Galinha | 2025

Galinha | 2025

Uma enérgica e divertida fábula sobre galinhas

Filmes de ficção que usam a perspectiva e ponto de vista de animais costumam chamar a atenção justamente por explorar uma realidade a qual nós humanos desconhecemos. Os diretores então precisam usar criatividade extra e muita pesquisa de campo para captar o universo particular de outra espécie. Galinha, novo longa do diretor húngaro Pálfi György, é um conto excêntrico narrado inteiramente através da realidade de uma galinha como protagonista. O longa está longe de seguir os moldes de filmes como Baby, O Porquinho Atrapalhado, por exemplo, embora também penda bastante para a comédia, não é nada infantil e o trato do animal em cena é essencialmente realista, a protagonista não fala, nem pensa alto, ela cacareja e produz sons naturais de uma galinha.

Após passar por uma inspeção de animais na granja onde vivia, a única galinha de penas pretas é rejeitada, com isso ela acaba virando a intenção de jantar do motorista do caminhão que faz o transporte dos bichos. Em uma parada na estrada ela consegue escapar, e a ave então enfrenta pela primeira vez animais selvagens no caminho, foge freneticamente de uma raposa caçadora e desvia com maestria de veículos em alta velocidade. 

György constroi um ritmo instigante em Galinha e a equipe revela em entrevista ter usado oito aves de penas pretas (Eszti, Szandi, Feri, Enci, Eti, Enikő, Nóra e Anett), todas treinadas para o papel principal, e mais duas galinhas dublês responsáveis por feitos mais complexos, como pular bem alto. Muitos ficam se perguntando como deve ter sido difícil dirigir a cena da galinha em Cidade de Deus (2002) de Fernando Meirelles, onde ele opta pelo uso de muitos cortes e uma câmera rasteira que acompanha a ave. O diretor húngaro acaba revelando outros truques e se sai muito bem em manter sua obra com animais reais, sem o uso de CGIs, como no recente Bom Menino (2025), filme de terror sobrenatural, no qual o protagonismo é assumido por um cãozinho simpático, que atua do início ao fim sem uso de efeitos.

A galinha de penas pretas, que arranca risos dos espectadores ao correr toda desengonçada pelas ruas, cruzando caminho com movimentos populares e protestos políticos, acaba encontrando abrigo no pátio de um antigo restaurante falido. No local, através das interações do dono do lugar e de sua filha com o animal, percebemos que ele é usado por criminosos para contrabando e tráfico internacional de pessoas. Aí o filme se perde um pouco e começa a explorar nuances da vida humana, violenta e desajustada, que são bem menos interessantes do que o romance que a galinha desenvolve com o único macho do galinheiro, por exemplo. 

Em um galinheiro o galo é fundamental para a reprodução, pois fertiliza os ovos para a eclosão de pintinhos e também atua como protetor e líder. Em média conta-se um galo para cerca de 6 galinhas, ou seja, eles vivem praticamente em um harém. A galinha protagonista, por conta de sua cor e penugem diferenciada acaba tornando-se a queridinha do galo, deixando as outras aves, que são menores do que ela, meio depenadas e castigadas pelo tempo, com inveja. Começa então um romance tórrido e a galinha, em certo ponto passa a se preocupar com a integridade dos ovos que põe quase diariamente e que são constantemente levados embora por mãos humanas. 

Nessa fase protecionista a ave comete algumas atitudes questionáveis e que resultam em eventos chocantes, como incêndios e mortes. Ela quase é morta por um cão e enterrada viva, mas ressurge soberana focada em seu instinto maternal e na saudade de seu amado que acaba morrendo em um confronto entre humanos.

Galinha é um filme criativo, despretensioso e despudorado, que diverte e avança em refletir sobre os comportamentos extremamente instintivos dos animais, sobre a fragilidade da vida e a banalidade da violência entre os homens. Não se sai tão bem quando foca em humanos, mas ousa desde o início, quando nos apresenta o plano fechadíssimo de uma cloaca chocando um ovo. Uma experiência visual imersiva e tanto, sob uma perspectiva deveras interessante.

Nota

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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