Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha | 2026

Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha | 2026

Existem forças femininas que não são deste mundo. São tamanhas que é necessário um foguete, ou qualquer outro veículo que seja capaz de transportá-las ao espaço, literal ou metaforicamente, para que possam ser exercidas com liberdade plena, sem restrições. Quando falta ao mundo terreno compreensão a respeito dessa imensidão feminina, abrem-se portas para que outros campos de existência possam ser acessados. Em Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha, a diretora Janaína Marques Ribeiro transforma a dor em memória criada, fictícia, para unir e reconciliar duas mulheres, a filha Rosa (Verônica Cavalcanti) e a mãe Dalva (Luciana Souza), vidas que foram fisicamente separadas, mas cujo elo é inabalável ao ponto de tornar real aquilo que a mente imagina.

Rosa viu a mãe fugir de casa, prometer voltar para buscá-la e descumprir sua promessa, não por vontade própria, mas porque passou os próximos 30 anos em uma prisão após ser condenada por um suposto crime. Símbolos e metáforas são poesia imagética na mente criativa de Rosa, que durante a realização de uma ressonância magnética de crânio, no espaço claustrofóbico da máquina que mapeia seu cérebro, é instada a se recordar de uma memória feliz para se distrair – ela não a tem, mas a desenha como gostaria que tivesse sido.

Dalva comete um crime para evitar outro – que seria praticado contra a mulher que ela amava. Rosa, a filha, já adulta, amarrada a um casamento infeliz, está em processo de divórcio e luta por seus direitos pelo pouco que conquistou – o carrinho de hot dog que a sustenta. Janaína Marques Ribeiro conecta, num ciclo, mulheres que tiveram suas vidas marcadas pela opressão e violência masculina, que é onipresente no longa. Homens são mencionados, ouvimos suas vozes, mas não os vemos. Com rigor e cuidado na composição da mise en scène, a qual podemos apreciar com atenção através dos planos fixos e longos que a diretora usa para imaginar a memória de Rosa, constrói-se um mundo majoritariamente feminino. Lojas de disfarces compostas por bonecas e perucas, o cor-de-rosa que domina ambientes, as estampas florais e de oncinha, as cores vibrantes, são elementos de feminilidade inseridos nesse universo e que trazem bom humor a essa jornada geracional.

O adentrar e habitar a própria mente já carrega consigo uma dimensão autoanalítica e existencial que Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha eleva através da atmosfera sideral e onírica, inserida pela ideia cósmica contida no título, e que se reflete em cada elemento fílmico. A protagonista, Dalva, expressa uma desorientação situacional que emula seu estado emocional, que busca a mãe que ora se materializa, ora parece evaporar. A trilha sonora carrega consigo um fio condutor da estranheza que nos faz penetrar a mente da personagem, trabalho que em conjunto com o som formam uma constante, uma corrente elétrica que, em volumes oscilantes, soa como um disco arranhado, reforçando a sensação de paralisia e suspensão do tempo naquele espaço imaginativo.

Se Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha é banhado por vigores femininos, seja em descobrimento, como é o caso de Rosa, seja em inabalável vigência, como é o caso de Dalva, é preciso dizer que a energia que emana de Luciana Souza é, de fato, um acontecimento. A personagem preenche a tela, quase ofuscando a filha, e faz falta quando ausente, o que diz muito a respeito da relação entre ambas e o sentimento de abandono filial e de vazio que a protagonista só preenche com a presença cheia de vida da mãe. Na memória feliz ficcional, mãe empodera filha com seu pulsar, seu ar provocativo e desafiador, que se apropria da canção “Sangue latino” de Ney Matogrosso para cantá-la a seu próprio modo: desacata no lugar de desabafar, assume pecados e não se dá por vencida.

Muito embora evidentemente seja profunda a mácula causada pela ausência da mãe e concretos os seus efeitos, trata-se de uma reconciliação geracional que não busca julgar a maternidade – aponta o que seriam erros, mas compreende que muito se saiu do controle. Dalva é espelho de Rosa, anseia por encontrar a referência feminina que não teve na infância. Nesse encontro onírico, mãe e filha têm idades semelhantes, mas praticam o cuidado mútuo como se estivessem se conhecendo pela primeira vez, dialogando por palavras e olhares que refletem uma conexão que transcende o convívio.

Essa aventura imaginada entre mãe e filha em Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha, que dá direito a assaltos a mão armada, fugas no deserto e um hotel chamado “Toca do Coelho”, cujo letreiro pisca em azul e vermelho, é expressa e clara em sua ideia. Para um longa que se entrega ao misticismo e que se assume como uma espécie de autoterapia da protagonista, que ocorre apenas no espaço fechado de sua mente, a potência transcendental criada pelas imagens por vezes é suavemente interrompida quando o filme opta por verbalizar aquilo que já estava sendo plenamente sentido.

Feliz ou não, a lembrança imaginada pela protagonista ao menos lhe permite a prática do perdão. Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha é processo de cura que se inicia na máquina de ressonância magnética e termina num foguete de papelão infantil – e o que os conecta é o dispositivo que fecha a mente em si para permitir perdão e reflexão.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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