Jay Kelly | 2025

Jay Kelly | 2025

De modo bastante resumido, se realizar cinema consiste na superação do mero ato de reprodução de um roteiro, para se conceituar como a exploração e a experimentação de como fazê-lo, a escolha da forma importa diretamente no impacto, nas sensações, nos sentimentos e nas descobertas que a linguagem, usada de um modo específico, causará. Na metalinguagem cinematográfica, a intenção de revelar o dispositivo, de tirar o espectador da passividade para torná-lo consciente do processo de criação, justifica-se no efeito pretendido com seu uso, sob pena de tornar-se meramente fetichista. Veja-se que o artista, o criador, quando se presta a falar sobre sua arte através da arte, descortina-se como um apaixonado pelo que faz, e é sublime quando se é possível sentir essa paixão.

Em Jay Kelly, Noah Baumbach se dispõe a realizar uma metalinguagem existencial, para refleti-la por meio da figura do ator, que empresta sua identidade e fabrica muitas outras em prol de filmes que o fizeram tornar-se parte integrante do que chamamos de “magia do cinema”. O personagem-título, vivido por George Clooney, abandona-se como pessoa para transformar-se na própria arte, ao custo de seu afastamento das filhas, familiares, amigos e de sua própria identidade. Acompanhamos sua jornada de autorreflexão, retorno ao passado e tentativas frustradas de remendá-lo com o presente. Entretanto, se a metalinguagem, aqui, não é fetichista, e se sobram inspirações a Baumbach para fazê-lo (Ingmar Bergman, Satyajit Ray e Woody Allen são aqui reconhecíveis), falta-lhe o elemento emocional e sensitivo – Jay Kelly é tão frio e distante quanto seu próprio protagonista, mas sem as chances de redenção deste, de modo que o que sentimos, na realidade, é apenas o excesso de pretensão e a falta de paixão do diretor por seu projeto.

É uma baita responsabilidade ser você mesmo”, é a frase de Sylvia Plath que abre o longa, dando a deixa sobre a irresponsabilidade do protagonista consigo mesmo, o qual ele já nem é mais capaz de encontrar. Em que pese a importância do significado da proposição, o decorrer do longa nos faz compreender que sua colocação apenas ressalta a pretensiosidade do diretor para um objetivo um tanto simplista. Jay Kelly (personagem) é arrogante, explora todos ao seu redor, e vê-se infeliz, solitário e perdido em meio à multidão que o cerca, e a clareza dessa mensagem, dita à exaustão, torna a complexidade dos dizeres de Sylvia Plath mero enfeite usado pelo diretor para endossar aquilo que ele tão insistentemente quer nos mostrar.

Jay Kelly é, inclusive, repleto de frases de efeito de autoria não mais de terceiros, mas do próprio Baumbach, que usa da repetição do óbvio notoriamente para mascarar a falta de alma de seu filme – e é curioso como Timothy Galligan (Billy Crudup), amigo do protagonista nos tempos da faculdade com quem ele vai cruzar para aflorar desentendimentos mal resolvidos, se refere a ele como “corpo sem alma”, característica negativa que pode ser tanto atribuída ao personagem quanto ao filme. A interação e as vias de fato ocorridas entre os personagens serão o estopim para que o ator adentre suas memórias em busca de sua redenção, e para tanto, Baumbach precisa inseri-lo numa jornada de superação que o fará passar pelo heroísmo.

Ao buscar aproximar-se da filha mais nova, Kelly precisa, supostamente, aperrear-se e rebaixar-se ao nível das pessoas comuns. Abandona seu jatinho particular para, juntamente com sua equipe de serviçais, andar de trem nos vagões lotados das classes populares. A metáfora do trem como espaço de passagem atemporal, onde o personagem poderá acessar seu passado, é explorada pelo diretor com referência a Satyajit Ray em “O Herói”. Ali, além da autodescoberta proporcionada pelo estado onírico trazido pela alegoria da locomotiva, ele vai se conectar com os viajantes, ter epifanias das mais óbvias (“como vou interpretar pessoas se não as conheço?”) e se transformar num herói – a forma como tal se dá chega a ser um tanto abobada, muito embora reflita a forma como Jay, enquanto pessoa, só é capaz de pensar e agir como se estivesse num filme.

Há dois momentos interessantes em Jay Kelly, e eles conectam o início e o fim do longa. Na cena de abertura, assistimos a um set de filmagem em plena vida, onde tudo acontece ao mesmo tempo e somos introduzidos, numa passagem rápida de câmera, sob o banho de uma luz azul-escura, a alguns dos principais personagens, até chegar ao protagonista. Uma trilha doce acompanha a movimentação, e ali, deveria haver magia – ela está gritando! – mas não há. Ao final, quando o protagonista está sendo homenageado num festival italiano (prêmio que ele recusa, para depois fazer seu agente, Ron, vivido por Adam Sandler, mover mundos e fundos para recebê-lo), uma retrospectiva de sua carreira é exibida na tela, enquanto o ator assiste não à homenagem, mas à reação emocionada das pessoas a ela. Há, ali, uma conscientização de que seu trabalho custou sua infelicidade, mas sua eternização nas telas de cinema e a felicidade de quem o assiste são lugares onde residem os sentidos de sua vida.

Por falar em Adam Sandler, num filme sobre performances e ornamentação, chega a ser contraditório que as interpretações em Jay Kelly sejam tão indiferentes, e talvez reflitam, na realidade, a própria indiferença do diretor. Chega a ser irritante a relação de Jay e Ron, e até Laura Dern parece apenas reproduzir estereótipos de uma mulher workaholic de forma superficial. Aliás, mesmo quando tenta soar natural, predomina no filme uma superficialidade que torna tudo mais incômodo.

Não há, no fim das contas, reconciliação para o ator-protagonista, mas conformismo de seu papel como artista – deixo de viver minha própria vida para transformar-me em cinema. As escolas de Fellini, com 8 e ½, de Bergman com Morangos Silvestres e Sonata de Outono, o já mencionado O Herói, de Satyajit Ray e Desconstruindo Harry, de Woody Allen, ensinaram a Noah Baumbach uma forma que ele esqueceu-se de preencher com significado, corpo e amor. Se Jay Kelly é uma tentativa de humanização do personagem, não a sentimos – e não queremos mais uma tomada, obrigada.

Nota:

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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