A Única Saída | 2025
O capitalismo logrou êxito inquestionável em seu objetivo de gerar e acumular capital continuamente (e para poucos). O custo do lucro, para além dos impactos ambientais irreversíveis em nossa geração e a serem suportados ainda mais gravemente pelas próximas, é nossa desumanização, tanto em razão da inserção de uma ideia individualista de vida, como pelo tratamento que o próprio sistema nos dispensa. Cada ser humano é uma peça que faz a engrenagem continuar girando e gerando energia monetária, e como tal, sua utilidade está condicionada à rentabilidade constante. Uma vez que essa finalidade não é atingida, o caminho é um só: o descarte.
Some-se ao processo de perda da humanidade a convicção falaciosa que nos foi imposta a respeito dos elementos tidos como imprescindíveis para a felicidade e sobrevivência digna, e que integram nossa vida cotidiana de forma natural e inconsciente, de modo a nos aprisionar nesse sistema. O patriarcado e a heteronormatividade, que acompanha a ideia do casamento para reprodução e composição da família tradicional monogâmica, do homem como seu provedor, mostrou-se a estrutura social ideal para manter pessoas sob controle e as manipulando em prol do consumo. Dessa forma, veja-se, a engrenagem nunca deixa de girar.
No Other Choice, novo e aguardado filme do diretor sul-coreano Park Chan-wook, satiriza a lógica de existência desse sistema econômico que dissemina destruição e falácias a partir de um homem e seu núcleo familiar, vítimas do processo de desumanização mais clássico, qual seja, aquele que se dá pelas exigências desarrazoadas do mercado de trabalho.
Após passar 25 anos de sua vida dedicando-se a uma empresa produtora de papel, emprego do qual se orgulhava e que lhe proporcionou um confortável estilo de vida exatamente nos moldes desenhados pelo mecanismo capital, Man-su (Lee Byung-hun) é repentinamente demitido. Com esposa, dois filhos e dois cachorros para prover, e uma bela casa com jardim suntuoso para sustentar, ele entra em estado de choque, depressão e desespero. Não conseguindo inserir-se no mercado de trabalho novamente, o corte das despesas é uma medida que se impõe, desolando-o a ponto de travar, em suas próprias palavras, “uma guerra em prol da família” para não perder tudo que conquistou. Os inimigos a serem combatidos são seus rivais por uma vaga de emprego na empresa papeleira Moon Paper, contra os quais ele “não terá outra escolha” que não a eliminação da concorrência, custe o que custar.
O individualismo e a selvageria do capitalismo que rivaliza seres humanos são levados ao pé da letra por Park Chan-wook. A manutenção do emprego é uma questão de vida ou morte que não se restringe ao sustento, mas que carrega em si a lógica de pertencimento, de status social, e principalmente, aqui, de uma masculinidade que precisa ser provada. A incapacidade de prover enlouquece o homem, e No Other Choice expõe o ridículo de seu comportamento sem, entretanto, desconsiderar a complexidade de suas dores.
Fato é que rimos e choramos com Man-su, e assistimos sua desumanização com empatia, pois inevitável não compadecer de seu desespero, e também com repulsa, uma vez que entrega-se a decisões moral e criminalmente comprometedoras. O equilíbrio entre a comédia e o drama que decorrem da rotina e do absurdo de seus acontecimentos é marca do diretor que aqui adquire uma elegância suja e escrachada, sob uma trilha sonora novelesca e dramática que eleva o senso de insensatez que provoca o riso.
Os excessos da representação dos opostos em que transita o personagem, da felicidade comprada ao descontrole irracional, nunca se entregam a uma grosseria imagética. A grama do jardim que é muito verde, o cultivo das plantas até mesmo na casinha dos cachorros que revela a obsessão do protagonista pelos vegetais e o abraço em família romantizado pelas folhas de outono que caem enquanto comem as enguias doadas pelo empregador, compõem o ápice do objetivo de vida do personagem de modo utópico e caricatural. Logo em seguida, o protagonista é lançado ao abismo da depressão, para se juntar a outros homens que rangem a mandíbula e literalmente batem cabeças na terapia em grupo, que se entregam ao alcoolismo e são péssimos com suas esposas, extremos que obedecem à lógica da histeria e do patético da situação.
A prova da masculinidade que é exigida desses homens desempregados que se reconhecem de longe, causa cegueira tamanha ao ponto de não enxergarem que são as mulheres as verdadeiras chefes de seus lares. As esposas de No Other Choice estão exaustas e já não aguentam limpar os rastros de sujeira de seus maridos – e até isso é transformado em imagem por Park Chan-wook quando a esposa do protagonista limpa de sua boca suja, com repugnância, a gordura deixada pelo frango frito que ele acabara de comer. São mulheres que estão sempre no limite da explosão, pois elas, sim, são as responsáveis por carregarem seus lares nas costas.
Flertando com Parasita, de Bong Joon-ho, No Other Choice faz da imagem cinematográfica a expressão da barbárie provocada pelo sistema econômico que assassina o mundo, levando ao extremo a insignificância do ser humano que é mero instrumento do lucro nesse todo que o monstrifica, ventríloquos que apenas reproduzem e obedecem, sem escolha, a lógica que lhes é decretada.
