Eternidade | 2025
Ao concebermos uma ideia de futuro, a visualização mental que nos atrai é sempre a de uma realidade melhor do que a que vivenciamos em nossos “hojes”. Almejar um salário maior, uma melhor qualidade de vida, uma casa, uma viagem, constituir família, encontrar a parceira ou parceiro ideal, são anseios que integram nossas existências como motivações para seguir em frente. No entanto, se considerarmos o avanço da idade como fator que limita nossas capacidades físicas e como consequência natural da aproximação da morte, o futuro se veste de concepções menos animadoras. É nesse ponto que a proposta conveniente de vida se torna o próprio passado, momentos que, quiçá, deixamos de viver em plenitude em virtude do constante anseio pelo porvir – e eis que estamos diante de um dos grandes paradoxos de nossa existência.
Se por alguma razão, divina ou não, a eternidade saísse do plano conceitual e se tornasse uma realidade, um espaço e um território onde a contagem do tempo não mais ditasse regras, qual seria seu formato ideal? Se possuir um corpo físico fosse permitido nesse universo eterno, qual seria a versão perfeita para usufruir o gozo da existência imortal? Eternidade, novo longa da A24 dirigido por David Freyne, especula essa possibilidade através da propositura fantasiosa de uma espécie de limbo, um espaço transitório onde as almas recém-falecidas precisam escolher onde desejam desfrutar o resto de seus, agora intermináveis, dias – como se estivessem escolhendo onde passar as próximas férias numa enorme feira de convenções de viagens.
Esse microcosmo transitório mantém-se organizado emulando a sociedade dos viventes, e portanto, funciona por regras burocráticas e pela força de trabalho de almas que decidem ali permanecer. Nele, Joan (Elizabeth Olsen) e seus dois maridos, Larry (Miles Teller) e Luke (Callum Turner) se encontram, impondo-se a ela a decisão conflituosa (e clássica do gênero): com qual dos esposos ela deseja viver eternamente? Luke é o primeiro marido, morto precocemente na Guerra da Coréia, com quem ela nunca teve a oportunidade de construir uma longa história. Sua alma optou por não ir ao mundo perfeito para viver de forma perene, aguardando a chegada da amada. Larry, por seu turno, é o segundo cônjuge, aquele com quem ela constituiu família e viveu até o fim dos dias (dele). Guiados por Anna (Da’Vine Joy Randolph) e Ryan (John Early), obreiros desse sistema, responsáveis por orientar os espíritos a seus destinos finais, os dois homens entram em disputa pela decisão de Joan.
Eternidade é uma comédia romântica que caminha lado a lado com outros longas de 2025, Amores Materialistas, de Celine Song, e A Grande Viagem de Sua Vida, de Kogonada, naquilo que diz respeito, basicamente, a mulheres que precisam refletir e deliberar sobre seus relacionamentos e as possibilidades de caminhos que eles oferecem. Enquanto o filme de Kogonada possui a melancolia que falta ao longa de Song, David Freyne permite que a leveza da comédia domine os espaços de seu mundo artificial, e tal como o cineasta sul-coreano, assume a fantasia como meio de propor o absurdo para conduzir histórias muito humanas – e não há qualquer tristeza em seu universo dos mortos.
Acerca desse universo, Eternidade parte da ideia do purgatório como um não-lugar transitório, um espaço de passagem, idas e vindas, representado pela imagem da estação de trem como portal entre mundos. Esse imaginário reforçado pelo cinema e pela literatura, mas de fundo e origem religiosa, é trazido por Freyne como um grande cassino ou hotel, uma área fechada, onde o sol, a lua e o céu são artificiais (como uma grande cortina trocada de vez em quando para simular dia e noite), e cuja direção de arte reforça o conceito de retrotopia, ou seja, a ideia do passado como o tempo perfeito para se viver. Ornamentado por mobílias, carpetes e objetos que atendem a uma estética vintage dos anos 50 ou 60, corroborado pela fotografia onírica e ruidosa e pelos figurinos de mesmo valor nostálgico, esse mundo surreal converge com a realidade da juventude experimentada pelos personagens, que retornam em suas versões mais felizes – ou seja, em seus casos, quando possuíam entre 20 e 30 anos.
Replicando a vida em sociedade e seus trâmites, a retrotopia se faz presente, ainda, nos mundos eternos que são oferecidos às almas em trânsito. A gama infinita de lugares possíveis para viver o perpétuo reproduz a esfera material, e portanto, tempos e espaços passados, traduzidos em utopias particulares: mundos da idade média sem lepra, manfree, queer, capitalista, praia, montanha, fumante, espião, sunset, Alemanha sem nazistas, ou seja, de parques de diversões a vidas tranquilas, todos são reforços, em tese, melhorados, daqueles concretos.
Aos idealismos de mundo e vida, somam-se os relacionamentos, o material humano: qual dos dois homens é o perfeito para que Joan viva sua eternidade? Aqui, residem os maiores clichês da comédia romântica assumidos por Eternidade. A personagem é colocada diante de duas figuras consagradas do gênero, o homem perfeito, por quem ela nutre uma paixão intensa, ou o homem imperfeito, que é aquele que ela conhece, ambos almejando impor-se sobre os desejos dela como mulher. Esses contrapontos são expressados também com uma certa dose de retrotopia, já que Luke representa o parceiro ideal justamente por ter ficado no passado, em razão de sua morte precoce. As disputas masculinas pela mulher vão seguir seu trajeto convencional com bom humor, os inimigos, em algum ponto, se reconciliam, e entre a jornada de escolha de Joan, haverá autoconhecimento. Entretanto, em que pese a doçura no tratamento dos relacionamentos duradouros em superação a todos os problemas rotineiros, a necessidade de prevalência da opção ainda soa um tanto conservadora – e não é a toa que haverá um mundo em que se reproduz a típica vida da família americana capitalista.
Ao lidar com temas existencialistas através dos relacionamentos amorosos e com o espírito bem humorado da comédia romântica, Eternidade é leve e coloca o sentimentalismo no próprio romance, sem se comprometer em desmistificar os idealismos de felicidade monogâmica presentes na concretude de nossa realidade, assumindo-se, assim, como uma fantasia sumamente agradável – onde, entretanto, a mulher ainda precisa da permissão do homem para ser feliz.
