Livros Restantes | 2025
Sobre envelhecer e deixar partir
Ler livros é embarcar em histórias alheias, mas muitas vezes nos faz sentir pertencentes a elas. A relação afetiva entre pessoas e a literatura cria, além de forte conexão com as obras, uma vontade genuína de presentear quem se gosta com uma leitura que acreditamos poder atingir de forma marcante a vida de outro ser humano. Livros Restantes, novo longa da cineasta carioca Marcia Paraiso, nos revela o encantador e denso universo particular da protagonista Ana Catarina, interpretada por Denise Fraga.
Ana está em tom de despedida, ela vai deixar sua cidade natal no litoral catarinense, numa comunidade pesqueira em Florianópolis, onde convive com a filha Sofia (Manuela Campagna) e seu ex-marido Carlos (Augusto Madeira). A professora de literatura acaba de completar 50 anos e está prestes a se mudar sozinha para Portugal. Com um momento realmente divisivo, acentuado pelo peso da idade e ânsia por mudanças, a protagonista esvazia sua casa em busca de um novo preenchimento em sua vida.
Diante de cômodos vazios, na casa que agora já não é mais de Ana, ela encara sua estante onde restam apenas 5 livros, estes, ela revela não conseguir se desfazer por conterem dedicatórias escritas a mão por quem a presenteou. Ana decide que irá devolver os livros a cada um que a doou, como uma forma de agradecimento e de lidar com esse processo de partida, funcionando também como uma maneira de se reconectar com essas pessoas e momentos pontuais de seu passado.
Livros Restantes trata a relação da protagonista com os livros como ondas nostálgicas de memória, como recortes no tempo cheios de significados especiais (pelo menos para ela). Nessa jornada de reencontros ela se surpreende e se decepciona com colegas que pareciam tão afetuosos em uma época, mas que agora não fazem mais sentido algum. Se magoar nesse processo é importante para rever conceitos e ter uma perspectiva mais intensa de progressão do tempo e de como certas coisas se modificam silenciosamente à distância.
O longa, que é uma coprodução Brasil–Portugal, trata de questões de amadurecimento femino, de afeto e de amizade entre mulheres, muito através da relação de Ana com sua amiga Katia (Andrea Buzato), que revela estar em um relacionamento homoafetivo, e da compreensão e atenção com sua filha, que é uma jovem cheia de planos que não se encaixam nos padrões da cidadezinha de interior e nem na cabeça fechada e retrógrada de Carlos.
O filme se destaca pela delicadeza e pela maneira quase poética como lida com as questões emocionais de Ana, nos fazendo acompanhar um momento de transição importante e corajoso na vida da protagonista, usando o espaço físico para reforçar símbolos que marcam esses altos e baixos emocionais. Uma Florianópolis ensolarada inunda a tela em momentos nostálgicos mais reconfortantes, à beira da praia, o mar bate calmo para embalar conversas intensas, ou quando uma chuva torrencial despenca enquanto Ana se decepciona ao tentar contactar uma ex-amiga que não quer mais reencontrá-la.
Livros Restantes ressalta a relevância da participação feminina também atrás das câmeras. Com uma equipe predominantemente composta por mulheres nas funções-chave de direção, fotografia, som direto, direção de arte, produção e montagem, o filme reafirma o protagonismo feminino no cinema ibero-americano contemporâneo.
