Juntos | 2025
Uma espécie de relação simbiótica entre casais é algo que por vezes se mostra comum na sociedade. Quem nunca viveu e/ou conviveu com duas pessoas que estão sempre juntas? Uma só aparece se a outra estiver também. Mas a falta de independência entre dois seres que se relacionam pode se tornar algo nocivo, principalmente no que diz respeito à questões de individualidade e liberdade pessoal. Em Juntos, filme dirigido por Michael Shanks, encontramos questões como essas elevadas a potência física do horror corporal.
Buscando referências bem claras no subgênero, o longa de estreia do diretor da Nova Zelândia gerou grande burburinho e expectativas no público de terror por suas imagens agoniantes envolvendo o corpo, parecido com o que aconteceu no ano anterior com A Substância, de Coralie Fargeat. Seguindo os passos de David Cronenberg, mestre em desenvolver narrativas que mexem com a realidade material da carne, como em eXistenZ (1999), A Mosca (1986) e tantos outros, Shanks eleva a ideia da codependência do casal Tim e Mile, interpretados por Dave Franco e Alison Brie (atores que são casados na vida real e assinam a produção do longa) a essa esfera orgânica.
O casal, que tenta a todo custo manter as aparências em seu relacionamento permeado por pequenos conflitos, se esforça para se adaptar a uma mudança para uma cidade interiorana. Explicitamente um está mais animado do que o outro com a decisão da mudança e de irem morar juntos no interior e há uma acentuação de crises e cenas constrangedoras como um pedido de casamento inesperado em público.
Após uma discussão acalorada, acabam passando a noite em uma caverna, e, ao acordar, descobrem que seus corpos foram inexplicavelmente fundidos. Suas pernas entraram em contato durante a noite e ao levantar pareciam coladas, literalmente, uma a outra. A partir desse fenômeno iniciado dentro da caverna, o casal é forçado a confrontar uma codependência tóxica e inevitável que os une.
A codependência é um padrão de comportamento no qual alguém passa a depender de forma exagerada, no aspecto emocional, de outra pessoa. Em Juntos vemos muitas alusões a esse comportamento, como quando Mile deve estar em um determinado local e Tim tinha outro compromisso, mas acaba desistindo dele pois precisava estar onde a namorada estivesse. Por meio de alegorias em torno desse mesmo tema o filme se desenvolve, escalonando acontecimentos cada vez mais bizarros.
Apesar das boas situações de exploração do horror corporal, com cenas bastante aflitivas como na fusão de cílios, lábios e membros, tudo em Juntos acaba sendo redundante. A direção parece estagnar na ideia central, desenvolvendo pouco individualmente seus protagonistas. Mile é uma professora, e por causa dela o casal se muda para o interior; Tom é um jovem músico que tenta começar uma carreira. Não sabemos mais quase nada deles além disso.

Em uma das primeiras cenas do filme, Mile vai chamar Tim para a festa de despedida do casal, ele está no quarto olhando fotos de família, ela percebe que estão vestidos com roupas muito parecidas e brinca com isso. Antes de sair do quarto, Tim troca de casaco, mostrando um desconforto em aparecer combinando com a namorada. Há um esforço para se estar bem, mas no fundo os dois não se sentem tão confortáveis assim um com o outro desde o início, passando uma imagem que reforça o medo de uma separação e um esforço para se manter uma relação.
Uma força inexplicável puxa Tim em direção a Mile. É angustiante e perturbador que eles não possam mais viver separados. O peso dessa condição começa a surtir efeito primeiro em Tim, que parece estar condicionado à presença de Mile, mas aos poucos ela também se vê nessa posição e os dois acabam precisando desesperadamente estar juntos.
Juntos é um filme interessante que causa certo entusiasmo pela construção baseada no horror corporal, na habilidade de criar cenas desconfortáveis dentro de um tema o qual todos estão socialmente, de alguma maneira, familiarizados. A aparição de uma criatura assustadora na sequência final, muito aos moldes do filme de Fargeat, mostra que o diretor segue realmente as mesmas referências, mas, apesar disso, se mantém a maioria do tempo “clean”, sem sangue e sem vísceras. Narrativamente o desenvolvimento na pegada de uma “comédia romântica creepy” deixa a desejar, não consegue criar situações que nos conecte melhor os protagonistas, ainda envolve a história de uma seita com um propósito pra lá de duvidoso para amarrar tudo.
Esse texto faz parte da cobertura do Fantasia International Film Festival, acompanhe aqui.
