relacionar o novo filme com a série The White Lotus, sucesso lançado pela HBO Max, onde acompanhamos as férias de pessoas ricas em hotéis e resorts em locais paradisíacos, bem como cada micro universo dos hóspedes e funcionários, sempre com humor e boa dose de acidez. O que chama a atenção é a pegada cafona do ambiente de luxo, mas que a série abraça de forma interessante e o filme se esforça para assumir como uma estética envolvente para a trama.

Emmanuelle, por fim, acaba nos deixando com a sensação de que faltou muita coisa. O filme se apoia muito em longos diálogos, que por vezes parecem diretamente tirados do livro e lido pelas atrizes, como um entre a protagonista e Parson, assim como quando ela descreve com detalhes (interessantes) um momento sexual para o hóspede misterioso que tenta seduzir. Enfim, o filme castra visualmente o erotismo e não consegue imprimir sutileza, nem intensidade o suficiente para que insinuações e floreios verbais satisfaçam o espectador.

Nota

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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