Nosso Segredo | 2026
“O que é que você tem esquecido no meio da rua? O que você tem largado na faixa de pedestre?”. A reflexão soa como um conselho de amigo ou um pensamento proposto por um terapeuta. No contexto do prólogo de Nosso Segredo, primeiro longa-metragem de Grace Passô, que fez sua estreia na mostra Perspectives da 76ª Berlinale, trata-se de um diálogo despretensioso entre duas pessoas desconhecidas dentro de um carro de aplicativo. Talvez a plenitude da escuta e da compreensão só se abra, de fato, nessas conexões atravessadas pelo acaso, já que a jornada de trabalho e o cansaço das rotinas nos enclausuram em nossas próprias existências, amortecendo os sentidos para quem está ao nosso lado, para o que se encontra a um palmo de distância ou para aquilo que paira sobre nossas cabeças, prestes a ruir. Ficamos cegos, surdos e mudos por opção e comodidade. Tornamo-nos incapazes de perceber o sorriso do coletor de recicláveis no caminhão que interrompe nossa passagem — vemos apenas a obstrução, como percebe o motorista Gilson (Robert Frank). Turva se tornou a nossa visão; inertes, nossas sensibilidades. Quando vamos buscar aquilo que esquecemos e abandonamos pelo caminho?
No interior da casa-personagem de Nosso Segredo, uma família inteira tornou-se cega, surda e muda em razão do sofrimento da perda não superada de um ente querido. Entre mãe, filhos e tios incapazes de se comunicar e de se enxergar, apenas o pequeno Tutu (Efraim Santos) mantém, por sua inocência e linguagem infantil, os sentidos preservados, carregando o fardo pesado das dores dos seus, demonstrando-o através de uma doença metafórica e dialogando com uma presença misteriosa na casa através dos tubos de calha. O menino conversa e alimenta, com abacates e melancias, aquilo que não vemos, mas ninguém parece notar a estranheza de seu comportamento.
Há de se contextualizar que essa casa (onde residiu a diretora na infância), situada em Belo Horizonte, acolhe uma família preta numerosa composta por representantes de diferentes gerações, e o elo ancestral, a memória coletiva que restou, também se encontra em processo de apagamento. Grace Passô nos aproxima dessas pessoas que, muito embora vivenciem desconexões e desafios que provocam distanciamentos, são marcadas pelo afeto e pelo acolhimento, mas necessitam de um impulso para se reunir novamente e recordar que aquilo que as sustenta é muito mais forte do que o sangue. Considerando que famílias pretas tiveram suas histórias e seus passados estrategicamente apagados pela violência escravocrata, permitir e endossar o afastamento torna-se uma forma de dar continuidade a esse processo. E é na figura do mais novo — Tutu, cuja visão ainda não foi entorpecida — que se dará o resgate da ancestralidade.
Esse reencontro com as raízes se dá, portanto, na figura da criança e, por meio dela, também através do fantástico. A atmosfera espectral, bem como nossa curiosidade, crescem de modo progressivo e paciente em Nosso Segredo. Nota-se a existência de duas presenças sobrenaturais e invisíveis no espaço claustrofóbico da casa — o longa se passa quase integralmente em seu interior. A primeira delas é a do próprio ente querido que partiu: o pai de Tutu, de Grazi (Jéssica Gaspar) e de Guto (Flip), e marido de Suely (Ju Colombo), cuja ausência abriu os abismos que os desafiam. A segunda é algo que somente o pequeno é capaz de sentir. À medida que as situações e os conflitos familiares passam a exigir reaproximação e a reativação dos sentidos nas relações, Tutu se torna cada vez mais próximo desse “segredo”, até que ele se revela como uma questão antiga, uma herança ancestral que demandará união para ser superada — ou ressignificada.
Nos personagens (e em nós, espectadores) se acentua, outrossim, de forma progressiva, uma angústia, uma sensação de nó na garganta, diante das muitas feridas não cicatrizadas e, sobretudo, da incapacidade de comunicação entre eles, potencializada pelo sensível trabalho de som, que emula a recusa da escuta na busca pelo silêncio ou da sonoridade incessante. A ponto de gestos singelos, como retirar um fone de ouvido, oferecer um abraço, aconchegar-se sob uma coberta infantil ou acolher o sorriso de um desconhecido, adquirirem uma dimensão imensa e comovente, tal qual o certeiro equilíbrio que Grace Passô estabelece entre os estados complementares de desconforto e alívio.
No fantástico reside a metáfora ideal para a expressão da dor, para dar vazão ao que não foi dito, para fazer desmoronar aquilo que precisa ruir, e que será depois reconstruído de mãos dadas. Grace Passô nos recorda que a família são nossos amores mais antigos – e, por meio de uma narrativa permeada por simbologias, estados de transe, pela sensação de suspensão temporal e pela vastidão de significados e reflexões possíveis, transforma Nosso Segredo em espelho de tantas famílias pretas que conseguem converter um problema aparentemente insolúvel em afeto, recomposição de forças e reapropriação das memórias e dos sentidos que um dia ficaram na faixa de pedestre.
English Version: Our Secret
“What have you been forgetting in the middle of the street? What have you been leaving behind at the crosswalk?” The reflection sounds like advice from a friend or a thought proposed by a therapist. In the context of the prologue of Our Secret, the first feature film by Grace Passô, which premiered in the Perspectives section of the 76th Berlinale, it is an unpretentious dialogue between two strangers inside a ride-share car. Perhaps the fullness of listening and understanding truly opens itself only in these chance connections, since the workday and the exhaustion of routines enclose us within our own existences, dulling our senses to those beside us, to what stands an arm’s length away, or to what hovers above our heads, on the verge of collapse. We become blind, deaf, and mute by choice and convenience. We grow incapable of noticing the smile of the recycling collector on the truck that interrupts our way—we see only the obstruction, as the driver Gilson (Robert Frank) does. Our vision has grown clouded; our sensitivities, inert. When will we retrieve what we have forgotten and abandoned along the way?
Inside the house-character of Our Secret, an entire family has become blind, deaf, and mute as a result of the suffering brought on by the unresolved loss of a loved one. Among a mother, children, and uncles incapable of communicating or seeing one another, only little Tutu (Efraim Santos) preserves his senses through his innocence and childlike language, bearing the heavy burden of his family’s pain. He expresses it through a metaphorical illness and speaks to a mysterious presence in the house through the gutter pipes. The boy talks to and feeds, with avocados and watermelons, that which we cannot see, yet no one seems to notice the strangeness of his behavior.
It is important to contextualize that this house (where the director lived in childhood), located in Belo Horizonte, shelters a large Black family made up of representatives of different generations, and the ancestral bond—the collective memory that remains—is also in the process of erasure. Grace Passô brings us close to these people who, although experiencing disconnections and challenges that create distance, are marked by affection and care, yet need an impulse to come together again and remember that what sustains them is much stronger than blood. Considering that Black families had their histories and pasts strategically erased by the violence of slavery, allowing and endorsing separation becomes a way of continuing that process. And it is through the figure of the youngest—Tutu, whose vision has not yet been numbed—that the rescue of ancestry will take place.
This reunion with roots occurs, therefore, through the child and, through him, also through the fantastic. The spectral atmosphere, as well as our curiosity, grows progressively and patiently in Our Secret. One notices the existence of two supernatural and invisible presences within the claustrophobic space of the house—the film unfolds almost entirely inside it. The first is the very loved one who departed: the father of Tutu, Grazi (Jéssica Gaspar), and Guto (Flip), and husband of Suely (Ju Colombo), whose absence opened the chasms that challenge them. The second is something only the little boy can feel. As family situations and conflicts begin to demand reconnection and the reactivation of the senses in their relationships, Tutu becomes increasingly closer to this “secret,” until it reveals itself as an old matter, an ancestral inheritance that will require unity to be overcome—or re-signified.
In the characters (and in us, the viewers), there also progressively intensifies an anguish, a lump-in-the-throat sensation in the face of many unhealed wounds and, above all, their inability to communicate, heightened by the sensitive sound design, which emulates the refusal to listen in the pursuit of silence or of incessant noise. To the point that simple gestures—such as removing an earphone, offering a hug, curling up under a child’s blanket, or welcoming the smile of a stranger—acquire immense and moving significance, much like the precise balance Grace Passô establishes between the complementary states of discomfort and relief.
In the fantastic lies the ideal metaphor for the expression of pain, for releasing what was left unsaid, for bringing down what needs to collapse—and which will later be rebuilt hand in hand. Grace Passô reminds us that family consists of our oldest loves—and, through a narrative permeated by symbolism, states of trance, a sense of temporal suspension, and the vastness of possible meanings and reflections, transforms Our Secret into a mirror for so many Black families who manage to turn an apparently unsolvable problem into affection, a restoration of strength, and the reclaiming of memories and senses that were once left at the crosswalk.

