Frankenstein | 2025

Frankenstein | 2025

Que o fascínio de Guillermo del Toro por criaturas fantásticas é marca em seu histórico cinematográfico, não é necessário que se ressalte. Um olhar rápido por sua filmografia dá conta da obsessão do diretor pelo universo fantástico, pelo terror gótico e pela presença da melancolia através de seus familiares toques dramáticos. É possível afirmar que, em que pese a imponência do grotesco em suas obras, del Toro possui uma capacidade ímpar de imprimir um romantismo que faz com que não sejamos repelidos pelo horror dessas figuras, mas sim, nos sintamos atraídos e empáticos por elas – submete-as a um processo de humanização, ainda que sejam relegadas a uma categoria humanóide, ou cuja natureza humana lhes seja negada. 

Em Frankenstein, o ser trazido à vida a partir da junção de retalhos de cadáveres – diga-se, mortos em condição marginal ou vindos de pessoas marginalizadas – é um desses a quem é negada a classificação humana, muito embora seja integralmente composto por nossa matéria. Criação literária de Mary Shelley publicada em 1818 como primórdios da ficção científica moderna, a criatura apresenta, originalmente, todos os aspectos que interessam à del Toro. Era quase que natural e esperado que, em algum momento de sua carreira, o diretor adaptasse o clássico, que já ganhou vida fílmica por James Whale, na sua mais famosa versão (Frankenstein, 1931), e por Kenneth Branagh (Frankenstein de Mary Shelley, 1994). 

A adaptação de 1931, que integrou o projeto Monstros da Universal, aposta de sucesso do estúdio nos anos 20 e 30, foi uma das responsáveis por consolidar o terror como gênero cinematográfico, ditando convenções e inserindo elementos estéticos que servem de mote às obras conhecidas por nós até a contemporaneidade. Assumindo um caráter assassino e vilanesco da criatura monstruosa, como se carregasse um instinto maldoso inerente, James Whale opta por desumanizá-la em prol da preservação moral do cientista que o criou, Victor Frankenstein, afastando-se do dilema ético e empático que acompanha a literatura de Shelley. 

Frankenstein de Guillermo del Toro resgata a humanização do ser criado pela obsessão e pelo endeusamento do homem, para fazer o reverso – enquanto a criatura se humaniza, o criador caminha para a monstrificação. Grandioso e pouco econômico na imponência de espaços, arquitetura, figurinos e direção de arte, que lhe permitem exaltar a narrativa gótica, bem representada pelo constante mau tempo e frio extremo provocado pelas nevascas, a releitura do clássico de Shelley engana-nos em seu prelúdio. Situando-nos em 1857, a criação (interpretada por Jacob Elordi), em seu aspecto mais animalesco, repugnante e violento, brada de forma aterrorizante com voz computadorizada (um tanto artificial) e encontra o cientista num navio encalhado na neve infinita e desoladora, ameaçando a vida dos tripulantes para alcançar seu cego objetivo. Ali, somos apresentados a um ser irracional, vilanesco, cujo único diretório é o ódio e a vingança. 

Igualmente irracional é o capitão da embarcação imobilizada, Anderson (Lars Mikkelsen), um homem que leva seus tripulantes até às últimas consequências, motivado por um propósito que já não mais parece ter sentido: chegar até o Polo Norte, ainda que isso signifique a morte de todos. Ele acolhe um fugitivo e debilitado Victor Frankenstein (Oscar Isaac), comprometendo ainda mais seus oficiais e causando a morte de muitos deles. Enquanto o monstro de ossos aparentes avança sobre o navio, o médico adoecido, arrependido de sua criação, se dispõe a contar sua história à um interessado Anderson, e a narrativa se assume poética pela contação dos fatos ocorridos outrora, no capítulo Victor’s Tale

Naquele ambiente gélido, onde homens disputam poder através do manejo da ciência e do seio familiar, pairando a frieza nas relações, a única fonte de calor vem das mulheres, representada pela figura materna de Claire Frankenstein (Lauren Collins) e de Elizabeth Lavenza (Mia Goth), essa última expressando concomitantemente o desejo e a inocência. É através delas que vermelhos e verdes muito vibrantes destacam-se do tom glacial perene, ora profundamente branco, quando em ambientes externos, ora azul escuro e acinzentado quando em internos. 

Em Victor’s Tale, assistimos a triste infância do médico, reprimido pela rigidez do pai, Leopold (Charles Dance). Sua mãe carrega nas vestimentas um vermelho vivo que, muito embora represente um sentimento mais vibrante que fortalece o filho, simboliza, inevitavelmente, um mau presságio por seu aspecto sanguinário. Elizabeth, noiva do irmão de Victor, William (Felix Kammerer), por outro lado, desestabiliza o cientista egoísta, não só pela tensão sexual que sua presença lhe causa, mas também por nutrir um interesse por criaturas que muito se assemelha ao dele. O entusiasmo dela, entretanto, é pela inocência desses seres diminutos, especialmente dos insetos, dedicando-lhes um afeto que Victor desconhece. Elizabeth é dona de uma vitalidade atraente e sua conexão com a natureza se mostra presente no verde pulsante das rendas e véus que ela usa – véu esse que, em tons mais frios, acompanha todas as personagens femininas, a expressão da opressão que as silencia e o reforço de suas áureas angelicais.

O processo de criação ocupa boa parte do capítulo narrado em off por Victor, e del Toro traz equilíbrio ao contraste da repugnância e do horror da busca por frações de corpos mortos em meio à multidão de cadáveres, do excesso de sangue, da mutilação e da gelidez, à certo humor com pitadas de graciosidade, que são trazidas pela trilha sonora de Alexandre Desplat. Enquanto assistimos Frankenstein utilizar um serrote para seccionar membros e despejar restos humanos no esgoto, chega aos nossos ouvidos uma melodia docemente bem-humorada, que reflete o modo afetuoso com que o diretor lida com o cinema de horror.

Se em Victor’s Tale o médico narra sua própria arrogância e degeneração ao status de monstro e demônio na busca (eficaz) pela conquista da morte, em Creature’s Tale, a desafortunada criatura, gerada a partir da junção de ossários, nos oferece o mundo e os fatos por seus olhos. 

Foragida e longe da torre que a aprisionou, ela se embrenha pelas florestas que resistem ao inverno rigoroso para mimetizar e aprender modos bondosos e respeitosos com os animais que encontra pelo caminho, até deparar-se com uma cabana, onde vive uma família pela qual ela começa a se afeiçoar, mesmo à distância. Almejando fazer parte dela, começa a oferecer gentilezas, que são interpretadas como ações de um “espírito da floresta”, criando um laço especialmente forte com o membro mais idoso daquele núcleo. Ela aprende logo, porém, a lógica da violência para sobrevivência, e como um ser repulsivo aos olhos, é repelida e tem suas intenções distorcidas pela aparência. Compreendendo a natureza infeliz de sua existência e sua incapacidade de morrer, ele parte em busca de seu criador, para requerer que lhe faça uma companheira que alivie sua desgraça: “não posso morrer nem viver só”. E aqui, os tempos narrativos se unem.

Frankenstein é impecável como desbunde visual inerente à natureza de sua produção, coerente ao imaginário de Guillermo del Toro e sua afetuosa relação nutrida em sua carreira pelas criaturas que o cinema e a literatura nos dão. A humanização do grotesco e a desumanização do homem são seus estudos de maior interesse, e aqui, o equilíbrio entre o doçura e o horrendo, a loucura e a gentileza, fazem de sua obra um instrumento eficaz de prazer visual, mas que soa, por vezes, polido demais em sua capacidade de provocar as emoções que promete, através, principalmente, do texto didático e da trilha sonora reveladora e dramática.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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