O Deserto de Akin | 2024
O programa Mais Médicos, projeto do Governo Federal de 2013 que ampliou a assistência de saúde às comunidades periféricas e remotas, onde o sistema básico de saúde é insuficiente, de difícil acesso ou, ainda, simplesmente inexistente, trouxe, durante toda sua extensão, mais de 10 mil médicos cubanos às mais diversas regiões brasileiras. Através desses profissionais, o direito à saúde chega às comunidades ribeirinhas, indígenas, sertões e regiões de vulnerabilidade social. Em 2018, o governo de extrema-direita trabalhou pelo desmonte do programa, que foi renomeado como Médicos pelo Brasil, provocando a saída de Cuba e seus profissionais. Em 2023, o programa foi retomado sob o título anterior, resgatando a parceria internacional para adesão de médicos estrangeiros.
É justamente no contexto eleitoral de 2018 que O Deserto de Akin, longa de Bernard Lessa que foi exibido no Festival do Rio 2024 e estreia nos cinemas brasileiros em 31 de julho, situa seu protagonista-título. Akin (Reynier Morales) é um médico cubano integrante do programa federal, e atua em comunidades indígenas e ribeirinhas no estado do Espírito Santo. Vivendo no Brasil há um ano, o profissional traça sua jornada firmando laços de afeto com Érika (Ana Flavia Cavalcanti) e Sérgio (Guga Patriota), experienciando e aderindo a rotina local, enquanto luta pelo mínimo existencial de seus pacientes. A ascensão da extrema-direita coloca em cheque sua permanência no Brasil e, via de consequência, gera um impasse no seu processo pessoal de pertencimento no ambiente estrangeiro.
Há uma fluidez naturalista na condução de Lessa do percurso sempre constante de Akin. Muito embora feito de altos e baixos contextuais, de instabilidades e inseguranças diante da situação político-histórica vivenciada pelo Brasil, e que reverbera diretamente também na vida dos estrangeiros, O Deserto de Akin se mantém afastado de picos emocionais e narrativos. A calmaria misteriosa do protagonista é uma permanente que vai tanto diferenciá-lo da mecanicidade do exercício da profissão, como ditará a cadência do longa. Akin soa como um ser desprovido de amarras e compromissos para além da profissão, que vive o presente e se deixa levar por ele.
Como profissional, não hesita em explicar, mais de uma vez, a necessidade de uma cirurgia oftalmológica para uma paciente criança de uma comunidade indígena. Ainda que com um portunhol, esforça-se para ser compreendido por pessoas simples e de cultura diversa da sua, que, tal como a mãe da menina, conformam-se com suas vulnerabilidades. É cristalina a intenção do diretor de evidenciar a importante humanização trazida pelo programa e seus representantes, e Akin se mostra um personagem tão humano quanto seus pacientes, e portanto, o representante perfeito para a visão progressista do projeto.
Como pessoa, Akin encarna o distanciamento do estrangeiro que não só hesita, mas tem dificuldades de se aterrar na nova terra. Diga-se, no caso, nem sequer tem tempo suficiente para tanto, já que após um ano de permanência e quando seus afetos estão se tornando mais firmes, se vê obrigado a deixar o Brasil. Inclusive, a grande quebra da constância de O Deserto de Akin girará ao redor da decisão de enfrentamento das imposições do governo através do dilema da interrupção do programa a que faz parte.
Tão fluída quanto o filme é a sexualidade de Akin, cuja atração pelo outro vai ser modulada não pelo gênero, mas pela experiência e por sua naturalidade em vivenciar o presente. Em que pese pareça manter um relacionamento fixo com Érika, sente-se atraído por Sérgio e vai viver também com ele uma história, formando-se um triângulo de resistência, em representatividade, ao sistema politicamente opressivo de minorias que se forma.
Ainda que não saibamos (e não interessa saber) o que levou o protagonista até o Brasil e não haja informações sobre sua situação pretérita, o diretor vai usar de uma simbologia até destoante, mas ainda assim fluído, para informar, através da presença de cobras ao redor do personagem, e com quem ele mantém uma certa relação de respeito e amizade, e da areia, a existência de um passado que ainda o persegue e finca raízes. A areia é, metaforicamente, um terreno inseguro, inconstante, bem representativo de onde Akin se situa.
Se a regularidade rítmica de O Deserto de Akin é fruto dessa fluidez de um personagem propositalmente distanciado, também será sua vulnerabilidade. A falta de ápices narrativos e a desconexão emocional decorrente da situação de estrangeiro afasta também o espectador e torna tudo um tanto cansativo, principalmente quando deixa sua maior revolução para o final, e ainda assim, quando ela ocorre, é morna, óbvia e um tanto duvidosa quando pensamos nas suas consequências práticas.
O deserto é imensidão infinita e feita de areia, matéria orgânica instável, que afunda ao pisar, o dilema entre local de origem e o estrangeiro onde o médico tenta, às duras penas, conciliar para fixar raízes. Akin flui entre aterrar ou manter-se distante, e fincar seus pés para construir sua morada pessoal e concreta é sua maior jornada.
