Mestras | 2024

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As mestras da música amazônica que ocupam espaços em tradições masculinas

Numa história feita por homens, eternizados em placas e monumentos de praças, com seus nomes escritos e debatidos nos livros e nas escolas, mulheres foram esquecidas, escondidas como se não existissem. O protagonismo feminino é algo que pulsa, necessidade vital para que histórias sejam reescritas. Mestras, documentário dirigido por Aíla e Roberta Carvalho, traz a narração e a experiência de ancestralidade de Aíla numa investigação que começa pelas mulheres de sua família e alcança outras, em locais diversos da região Norte, que assumiram atividades culturais de dominação masculina, as ditas “coisas de homem”.

Nas festividades do Boi, mulheres eram proibidas de montar o boi-dominador. Miloca foi a primeira a quebrar essa imposição. No samba de cacete, Iolanda do Pilão, com o ritmo dentro de si, compõe e toca de forma instintiva. No carimbó, Bigica e Mimí foram pioneiras na formação do grupo de mulheres carimbozeiras “Sereia do Mar”, incentivando outras que nunca tiveram qualquer contato com música ou instrumento a integrar o grupo. Dona Onete, também carimbozeira, começou carreira aos 65 anos, e atualmente, aos 85, ainda faz shows pelo Brasil. Essas as mestras homenageadas pelas diretoras, mulheres que, independentemente da idade, buscaram e buscam o protagonismo de suas próprias histórias e lutam para sair da zona invisível a que foram relegadas nas narrativas coletivas, e especificamente, na tradição da música amazônica. 

Existe uma potência própria e inerente nas imagens das mestras e suas sucessoras em atividade. Mulheres comuns, muitas analfabetas, mães, avós, em sua maioria idosas, tocando seus instrumentos, encontrando na música e umas nas outras o necessário para ocupação desses espaços. Divindades disfarçadas de simples mulheres, como Aíla narra, é o que de fato são, e a presença delas na tela, posicionadas em meio às matas e águas dos rios, traz uma energia que as tira do lugar comum e bem reflete esse conceito.

Assim como Aíla extrai força e motivação de suas ancestrais, na foto de sua avó que, em seu tempo, fazia sua pequena revolução deixando as saias e vestidos de lado para vestir-se de calça jeans, Mestras faz viver essa rede de apoio feminina criada para que as tradições não mais (nunca mais) sejam afastadas das mulheres, cada uma assumindo a tarefa de transmitir os saberes da música para suas filhas e suas netas. Nada mais irá impedi-las, pois, assim como Miloca nos diz, “Se eu soubesse ler, já tinha virado o mundo de pernas para o ar”. 

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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