I Fell in Love with a Z-Grade Director in Brooklyn | 2025
Romance e comédia numa divertida saga para se fazer um filme de horror
“Fazer cinema” é um assunto bastante explorado em filmes, desde o clássico francês A Noite Americana (1973) de Truffaut, até cults modernos de baixíssimo orçamento como One Cut of the Dead (2017), do japonês Shin’ichirô Ueda. Em I Fell in Love with a Z-Grade Director in Brooklyn, novo e divertido longa do diretor independente Ken’ichi Ugana, acompanhamos uma paixão ardente pela sétima arte, que brinca com a comédia, o romance e o terror.
Usando poucos recursos e prezando por um cinema mais cru e simplista, que valoriza o básico e o entusiasmo por aquilo que faz, Uganda mergulha na linguagem cinematográfica underground, cheio de referencias punks (no figurino, hair style e atitudes) para fazer seu filme. O longa se desenvolve em torno da mente inquieta de um jovem diretor em Nova Iorque, que ama terror e sonha em realizar seu primeiro longa-metragem.
Explorando os detalhes e dificuldades do “cinema de guerrilha”, aquele do do it yourself, somos cativados pelo obstinado Jack, interpretado por Estevan Muñoz, jovem ator que também é roteirista e co-escreveu um filme com seu irmão (Este Does Not Make A Movie) em 2017. Nele, Muñoz também interpreta um diretor independente e esse papel parece ser o motivo de ter sido escalado para I Fell in Love with a Z-Grade Director in Brooklyn e de se sair tão bem como Jack.
A mise-en-scène e a direção de arte são pensadas para impressionar fãs de horror. A casa do protagonista tem paredes tomadas por enormes cartazes de filmes de diretores como Shinya Tsukamoto, Dario Argento e obras cult e trash como Creepshow (1982) e Hard Rock Zombies (1985), que nos inserem nas influências e no tom de mergulho no gênero que Uganda quer passar.
Jack se vê em um impasse quando a atriz que protagonizaria seu longa abandona as filmagens. Em um bar, onde para pra beber, afogar as mágoas e tentar achar uma saída com sua equipe (composta basicamente por um grupo de amigos), ele conhece Shina (Ui Mihara), uma jovem atriz japonesa experiente, perdida em Nova York sem dinheiro ou telefone após um término conturbado com seu namorado.
Com a entrada de Shina em cena há, primeiramente, um afobado interesse de Jack em colocá-la como substituta de sua protagonista, mas conforme a relação dos dois se estreita o filme envereda em um tom de comédia romântica, que passa a ser um dos pontos centrais em I Fell in Love with a Z-Grade Director in Brooklyn. Jack a abriga e tenta, de forma desajeitada, se comunicar em inglês com a moça que só fala e entende japonês.

O tom sempre leve e brincalhão das fases da evolução das filmagens entre a equipe de amigos e o constante entusiasmo do jovem protagonista em mostrar os pontos mais legais de Nova York para Shina, percebendo-se cada vez mais apaixonado por ela, ditam a atmosfera agridoce que pende sempre mais para a comédia do que para o terror no filme.
O cinema de gênero se faz presente no longa de Ugana através das referências e homenagens, principalmente ao horror japonês, quando a protagonista de seu filme é um espírito que lembra a figura de Sadako Sasaki de O Chamado (2002), por exemplo, e um icônico beijo sob uma chuva vermelho sangue. O diretor consegue transitar de uma maneira divertida pelo romance e a comédia, amparado pelo uso da metalinguagem, trazendo aspectos afetuosos de algo que mostra amar profundamente, sem perder o carisma de um cinema independente e apaixonado.
Esse texto faz parte da cobertura do Fantasia International Film Festival, acompanhe aqui.
