O Último Pub | 2023
Um retrato dos efeitos do neoliberalismo e da xenofobia crescente no Reino Unido
O cinema de Ken Loach, duas vezes premiado com a Palma de Ouro com Eu, Daniel Blake em 2016 e Ventos da Liberdade em 2006, é marcado pelo seu posicionamento político notadamente marxista e pela forma arguta com que aborda temas relevantes para a contemporaneidade.
O cineasta britânico de 88 anos possui uma carreira longeva e premiada. A idade avançada poderia sugerir que ele já não dirige mais filmes; contudo, enquanto as agruras da modernidade continuam a nos afetar, ele parece continuar trabalhando e expondo sua visão crítica sobre assuntos relevantes. Seu novo longa, O Último Pub, é prova disso.
Se com Eu, Daniel Blake Loach expõe toda a perniciosidade das reformas previdenciárias, e em Você Não Estava Aqui (2020) aborda os efeitos deletérios da uberização e a introjeção da racionalidade neoliberal como uma forma de viver, em O Último Pub o diretor traz uma narrativa envolvendo imigração e xenofobia.
O filme narra a chegada de Yara e outros imigrantes a um vilarejo da Inglaterra, cuja atuação dos mineiros foi, outrora, bastante destacada. O ar decadente daquele local, que havia sido palco de intensa atividade industrial, contrasta com a chegada dos imigrantes, que veem ali uma oportunidade de recomeço e um local onde o futuro poderia trazer novas e melhores condições de vida.
Contudo, não demora muito para que surjam atritos entre os imigrantes e os moradores do vilarejo, com grandes pitadas de xenofobia. Em uma das cenas mais emblemáticas, a personagem Yara (Ebla Mari), a única do grupo de imigrantes que fala inglês com fluência, tem sua câmera fotográfica, com a qual registra o que ocorre ao seu redor, quebrada impiedosamente por um dos moradores do local.
Um oásis em meio a todo esse ambiente de hostilidade é a figura de T.J. Ballantyne (interpretado de forma muito competente por Dave Turner) e sua esposa Laura (Claire Rodgerson), proprietários do pub The Old Oak. Eles são bastante generosos e receptivos com os recém-chegados, embora seu pub seja a única opção de lazer para aqueles senhores aposentados, inclinados a destilar suas opiniões racistas e xenófobas entre um pint e outro.
É extremamente interessante a ideia do diretor de situar a narrativa em um local onde os mineiros tiveram muita força e, a partir da luta conjunta por melhores condições de trabalho, desenvolveram fortes laços entre si, sobretudo pela luta sindical.
Em uma das cenas do longa, no prédio do pub, T.J. mostra a Yara fotos antigas da luta dos mineiros, sua união e força coletiva. Há algo de bastante interessante em mostrar que aquela coletividade, quase toda formada por ex-mineiros e forjada em intensas e difíceis lutas trabalhistas — sendo a mais emblemática delas a greve dos mineiros de 1984, que, nas palavras de Mark Fisher, foi uma “poderosa imagem simbólica” da derrota do operário-massa fordista — acaba se transformando justamente naquele grupo xenófobo.
Assim, O Último Pub eleva seu patamar ao estabelecer uma conexão entre a derrota trabalhista/sindical dos mineiros, no que foi chamado de “assalto thatcherista contra os mineiros”, e o fato de que essa derrota pode ser considerada um marco do fortalecimento da governamentalidade neoliberal de Margaret Thatcher no Reino Unido. Políticas essas que, atualmente, podem ser vistas como uma autêntica “forma de pensar o mundo”, pautadas na concorrência, no individualismo, na noção de “meritocracia” e na degradação dos laços sociais. Isso estimula uma forma de pensar excludente, levada a cabo justamente por aqueles mineiros que sofreram o duro golpe na década de 1980.
A forma como essa transformação no pensamento e na condução das lutas coletivas daquele grupo de trabalhadores aposentados — transformação atrelada à “neoliberalização” na forma de agir no mundo —, é bastante refinada e constitui um dos pontos altos do filme.
É importante ressaltar que o uso do termo “racionalidade” não é em vão, pois visa chamar a atenção para essa mudança cultural que traz novos parâmetros do que pode ser considerado aceitável ou absurdo. A lógica concorrencial, “cada um por si”, que advém dessa destruição das conexões sociais se torna muito clara em cenas que exploram o ressentimento da população local com os “benefícios” que os imigrantes estariam recebendo ao se estabelecerem ali.
A partir dessa lógica de que “tudo é direcionado a eles” (os imigrantes) e nada é direcionado aos “legítimos moradores” do vilarejo, o diretor pontua as fricções que ocorrem, seja por parte das crianças que se irritam ao ver que as crianças imigrantes ganharam presentes novos, seja por parte dos idosos que acreditam piamente que suas casas sofreram desvalorização com a chegada da nova vizinhança. Não é à toa que o grande geógrafo brasileiro Milton Santos afirma que “a competitividade, sugerida pela produção e pelo consumo, é a fonte de novos totalitarismos, mais facilmente aceitos graças à confusão dos espíritos que se instala”.
Essa construção narrativa feita por Loach tem o condão de tocar espectadores de diferentes locais do planeta onde esse “fenômeno” ocorre. Afinal, não é apenas no Reino Unido que se utiliza o ressentimento, sobretudo, das classes médias para direcionar ódio a grupos marginalizados.
Quanto ao ritmo de O Último Pub, parece haver alguma dificuldade, sobretudo porque a sua temática central é reiterada o tempo todo, o que parece ser uma intenção de evidenciar o teor político e crítico do filme. Isso pode impactar negativamente o espectador, tornando cansativa a experiência.
Ao dotar as cenas finais do longa com a humanidade característica de sua obra, o diretor acerta ao trazer um grande grau de honestidade ao filme. Ele deixa claro que, em situações tão sensíveis quanto às expostas em O Último Pub, na “vida real”, não há soluções rápidas ou fáceis, mas sim, tentativas de solução que passam por uma série retrocessos e rupturas.
