Entrevista com Raquel Hallak – Coordenadora geral da Mostra de Cinema de Tiradentes
Natália Bocanera: Esse ano, foram mais de 38 mil pessoas participantes das ações da Mostra, mais de R$ 10 milhões injetados na economia local, além de terem sido gerados mais de 2500 empregos diretos e indiretos. Muito embora seja visível o movimento que o cinema traz para a economia, vivemos num país cujo setor cultural está constantemente em risco. Como você enxerga e lida com essa dicotomia, considerando que está, digamos, na linha de frente do setor?
Raquel Hallak: Essa dicotomia é real e cotidiana para quem atua na linha de frente da cultura no Brasil. Os números comprovam algo que já sabemos há muito tempo: o cinema e os festivais não são apenas expressões simbólicas, mas motores concretos de desenvolvimento econômico, geração de trabalho e dinamização dos territórios. Ainda assim, o setor cultural segue sendo tratado como acessório, instável e vulnerável a descontinuidades políticas.
Lido com isso combinando dois movimentos complementares: resistência e construção. Resistência no sentido de sustentar projetos continuados mesmo em cenários adversos, reafirmando a cultura como um direito e uma política estrutural. E construção ao estabelecer pontes com o poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil, demonstrando, com dados e experiências, que investir em cultura é investir em desenvolvimento, diversidade, formação crítica e soberania simbólica.
Natália Bocanera: A Mostra de Tiradentes é consolidada como esse lugar seguro e democrático, aberto às mais diversas linguagens cinematográficas, e ilimitado no sentido de proporcionar não apenas a exibição de filmes, mas explorar oficinas, workshops, laboratórios, masterclasses, e ainda discutir o cenário político do audiovisual através do Fórum de Tiradentes. Como esse formato atual foi alcançado? Você acredita que atingiu o formato ideal ou ainda há muito a se fazer?
Raquel Hallak: Esse formato foi sendo construído ao longo do tempo, por escuta, ousadia, coerência e inovação. Desde o início, a Mostra apostou na ideia de que o cinema não se esgota na sala de exibição. Ele é encontro, debate, formação, pensamento crítico e espaço de fricção entre diferentes visões de mundo.
Nada disso nasce pronto. O que existe é um processo contínuo de atualização, atento às transformações do audiovisual, às urgências políticas e às novas gerações de realizadores e espectadores. Eu não acredito em formato final. A Mostra é um organismo vivo. Se hoje ela se consolidou como um território democrático e seguro, é justamente porque segue aberta à revisão, ao diálogo e à experimentação. Ainda há muito a fazer — e isso é, para mim, um sinal de vitalidade.
Natália Bocanera: A quarta edição do Fórum de Tiradentes trouxe discussões que resultaram na reivindicação, através da Carta de Tiradentes, de um Sistema Nacional do Audiovisual. Qual seria o principal objetivo da criação de tal sistema?
Raquel Hallak: O principal objetivo é garantir continuidade, articulação e equilíbrio federativo às políticas públicas do audiovisual brasileiro. Hoje, o setor ainda sofre com ações fragmentadas, descontinuidades institucionais e forte dependência de conjunturas políticas.
Um Sistema Nacional do Audiovisual permitiria integrar União, estados e municípios, articular fomento, formação, preservação, difusão e regulação, além de assegurar previsibilidade e isonomia. Trata-se de pensar o audiovisual como política de Estado, não de governo — reconhecendo sua dimensão econômica, cultural, simbólica e estratégica para o país.
Natália Bocanera: Você pode nos contar um pouco sobre as origens da sua atuação à frente da realização da Mostra de Cinema de Tiradentes? Como tudo começou?
Raquel Hallak: A Mostra de Cinema de Tiradentes nasce, antes de tudo, de uma necessidade concreta e de uma oportunidade simbólica. Inicialmente, foi pensada para inaugurar e dar destinação ao Centro Cultural Yves Alves, um equipamento cultural construído em Tiradentes pela Fundação Roberto Marinho, a pedido de seu idealizador, Yves Alves — então diretor regional da Rede Globo Minas, que faleceu antes da conclusão da obra. O espaço permaneceu fechado por mais de oito meses, sem uso, uma vez que o município não dispunha de recursos para equipá-lo e mantê-lo.
Ao tomar conhecimento dessa situação, elaborei a proposta de realizar uma Mostra de Cinema que pudesse dar uma destinação imediata ao equipamento, mas também pensar sua ocupação no curto, médio e longo prazo. Foi nesse processo de produção que percebi a possibilidade de expandir o projeto para além da inauguração de um espaço, estruturando uma Mostra representativa de Minas Gerais. Isso coincidiu com um momento muito particular do país, marcado pelo início das leis de incentivo à cultura e pela retomada da produção do cinema brasileiro, o que gerou abertura e interesse do setor em acolher um evento audiovisual com esse perfil.
Atuei na idealização, no planejamento, na formatação da programação e na coordenação geral da Mostra, acumulando, naquele início, diferentes frentes de trabalho, em diálogo com profissionais da produção e da curadoria, em um processo profundamente coletivo, mas também bastante artesanal. Essa origem moldou a identidade da Mostra, que desde então se constrói como um espaço de articulação entre cinema, território, política cultural e formação.
A Mostra nasce do desejo de ser uma grande aliada do cinema brasileiro, de fazer um festival diferente e inovador — um espaço de encontro entre filmes, realizadores e público — e se expande organicamente ao longo do tempo, sem nunca perder esse núcleo original, sua essência e identidade.
Natália Bocanera: Em 2027 a Mostra de Cinema de Tiradentes completa 30 anos. Que caminhos e aprendizados 2026 abre para essa grande comemoração?
Raquel Hallak: rque2026 será um ano de escuta, síntese e preparação. Ele nos convida a olhar para trás com consciência histórica, mas também para frente, entendendo os desafios que se colocam para o cinema brasileiro nos próximos anos: a disputa de narrativas, as transformações tecnológicas, a circulação das obras e a preservação da memória audiovisual.
O maior aprendizado é a certeza de que a Mostra só chegou até aqui porque se manteve fiel à sua vocação experimental, crítica e democrática. A celebração dos 30 anos não será apenas comemorativa, mas reflexiva — reafirmando o compromisso com o cinema brasileiro como espaço de imaginação, diversidade e soberania cultural.
