I Heard That They Are Not Going To See Each Other Anymore | 2026

I Heard That They Are Not Going To See Each Other Anymore | 2026

Dilemas do amor líquido

Qualquer classificação identitária é, naturalmente, uma imposição de limites. Nós fazemos isso constantemente com o pretexto de organizar melhor a vida, na pretensão de entendê-la e controlá-la. No cinema, por exemplo, criamos divisões de gêneros e subgêneros, mas, ainda assim, algumas obras insistem em escapar desses rótulos, quebrando com as convenções. É o caso de I Heard That They Are Not Going To See Each Other Anymore, onde a diretora honconguesa Wong Ka-ki dissolve a linha que divide ficção e documentário, fazendo seus atores performarem suas próprias dores amorosas, matéria-prima para evidenciar a liquidez do amor moderno nas grandes cidades.

Seguimos duas histórias de amor incompleto, cada uma a seu modo: a entre os jovens Tao e Shin, e a de Melih, um imigrante turco, e Yu-Ping. Não há uma lógica narrativa que ligue seus caminhos, visto que Wong se interessa muito mais pela impressão afetiva daquilo que registra. Aliás, a assunção dessa desconexão como mote da montagem do filme é seu grande mérito, lembrando muito o estilo de Wong Kar-wai, que parece ser uma grande inspiração para a cineasta. Esse privilégio da imagem abre espaço para experimentações de filtros, cores e movimentos de câmera que tornam a obra instigante desde o início.

Perambulando por Taipei, Tao é uma garota peculiar, impulsiva e autêntica, em conflito com as memórias de seu romance com Shin, um amor que, na verdade, nunca se concretiza. Seu dilema é belamente expresso em um longo plano-sequência em que os dois se atraem e se repelem sentados na garupa de uma motocicleta. Entre tapas e beijos, nunca saberemos a realidade entre eles, porém fica estabelecida a ambiguidade de seus desejos. É um amor que machuca, que busca ficar gravado à mesma medida em que quer desaparecer. 

Numa esquina da mesma cidade, Melih gerencia sua loja de macarrão. Seu aspecto melancólico contrasta com o que vimos em Tao. Ele é retraído e quieto, o que condiz com sua crônica amorosa. Certo dia, Yu-Ping deixa-lhe uma flor em um vaso e some. Incapaz de compreender seu relacionamento, nada mais parece fazer sentido para Melih, que agora vive o luto entre bares e conversas com sua estranha flor.

 Como dito, I Heard That They Are Not Going To See Each Other Anymore não segue uma linha narrativa, e até mais da metade da projeção pouco, ou quase nada, tem de documental. A princípio, o filme parece muito mais uma experimentação sobre a complexidade do amor líquido, este que nasce e morre com uma rapidez cruel, que sempre se mostra indeterminado entre a dor e a cura, como são os personagens. Gradativamente surgem entrevistas com os atores, filmagens de uma câmera amadora dos bastidores das cenas, e até comentários espontâneos de Tao e Melih e da própria equipe. Não há mais divisão entre ficção e documentário, assim como não há concretude entre memórias e desejos nas relações humanas. 

I Heard That They Are Not Going To See Each Other Anymore faz jus ao título e não tem medo de se colocar diante desse estado de latência. Ouvir dizer que alguém não vai mais ver a pessoa amada não é uma certeza, assim como o sentimento de que um amor poderia ser algo que nunca foi: saudades do que não se viveu.

Comparações com o cinema de Wong Kar-wai são inevitáveis, em estilo e/ou temática. Wong Ka-ki não esconde suas referências, e algumas vezes se deixa perder para elas, repetindo conceitos que acabam esvaziando seu propósito dentro da obra em prol da emulação de filmes como Amores Expressos (1994). Entretanto, sua ideia documento-ficcional para tratar de corações partidos lhe dá originalidade, resultando num experimento sensível sobre relações que, como o próprio longa sugere, talvez nunca tenham existido por inteiro.

Nota:

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