Nosferatu | 2025
Melancolia e amor pela arte
Em 2025 vimos muitas homenagens e releituras cinematográficas de personagens vampirescos lançados na telona. Sem precisar pensar muito, temos o Nosferatu (2024) sério e um tanto pretensioso de Robert Eggers, o Drácula (2025) ultrarromântico e bem humorado de Luc Besson, também o resgate das obras de Anne Rice, com a série de Entrevista com o Vampiro, que já segue para sua terceira temporada no streaming. Em uma versão tupiniquim da enigmática figura das trevas, o Nosferatu (2025) de Cristiano Burlan é uma versão livre e ousada do original, com foco na angústia e na fuga do personagem através do tempo, usando-o como uma espécie de metáfora para os monstros do século XXI.
Com um elenco que inclui Jean-Claude Bernardet (teórico de cinema, crítico, cineasta, ator e escritor belga/brasileiro) em um de seus últimos trabalhos em vida e a icônica atriz do cinema marginal Helena Ignez, interpretando dois personagens enigmáticos, mas com uma presença de peso e representatividade, Burlan bebe da fonte do expressionismo alemão do século passado, emergido dos vestígios da Guerra, falando aqui de males modernos.
O longa pode decepcionar àqueles que esperam alguma fidelidade além da estética de Nosferatu e sua melancólica falta de cores, pois aqui a interpretação é bastante livre e cheia de referências à outras versões do vampiro, inclusive à primeira feita no Brasil, pelo pai do terrir Ivan Cardoso e seu curta-metragem cult experimental Nosferato no Brasil (1971), estrelado pelo poeta Torquato Neto. Em grandes letras vermelhas sob um fundo preto a homenagem ao cinema marginal surge na frase “Onde se vê dia. Veja-se noite.”, se dá também através de uma pequena recriação da icônica cena interpretada por Helena Ignez em A Família do Barulho (1970), de Júlio Bressane.
Em poesia há muitas outras referências, Nosferatu é uma figura culta que respira música, literatura e arte. Há o resgate da figura feminina de Ofélia, de Hamlet, trabalhada por Burlan em seu longa de 2015. O filme é entrecortado por textos recitados, canções transformadas em enredo, como a entoada por Noel Rosa (“…mas, a filosofia hoje me auxilia a viver indiferente, assim!”) expressando a melancolia de uma vida sofrida, assim como a do vampiro que transcende o tempo fugindo de seu caçador Van Helsing, condenado a vagar acima da vida e da morte.
Filmado em preto e branco intenso, por vezes em alto contraste, por outras com nuances acinzentadas com bastante capricho visual, o filme traz uma estética teatral e muitas cenas são gravadas em cima de um palco, em belos teatros, destacando a arte da representação. Vemos desde super closes no rosto dos atores em primeiro plano (com espaço para uma profundidade de campo nebulosa), à cenas externas em movimentos rápidos, como Nosferatu correndo na rua onde a câmera o acompanha como em Frances Ha (2012).
O longa faz uma reflexão existencial sobre a arte, a morte e o tempo. Traz brasilidade à figura eurocentrada do vampiro mais famoso do cinema e da literatura. Em Nosferatu temos disruptivas interferências artísticas pelo teatro e pela música, temos bloco de carnaval, becos de rock’n’roll e uma estética que oscila do sofisticado preto e branco expressionista ao refúgio do cinema underground e experimental.
