Lucid | 2025
Autoconhecimento e alucinações
Decidir o que quer ser na vida é um dilema para muitos jovens. Que rumo tomar? Estudar? Trabalhar? Mia, a protagonista de Lucid, primeiro longa-metragem dirigido por Deanna Milligan e Ramsey Fendall, parece já saber o que é: artista. Partindo da premissa angustiante do bloqueio criativo, o longa se desenvolve em uma jornada insana e lúdica por inspiração.
Ambientado nos anos 90, Lucid tem uma estética punk-rock, indie e suja. Pegando por nuances de filmes mais marginais e avant-garde como os de John Waters e Alejandro Jodorowsky, e passeando muito por influências de cinema experimental, os diretores criam uma atmosfera bastante psicodélica para a jornada de busca por uma fluência criativa de Mia. A jovem, ao se encontrar com uma espécie de guru espiritual recomendada por colegas, sai com uma pastilha em formato de coração regada com alguma substância alucinógena, recomendada a usar com cautela e com a promessa de que resolverá seu problema.
Os diretores optaram por filmar em película, com momentos selecionados em Super 8 e filmadora amadora, abraçando sem medo a textura e as imperfeições estéticas cheias de ruídos. Essas escolhas, somadas ao uso de colagens na montagem, imagens sobrepostas e filtros de cor, dão a Lucid uma atmosfera mística e onírica. Sem medo de abraçar o experimento, o longa se aprofunda nos traumas de infância da protagonista, que vai pouco a pouco se tornando mais complexa e corajosa.
A questão aqui é enfrentar os próprios demônios em nome da arte. Uma expressão artística pura, precisa ser genuína e é isso que o professor de Mia pede a ela, quando recusa sua apresentação de trabalho diante da turma de alunos de artes plásticas. É curiosa a exploração da questão de que a arte precise ser, de alguma maneira, explicada, e é nesse momento que a protagonista paralisa; diante da pergunta “Mas o que isso quer dizer?”.

À medida que o filme avança, ele entra mais nas questões dos traumas pessoais de Mia e perde um pouco da força inicial, focando num quebra-cabeças de drama familiar violento e obscuro (que dá um pouco de cansaço de ver retratado no cinema de horror). A estética age em harmonia com as questões do filme, um drama jovem, trippy e vibrante, com criaturas bizarras, mergulhos alucinados no colchão do quarto, que lembram Mark Renton afundando na privada em Trainspotting (1996), de Danny Boyle.
A direção de arte e figurino capturam bem o submundo underground dos anos 90, com jeans, correntes, pregos nas artes de Mia, rasgos na roupa, piercings e trilha sonora; a rebeldia está ali, presente e viva. Mia representa uma parcela social americana de jovens que trabalham como atendentes de fast food, escondidos atrás de um emprego cruel que inibe suas reais habilidades e ambições. Nisso Lucid se sai bem e garante que a moça não seja “só mais um normal” como entoam Os Mutantes em “Balada do Louco”, ela se abre a um universo arriscado, seja através da viagem alucinante da droga, seja por sua perseverança em fazer a arte que acredita ser dela, aliás, e em descobrir afinal, quem é de verdade revirando seus traumas.
Esse texto faz parte da cobertura do Fantasia International Film Festival, acompanhe aqui.
