Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio | 2002

Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio | 2002

Uma história de violência

Para que se levante um império, muita história precisa ser soterrada. Portanto, o apagamento da ancestralidade é uma ferramenta de manutenção do poder estabelecido. Nesse sentido, quando se ignoram as dores no alicerce de um latifúndio, a força de resistência diminui, calam-se as vozes dos trabalhadores, dos escravizados. A violência que constitui aquele lugar vira mero adereço turístico. Para que o distrito de Cococi, Sertão dos Inhamuns no Ceará, não padeça como uma cidade fantasma, Rosemberg Cariry clama a lenda de Lua Cambará, filha de um fazendeiro branco com uma escravizada negra, que luta com as armas do opressor para conquistar o espaço que lhe foi negado pelos homens.

Cariry, na verdade, usa a fazenda Cambará como uma grande metáfora para o Brasil e sua inconsciência histórica. As escadarias do palácio brasileiro estão cheias de sangue, e, parafraseando uma célebre cena no museu de Bacurau, obra de Kleber Mendonça Filho, essa marca não pode ser apagada. Quando o diretor coloca a abertura e o fechamento de seu filme nos tempos atuais, com um helicóptero levando repórteres franceses da cidade grande até Cococi, e depois seu retorno, é para fazer a ligação entre as duas épocas. O fio que as conecta é o misticismo advindo do povo que ali morreu, representado por dois cartomantes negros que nos encaminham ao doloroso passado do vilarejo. Aliás, são eles que também trazem ares surrealistas e experimentais para Lua Cambará.

O meio entre esses dois momentos conta a vida de Lua (Dira Paes), nascida da violência do estupro. Ainda bebê, após a morte da mãe, Lua passa a ser criada na casa grande junto de seu pai, coronel Pedro Cambará. Cresce sendo renegada como a “negra bastarda”, ofendida e excluída de todas as formas pelos visitantes e parentes. Fomenta em si toda raiva dessa criação, vendo os negros do latifúndio sendo açoitados sem piedade. Percebe, então, o privilégio e o poder que é a branquitude. Entre ser negra e estar presa ao tronco e ser herdeira das terras, a saída é tornar-se opressora como o coronel.

Forjada nessa ira, Lua também açoita os negros, mata ciganos e enfrenta todos que passarem pelo seu caminho. Os momentos de violência em Lua Cambará despertam novamente o espírito surrealista que dera início a projeção, a câmera fica mais livre e a fotografia rende belíssimas cenas. Fora isso, há uma formalidade na misè-en-scene que funciona para manter as aparências, ou seja, evitar a brutalidade que habita aquele espaço, como a polidez falsa nos comportamentos.

Quando o pai morre, Lua ainda precisa se provar como herdeira e assumir o papel de liderança na fazenda. Seu tio diz: “negras bastardas não têm herança”. A reação são ataques mais fortes e destrutivos, pois assim ela aprendeu, ainda mais na condição de mulher não-branca. Era isso ou se tornar escravizada como fora sua mãe.

Lua Cambará é uma história de vingança, um estudo sobre a complexidade da violência e a necessidade em lembrar do sangue que manchou a construção do Brasil, antes de qualquer julgamento simplório sobre nossas mazelas. É possível fazer uma comparação do filme de Cariry com Abril Despedaçado, de Walter Salles. Enquanto aqui se vê uma camada racial e política mais apurada, o filme de Salles trabalha mais a poesia de suas imagens e o ritmo dramático de seus personagens.

A merecida restauração em 4K de Lua Cambará foi exibida na Mostra SP de 2025, realçando a eficiente fotografia de Antonio Luiz Mendes, que, por um lado, se contém nas cenas diurnas, mas é capaz de extrapolar nas filmagens à noite, quando prevalece o surrealismo e o místico.

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