Escrevendo Hawa | 2025
O Afeganistão é o único país do mundo que proíbe estritamente o acesso de mulheres e meninas ao ensino secundário e superior. Desde o retorno do Talibã ao poder em 2021, 1,4 milhões de meninas foram proibidas de frequentar a escola. Em 2024, 80% das meninas em idade escolar foram impedidas de ir às aulas. Para além de uma indiscutível e cabal violação aos direitos fundamentais da pessoa humana, a repressão praticada em razão do gênero arrastará consequências por gerações. A privação de educação, e portanto, a falta de letramento e alfabetização, faz das mulheres seres destinados ao casamento precoce, ao trabalho infantil e à reprodução, e facilita os caminhos à submissão e dependência masculina, religiosa e estatal. Direitos são manifestamente retirados como instrumentalização do controle de um ser humano.
Essa assustadora realidade não possui, neste momento, qualquer perspectiva de encontrar seu fim. Entretanto, muito embora a prática de opressão contra mulheres seja a regra no país, a presença do exército estadunidense em tempos anteriores a 2021 parecia refrear a abusividade de algumas convenções. Num contexto pré-Talibã, a diretora Najiba Noori, jornalista e cineasta, dá início às gravações de Escrevendo Hawa, um projeto cujo objetivo era, a princípio, tornar-se uma carta cinematográfica em homenagem à sua mãe, a Hawa do título. Entretanto, a volta do Talibã altera drasticamente os rumos das filmagens, o que não impede que o documentário seja finalizado, mas interfere diretamente na sua finalidade primária e nos caminhos que ele toma.
Hawa, de fato, é uma figura merecedora de todas as homenagens. É símbolo vivo e concreto das repercussões de um regime ultra-conservador, e representa, ela mesma, o exemplo do que se tornarão as milhões de meninas e mulheres sem acesso à educação nos dias atuais. É uma mulher vítima das uniões arranjadas, que se casou aos 13 anos com um homem 30 anos mais velho. Impedida de ir à escola, foi analfabeta até a vida adulta. Após 40 anos de casamento, com seis filhos adultos (quatro deles são homens), sua vida se resume em cuidar do lar e do marido, que requer atenção permanente, agora idoso e portador de demência. Najiba Noori, a quem foi permitido estudar, resolve encaminhar pequenas revoluções na vida de sua mãe, a incentivando e propiciando a possibilidade de se letrar e iniciar uma vida independente.
Enquanto acompanhamos a jornada de pequenas e diárias libertações, superações e vitórias de Hawa, a família assiste nos noticiários da TV a progressão e a proximidade do retorno do Talibã. Escrevendo Hawa nos permite apreciar os momentos de resiliência e luta de sua protagonista: em que pese saibamos não serem permanentes, são passos que, quando dados, jamais regressarão. Hawa compra livrinhos de educação infantil que lhe servem de norte para que aprenda a ler e escrever, contando, para isso, com a ajuda do neto, que corrige suas lições e lhe dá notas por seu desempenho. Todos participam de seu aprendizado. Ela assume, ainda, seu gosto pela costura, para começar a pensar em realizar o sonho de abrir seu próprio negócio. Delega os cuidados do marido aos filhos mais velhos, para correr atrás de seus objetivos. Vai ao dentista, ao oftalmologista, pinta os cabelos, descobre autoamor e autocuidado. Sua caminhada é bonita e poética. A diretora lhe dá um espaço aberto e seguro para que ela fale sobre sua vida e suas preocupações, enquanto sua câmera a observa afetuosamente. É revigorante assistir ao experimento da persistência por essa mulher que, depois dos 50 anos, redescobre a si mesma e vai tomando as rédeas de sua própria vida.
Najiba Noori permite que seu documentário enxergue além da personagem-título. Ela se conecta à jornada da mãe, e traz, ainda, a realidade perturbadora vivenciada por sua sobrinha, Zahra, de 14 anos: três gerações de mulheres que se encontram para sonharem juntas, e em sororidade, apoiarem-se e fortalecerem-se. Zahra viveu à força com o pai desde os 2 anos porque sua mãe, irmã de Najiba e filha de Hawa, pediu o divórcio, e por esse motivo, perdeu a custódia da filha e qualquer possibilidade de contato com ela. Escrevendo Hawa vai possibilitar o reencontro familiar, para que tracem estratégias sobre como, legalmente, fazer com que a jovem retorne ao convívio de seus parentes maternos. É tocante e doce testemunharmos neta e avó aprendendo a ler e escrever juntas, já que a mais nova também foi privada de educar-se.
As filmagens se estendem por cinco anos (de 2019 a 2023), e como previamente anunciado, a saída repentina e não planejada do exercício estadunidense de solo (e não entrarei no mérito dos motivos altamente questionáveis que os mantinham lá) afegão possibilita um rápido retorno do regime autoritário, provocando drásticas mudanças na vida dessas mulheres conectadas pela batalha conjunta pela liberdade e autonomia. Zahra precisa, com urgência, ser enviada a outro lugar do país para que não seja forçada a se casar pelas imposições do Talibã, sendo separada, novamente, de forma dolorosa, de sua família. Najiba se vê sem alternativas que não sair do país rumo à França de um dia para o outro. De lá, ela se comunicará com a mãe por cartas e terminará seu filme, e por lá, é que decide começá-lo introduzindo Escrevendo Hawa com sua chegada em solo francês, lamentando, em narração, tudo que deixou para trás, e que representa aquilo que preencherá sua carta de amor por meio de imagem em movimento.
O que nasce como um desejo da diretora de fazer algo por sua mãe ao perceber-se, na maturidade, sua melhor amiga, se torna a transformação do próprio “eu” desenvolvido por Hawa em anos de opressão doméstica. A intimidade das duas vai fazer florescer sororidade, vai fazer Hawa recordar amores que sentiu durante sua vida e confidenciar que, não fossem os filhos, teria fugido de casa com aquele por quem se apaixonou. O acordo entre os Estados Unidos e o Talibã, algo que parecia distante, nas telas da TV, influenciou diretamente os sonhos de Hawa e colocou todas as mulheres de uma nação em perigo. O irmão de Najiba, Ali, assume as filmagens do documentário no Afeganistão pós-retorno do Talibã, e é preso e agredido por isso. Ele tira a câmera do lar e a coloca nas ruas, onde orienta-se o uso do hijab como sinal de pureza e dignidade feminina, onde anunciam-se o fechamento de escolas, onde lê-se nos muros que as mulheres afegãs não precisam dos direitos femininos europeus. A história particular, a vida privada de Hawa, é e se torna, através de Escrevendo Hawa, representativa de tantas mulheres e gerações de sonhos interrompidos. A luta é de Hawa, é de Najiba, é de Zahra, é de todas.
