Narciso | 2026

Narciso | 2026

A conta da realidade da adoção no Brasil não fecha. Segundo dados disponibilizados pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e pelo IBDFAM (Instituto Brasileiro de Direito de Família), enquanto a maior parte dos pretendentes busca crianças entre 2 e 4 anos, cerca de 70% das crianças disponíveis para adoção têm 8 anos ou mais. Assim, a maioria das crianças disponíveis encontra-se acima da faixa etária idealizada pelos adotantes.

O perfil racial das crianças e adolescentes aptos à adoção constitui outro descompasso difícil de resolver: quase 70% são pardos ou pretos, ao passo que a preferência dos adotantes é predominantemente por crianças brancas, o que acarreta, invariavelmente, maior tempo de espera para crianças negras — que também representam a maioria nos casos de devolução. Além disso, o número de adoções desfeitas permanece elevado, chegando a atingir cerca de 9% dos processos.

Quanto mais velha é a criança, menores são suas chances de adoção e maior tende a ser sua consciência de rejeição e abandono no mundo. Já paramos para pensar o que acontece com os jovens aptos à adoção quando atingem a maioridade? Embora existam programas destinados a prepará-los para uma vida independente e autônoma, é difícil não compreendê-los como seres humanos duplamente lançados à margem: sem histórico afetivo consistente e sem suporte familiar, veem-se sozinhos diante do mundo.

Narciso, novo longa de Jeferson De, estabelece um olhar agridoce, porém muito afetuoso, sobre meninos e meninas negros que vivenciam a transitoriedade da espera por uma adoção em famílias acolhedoras — lares e pessoas que se disponibilizam a receber essas crianças até que sejam adotadas ou até que essa situação impermanente assuma um caráter definitivo na vida adulta. Nesse contexto, Carmen (Ju Colombo) e Joaquim (Bukassa Kabengele) são irmãos que abrigam, entre outras crianças, o garoto Narciso (Arthur Ferreira), já adolescente, que é devolvido por um casal adotante branco às vésperas de completar aniversário.

Através do realismo fantástico – caminho semelhante ao presente também em Nosso Segredo, de Grace Passô, e Se eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais, que assistimos no 76º Festival de Berlim – Jeferson De insere Narciso em uma jornada estranha, como um sonho angustiante que gradualmente se transforma em pesadelo, cujo atravessamento o conduzirá à descoberta de sua identidade, ao autoconhecimento e à compreensão de seu lugar no mundo, bem como à ruptura do próprio mito que envolve seu nome.

O garoto ganha uma bola de basquete mágica, com função semelhante à lâmpada de Aladdin, e passa a acreditar que, se fizer três cestas, um gênio aparecerá para realizar aquilo que ele mais deseja. Narciso põe a prova à ideia, e Seu Jorge surge como esse gênio, pedindo-lhe que formule seu pedido. O desejo do garoto concretiza a realidade distante que ele observa nas propagandas de TV: ele quer uma família rica e branca, desejando ser visto como branco pelas pessoas brancas e negro pelas pessoas negras.

Narcisoé dividido em dois mundos: o das cores – a realidade – e o preto e branco – o desejo em forma de sonho, ambos lindamente fotografados pela fantástica Lilís Soares (Mami Wata, 2023). No universo colorido, ele é o menino rejeitado por sua família adotante, que lida com diversos conflitos com Carmen, essa que embora carinhosa e acolhedora, é uma mulher endurecida e que não poupa asperezas. No contexto fotografado em preto e branco, Narciso é um filho único que vive em uma casa luxuosa, com empregada e motorista à sua disposição, piscina, pijama de linho, uma cama enorme e confortável e até um roupão com suas iniciais bordadas. A família desse sonho, a mãe Luiza (Fernanda Nobre) e o pai Fernando (Marcelo Serrano), quase nunca está em casa e, quando aparece, revela-se excessivamente e sombriamente amorosa e sorridente.

Em ambos os núcleos, paira uma atmosfera de inquietação (bem encarnada pela trilha sonora de cordas e piano) se torna ainda mais significativa durante a realização do desejo. No lar da família acolhedora, esse incômodo é provocado pelo contexto que vamos gradualmente compreendendo e pela forma como a câmera de Jeferson De se aproxima dos personagens, destacando gestos e olhares reveladores de ansiedade e apreensão. Ali, a princípio, compartilham-se poucas palavras, até que, como ocorre algumas vezes ao longo do filme, Joaquim, com seu violão e belas canções, quebra o gelo e alivia a tensão do ambiente, principalmente, da cozinha, onde a maioria das interações acontece.

Embora utilize, em muitos momentos, uma câmera mais livre, percebe-se um rigor formal que privilegia a beleza imagética em planos mais demorados, e De sabe muito bem criar e apreciar esses espaços de contemplação – o sempre excelente trabalho da fotógrafa Soares torna ainda mais expressivo esse cuidado. O lar da família acolhedora remete a uma casa de avó, e o quintal ao fundo, de paredes avermelhadas pelos tijolos à vista, evoca Crooklyn (1994), enquanto os ângulos baixos e inclinados fazem lembrar imediatamente Faça a Coisa Certa (1989). A própria presença do basquete é por si só referência a uma cultura negra estadunidense que vemos, por exemplo, em Jogada Decisiva (1998).

Por outro lado, Corra! (2017), de Jordan Peele, nitidamente serviu de inspiração para a construção da casa idealizada por Narciso, sobretudo no que diz respeito ao desconforto do menino diante daquela família branca e à aura densa, angustiante e melancólica que permeia o ambiente. É quase como se todos ali agissem de maneira enganosa, sorrindo de forma forçada, amando e servindo em excesso, tal qual a família de uma propaganda televisiva. A transição do sonho para o pesadelo já é evidente para nós, mas, para o personagem, ela se dá à medida que, com seu olhar infantil, ele passa a compreender seus espaços de pertencimento.

Para além de abordar o lugar das crianças negras em processo de adoção, Narciso elabora, por meio de seus personagens, um estudo de uma coletividade representada pelas figuras da mulher negra e dos homens negros, crianças e adultos, que vivem sob seu cuidado. Grande parte da dureza de Carmen se justifica pelo fato de ela lidar, diariamente, com homens que, por não saberem enfrentar suas dores, tornam-se infantilizados, escondendo-se por trás de personalidades que projetam masculinidade, mas que revelam extrema fragilidade justamente por se recusarem a crescer. A palavra de Carmen dirigida a eles é tão dura quanto ela própria: Peter Pan era loiro de olhos azuis.

Narciso é carregado de simbolismos e, talvez, nesse ponto incorra em um certo excesso de didatismo, a ponto de suas simbologias se tornarem demasiado evidentes. O reflexo que persegue o protagonista, rememorando a possibilidade de quebra do encanto, a necessidade de verbalizar aquilo que os gestos dos personagens já comunicam suficientemente, o jogo de xadrez e a teia de aranha, na qual ele claramente se posiciona como alvo, funcionam como armadilhas explícitas quanto ao seu propósito, e esse excesso pedagógico nem sempre opera de forma positiva.

A roda-gigante que vemos ao final de Narciso sugere o movimento circular de um processo de autocompreensão, autoconhecimento e crescimento que conduz o personagem a uma percepção mais nítida de si mesmo: de quem ele é como futuro homem negro, do que deseja ser e dos afetos que escolhe preservar. É um caminho bonito, ainda que por vezes previsível, mas que encontra força na maneira como reorganiza aquele pequeno universo da família acolhedora, por vezes tão conflituoso.

No fim das contas, a aspiração mais singela é aquela capaz de trazer a felicidade mais genuína. O novo violão de Joaquim devolve ao longa um gesto que desde o início funciona como ruptura da tensão: a música, e com ela a afirmação de uma masculinidade negra sensível que se tornará o verdadeiro espelho de Narciso. Veja-se que a ideia do espelho aqui rompe com o significado tradicional do mito: aquilo que se reflete não é vaidade, mas reconhecimento que aponta para a aceitação da própria negritude.

Jeferson De abraça afetuosamente as crianças negras ao falar delicadamente de seus sofrimentos sem necessariamente mostrá-los em sua forma mais dura. O que permanece é a esperança de dias melhores e o apego às muitas famílias que o mundo pode oferecer para além do vínculo sanguíneo.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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