Morte e Vida Madalena | 2025

Morte e Vida Madalena | 2025

Um corpo num caixão posicionado sobre um palco de teatro. A morte no palco é apenas encenação? Em meio a choros e lamentações, sabemos que o morto ali velado (interpretado por Carlos Francisco) na introdução de Morte e Vida Madalena era um produtor de cinema independente. A fumaça cênica sobe e cobre a caixa mortuária, ressaltando o caráter performático do velório. A alma artística e inquieta do defunto faz reverberar em Madá (Noá Bonoba), sua filha, grávida de 8 meses, a continuidade de seu último projeto, inacabado. O novo longa de Guto Parente inicia-se teatral e apresenta-se como uma ode ao cinema independente através da resistência que Madá herda do pai, como defensora da arte cinematográfica como instrumento de ruptura, de luta e de guerrilha – o cinema que é feito na raça.

A metalinguagem trabalhada por Guto Parente nessa homenagem traz um fazer fílmico que muito se distancia da inspiração criativa inata do artista ou de um modo organizado de trabalho. Interessa à Morte e Vida Madalena retratar o improviso, a falta de dinheiro, a burocracia, o azar, o caos que é cômico e que flerta com o absurdo, o rir para não chorar. O filme inacabado que Madá resolve tocar é um projeto que, logo no início, é abandonado por seu diretor, Davi (Marcus Curvelo). A função é, então, oferecida a todos os trabalhadores do set, da assistente de direção ao ator protagonista, Oswaldo (Tavinho Teixeira), que aceita o encargo para colapsar ainda mais a produção. 

Em que pese a falta de pagamento e a ameaça de greve, os trabalhadores do cinema (e Parente faz questão de nos recordar que os artistas também fazem parte da classe trabalhadora) persistem. A fé no filme que sequer toma corpo é frágil, mas ainda assim, o projeto segue. Nessa jornada desorganizada e precária, Madá passa por um processo de autodescobertas, como mãe e como artista, função que ela custa a compreender como um lugar de pertencimento, apesar de já ocupá-lo concretamente em múltiplas funções, exaurindo-se em prol da obra de seu pai.

O trajeto de Madá encontra, de fato, o caminho da própria atriz que a interpreta, Noá Bonoba. Atriz, diretora, dramaturga, roteirista, Mestra em Artes e professora, Noá é uma artista multidisciplinar e completa, e suas intersecções como pessoa travesti e cearense fazem o reconhecimento de seu primoroso trabalho cruzar o caminho da cis e heteronormatividade branca e sudestina, insistente em se ver como um padrão a ser seguido, dominando postos de trabalho e minando oportunidades daqueles que fogem às regras estabelecidas pelo grupo dominante. Guto Parente afirma Noá como artista a ser reconhecida, tal qual Madá em seu despertar.

O “filme dentro do filme”, a produção que parece não avançar, é uma ficção científica assumidamente “B”, um projeto visualmente ousado, monocromático, composto de um roteiro recheado de frases de efeito, figurinos de tons metálicos, trilha sonora sideral e vozes artificiais. Pouco importa seu desenrolar narrativo, mas sim sua existência como arte que nasce, em que pese todos os percalços. Guto Parente expressa, ali, nessa produção fadada ao fracasso, os anseios e preocupações da figura do diretor que  precisa acumular funções. O pesadelo de Madá, que sonha com um acidente causado por um arma de fogo real no set, bem representa as ansiedades de uma mente acelerada, que se vê responsável por cada decisão errada do projeto. O estresse da protagonista é divertidamente pintado na imagem a cada cigarro que ela ameaça fumar enquanto grávida. 

Mais do que uma ode ao cinema independente, Morte e Vida Madalena engrandece aqueles que são verdadeiros artesãos da imagem em movimento, que impõem e afirmam sua arte como tal – num caos onde ninguém parece saber o que fazer, o trabalho reunido é, no fim das contas, a mais pura expressão da arte surgida ao acaso, feita aos tropeços, quase morta, mas que se reergue e resiste. Afinal, esse é o caminho de Madá, que inicia-se com a morte do pai, segue na gestação e termina com um nascimento duplo: da criança e do filme.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

    View all posts

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *