ENTREVISTA | Karol Maia, Aqui Não Entra Luz

ENTREVISTA | Karol Maia, Aqui Não Entra Luz
O coletivo entrevistou a diretora Karol Maia, que estreia em longas-metragens com o documentário Aqui Não Entra Luz.

Um filme que faz ecoar a realidade das empregadas domésticas no Brasil, para muito além do quartinho dos fundos. leia a crítica aqui.

por Mari Dertoni

Mari: Karol, desde o início de sua pesquisa você já sabia que o filme giraria em torno de algo muito pessoal para você, em decorrência de sua relação com sua mãe. O que foi mais desafiador nesse processo: lidar com a evolução dessa questão pessoal, ou de fato concluir o filme? que (conforme mencionado) levou alguns anos para conseguir ser finalizado.

Karol: Acho que, pra mim, o mais difícil foi encontrar o tom, o momento certo e o espaço certo para colocar a minha história no filme. A minha parte e a da minha mãe só entraram no final do processo. Fiquei muitos anos em contato com o material das trabalhadoras domésticas e com o material da arquitetura, e acho que isso foi essencial para que eu encontrasse uma perspectiva coerente com o resto do filme. Eu acho que uma dificuldade levou a outra, acho que se eu tivesse fazendo um filme sem minha mãe e eu poderia ter levado menos tempo pra finalizar.

Mari: Todas as pessoas ouvidas no documentário são mulheres negras e/ou pardas, com idade mais avançada. Há depoimentos de racismo e de maus tratos que fazem analogias à escravidão. Gostaria que você comentasse seus critérios de escolha dessas personagens, baseados nesse recorte etário e de raça, e como eles se refletem no resultado que você imaginou para o seu filme?

Karol: Eu procurei trabalhadoras domésticas que já tinham dormido no quartinho de empregada e, por consequência, encontrei mulheres mais velhas. O quarto de empregada ainda existe como espaço, mas é mais raro encontrar quem durma nele hoje, seja por mudanças de lei, de hábito ou econômicas. Também filmei apenas em capitais; talvez, se eu tivesse ido pro interior, encontrasse mais mulheres ainda morando no trabalho. Das que filmei, somente Marcelina ainda dorme no trabalho.

Eu as escolhi por razões muito diferentes. Algumas me tocaram por falarem pouco, serem desconfiadas, mas ainda assim carregarem histórias que dialogavam com a minha ou com a da minha mãe. Outras por serem diretas, objetivas, práticas. Juntas, elas formam um panorama diverso que mostra formas distintas de lidar com o trabalho doméstico, com as marcas da violência do passado e também com a esperança por um futuro mais digno e com autonomia.   

Mari: Você utiliza takes muito interessantes com a câmera parada e também usa a lente como uma espécie de observador clandestino, que muitas vezes nos faz entrar no universo das casas, ouvindo os ruídos ambientes do fundo dos quartinhos de serviço. Como foi o processo ideológico na construção dessa linguagem dentro do filme?

Karol: Desde o início eu sabia que queria filmar os espaços vazios. Mesmo nos cômodos em que essas mulheres trabalham, minha intenção não era filmá-las em atividade, mas filmar o espaço, para analisar como a disposição da casa organiza o trabalho e, consequentemente, a vida das pessoas.

O trabalho sonoro sempre foi intencional. Desde 2019, em todas as locações de arquitetura que filmei, gravávamos os sons que aquele espaço poderia produzir: passos, arrastar de cadeira, água, ruídos de trabalho. Às vezes nós mesmos criávamos as ações só para capturar o som. A ideia era que, já que o espaço seria visto vazio, ele fosse povoado pelo som  e que cada espectador preenchesse mentalmente o quadro com aquilo que o som convoca.

Mari: Minha mãe, assim como a sua, também trabalhou como doméstica e me recordo de viver por vezes em locais aos quais eu não pertencia, como, por exemplo, na casa dos patrões, interagindo com crianças com condições a bem melhores do que a minha, usando uma piscina que eu nunca tive, etc. Sinto que esse aspecto e vivência te colocam como uma personagem dentro do filme, não apenas como uma narradora/investigadora sobre o tema. Como foi para você assistir o resultado final do documentário e se enxergar alí?

Karol: Demorei para me assumir como personagem também. Mas quando entrei, eu sabia que um ponto caro seria trazer essas memórias de infância, sobre estar na casa dos patrões da minha mãe e o contraste com a minha própria casa.

Acho que esse ponto de vista é bem-vindo num filme sobre trabalho doméstico. Estamos acostumados a ver esse tema pela perspectiva dos patrões, mas também está nascendo uma filmografia do ponto de vista das filhas, sobrinhas e netas das trabalhadoras, como por exemplo:  Filhas de Lavadeiras da Edileuza Penha de Souza, Mucamas do Coletivo Nós Madalena, o Criadas da Carol Rodrigues, o Laudelina e a Felicidade Guerreira da Milena Manfredini.

Construí como eu entraria no filme foi um grande desafio, mas eu sinto que precisava disso para terminá-lo. Eu não poderia fugir do meu próprio filme por muito mais tempo.

Mari: Muito obrigada e parabéns pelo belo filme!

_______________________________

Author

  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

    View all posts

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *