Enough is Enough | 2026
A República Democrática do Congo carrega a história de um país impossível – não há atmosfera (tristemente) mais adequada do que a da desesperança, do esgotamento e do desamparo para dar forma à Enough is Enough, documentário dirigido por Elisé Sawasawa, que integrou a mostra Panorama da 76ª Berlinale. O país enfrenta décadas de guerra constante. Falar da Guerra do Kivu implica perpassar, invariavelmente, a história política de um país cuja independência, que só ocorreu em 1960 (após 76 anos de domínio belga), foi imediatamente capturada por interesses externos. A violência do colonialismo consolidou ali um modelo de Estado estruturalmente fragilizado, permanentemente atravessado por disputas internacionais em torno de seus recursos naturais.
É essa a arquitetura política que permite compreender os motivos pelos quais o leste do país, região que faz fronteira com Ruanda, Uganda e Burundi, se tornou um espaço de guerra contínua desde 2004, muito embora esse seja um marco discutível, pois há quem diga que o conflito iniciou-se em tempos anteriores. A presença de milícias no território congolês serviu como justificativa para sucessivas intervenções ruandesas e ugandesas, transformando a região do Kivu em uma zona onde exércitos nacionais, grupos rebeldes e forças estrangeiras operam simultaneamente.
Isso pouco aparece nos nossos noticiários. Enough is Enough nos faz combater a indignação seletiva, para que compreendamos alguns conceitos geográficos e de política internacional que não nos são familiares. Elisé Sawasawa não retrocede a história para nos contextualizar, mas nos situa em Goma (capital da província de Kivu), em janeiro de 2025, quando a guerra na região, especificamente, o conflito entre o exército congolês FARDC e o grupo rebelde M23, sofreu uma enorme escalada.
O olhar de Elisé Sawasawa se volta, justamente, para as gravíssimas consequências humanitárias desse assustador conflito. Assistimos a tomada e a queda progressiva de Goma e o esvanecimento da vitalidade de uma população civil, exausta. Enough is Enough se faz testemunha da violência, expondo a falência de um modelo político internacional que transforma missões de paz em dispositivos de gestão do conflito, e não de sua resolução.
Exaustão. Enough is Enough reflete o esgotamento, o cansaço humano extremo daqueles que, há mais de 20 anos, não conhecem outra realidade que não a da guerra e da morte iminente. A câmera de Sawasawa é inquieta, tal qual o povo em fuga que ele registra, em contrafluxo: adultos, crianças e animais se movimentam com pressa, carregando galões de água, mantimentos e o pouco de seus pertences. Tanques circulam nas ruas, jovens carregam armas, a tensão escalona – o prenúncio de um massacre.
Os civis obrigados a abandonarem suas casas são alocados em campos de refugiados mantidos pela MONUSCO (Missão das Nações Unidas para a Estabilização na República Democrática do Congo). Nesse espaço, a comida é feita no chão, o banheiro é um esgoto a céu aberto, há muita gente, muita coisa em pouco espaço, e a busca por um alento mínimo se dá através das manifestações culturais de dança e pelos cultos públicos. Além do risco de morte, pois abre-se fogo contra a população despudoradamente, o tratamento mínimo prestado pelas instituições estrangeiras é desumanizado pelas condições precárias dos campos. Apenas a imagem é capaz de traduzir a dor de uma mãe que desabafa para a câmera: “Veja como vivemos. Temos que comer tampando o nariz. Estão esperando nossas crianças morrerem de cólera para lucrarem nas nossas costas”
A relação da população com a MONUSCO e outras organizações que prestam auxílio humanitário é hostil. Parte da população acusa as instituições de lucrarem com a desgraça e a miséria da região, e clama para que saiam daquele território. Elisé Sawasawa transforma o dispositivo cinematográfico em espaço livre para que o povo se manifeste, de modo que Enough is Enough seja mais do que registro de um momento histórico – interessa-lhe mais o material humano do que o retrato de uma guerra.
O que o resto do país está fazendo? Enough is Enough, revelando uma memória traumática de um povo tratado como rebanho pronto para o abate, se faz denúncia, mas também anúncio de um desejo de que a história da região seja reescrita, não mais por mãos estrangeiras, mas por mãos e vozes autênticas da população. Desde 2004, o conflito já deixou 10 milhões de mortos e 7 milhões de desabrigados – a disputa pelo poder, notoriamente, reflete o capítulo de uma soberania que é continuamente negociada.
English Version:
The Democratic Republic of the Congo carries the history of an impossible country — there is (sadly) no atmosphere more appropriate than that of hopelessness, exhaustion, and helplessness to shape Enough is Enough, a documentary directed by Elisé Sawasawa, which was part of the Panorama section of the 76th Berlinale. The country has faced decades of constant war. Speaking of the Kivu War inevitably means passing through the political history of a country whose independence, which only occurred in 1960 (after 76 years of Belgian rule), was immediately captured by external interests. The violence of colonialism consolidated there a model of state structurally weakened, permanently crossed by international disputes over its natural resources.
It is this political architecture that allows us to understand the reasons why the eastern part of the country, a region bordering Rwanda, Uganda, and Burundi, has become a space of continuous war since 2004, although this is a debatable milestone, as some argue that the conflict began earlier. The presence of militias in Congolese territory served as justification for successive Rwandan and Ugandan interventions, transforming the Kivu region into a zone where national armies, rebel groups, and foreign forces operate simultaneously.
This rarely appears in our news coverage. Enough is Enough makes us confront selective indignation so that we may understand certain geographical and international political concepts that are unfamiliar to us. Elisé Sawasawa does not go back in history to contextualize us, but places us in Goma (the capital of Kivu province), in January 2025, when the war in the region — specifically the conflict between the Congolese army FARDC and the rebel group M23 — experienced a major escalation.
Elisé Sawasawa’s gaze turns precisely to the extremely serious humanitarian consequences of this frightening conflict. We witness the progressive capture and fall of Goma and the fading vitality of an exhausted civilian population. Enough is Enough becomes a witness to violence, exposing the failure of an international political model that transforms peace missions into devices for managing conflict rather than resolving it.
Exhaustion. Enough is Enough reflects the weariness, the extreme human fatigue of those who, for more than 20 years, have known no reality other than war and imminent death. Sawasawa’s camera is restless, much like the fleeing people he records, moving in counterflow: adults, children, and animals hurry along, carrying water jugs, supplies, and the little they own. Tanks move through the streets, young people carry weapons, tension escalates — the prelude to a massacre.
Civilians forced to abandon their homes are allocated to refugee camps maintained by MONUSCO (the United Nations Mission for Stabilization in the Democratic Republic of the Congo). In this space, food is prepared on the ground, the bathroom is an open sewer, there are too many people and too many things in too little space, and the search for minimal relief occurs through cultural expressions of dance and public religious services. Beyond the risk of death — since gunfire is openly directed at the population — the minimal assistance provided by foreign institutions is dehumanized by the precarious conditions of the camps. Only the image is capable of translating the pain of a mother who confides to the camera: “Look at how we live. We have to eat while covering our noses. They are waiting for our children to die of cholera so they can profit from us.”
The population’s relationship with MONUSCO and other organizations providing humanitarian aid is hostile. Part of the population accuses these institutions of profiting from the region’s misfortune and misery and demands that they leave the territory. Elisé Sawasawa transforms the cinematic device into a free space for the people to speak, so that Enough is Enough becomes more than the record of a historical moment — it is more interested in the human material than in portraying a war.
What is the rest of the country doing? Enough is Enough, revealing the traumatic memory of a people treated like a herd ready for slaughter, becomes both denunciation and announcement of a desire for the region’s history to be rewritten, no longer by foreign hands, but by the authentic hands and voices of its population. Since 2004, the conflict has left 10 million dead and 7 million displaced — the struggle for power clearly reflects a chapter of sovereignty that is continuously negotiated.

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