Oasis | 2025
“Em meio a esta América Latina convulsionada, o Chile é um verdadeiro oásis com uma democracia estável”. A frase do ex-presidente Sebastián Piñera é suficiente para que os diretores Tamara Uribe e Felipe Morgado façam do documentário Oasis uma resposta em amplo contraponto ao que foi dito pelo político em 2019. Posta em tela como abertura do longa, ela é seguida por uma oposição imagética potente: pessoas se divertem num mar espumoso e poluído numa área cuja praia é cercada por indústrias. O filme, que foi exibido na mostra Fórum da 74ª Berlinale e no CPH:DOX, e que faz parte da Mostra Territórios do 19º CineBH, fragmenta um país inteiro em picotes de imagens, contextos e temáticas, tão desunidos quanto o próprio território e povo que representa.
Oasis é um filme coletivo. Através da visão de 15 câmeras, realizou-se ao longo de três anos, em acompanhamento ao processo constitucional chileno que veio como consequência de uma gigantesca onda de protestos, ocorridos em 2019, em oposição ao governo de extrema-direita de Piñera e em reivindicação por direitos sociais. Durante o movimento, foram mortas 20 pessoas e mais de 1000 foram feridas pela truculência policial. As imagens registradas por essa coletividade de cineastas fazem uma varredura pela vastidão do país, das capitais aos territórios esquecidos e marginalizados, percorrendo a diversidade temática da discussão e sua oportuna seletividade.
Fala-se de meio ambiente, extrativismo, violência policial, crueldade animal, feminismo, dos direitos dos povos originários, politicagem, desinformação, coronavírus, anticomunismo, contaminação de pessoas por arsênio: uma gama infinita de tópicos que, na fazedura de uma nova Constituição, deveriam ser considerados. Os diretores permitem que tiremos nossas próprias conclusões através de imagens que vêm desacompanhadas de uma linha temporal evidente ou de qualquer recurso que as conecte de um modo mais didático ou linear. Confia-se na montagem e nos símbolos e ideias políticas proporcionadas pela relação que o próprio espectador vai fazer entre elas.
Inexiste eixo. Os diretores transitam por entre contextos de forma abrupta, indo e voltando em temas e abordagens livremente. A escolha por essa aparência de liberdade e desorganização se dispõe a causar dois efeitos. O primeiro é que essa aparente bagunça se preza a refletir o estado de espírito de um país, ele mesmo, politicamente fragmentado, e a forma como assuntos de suma importância são discutidos às pressas, em recortes insuficientes a contextualizar ou instruir, emulando o ritmo das redes sociais. O segundo, porém, é, quiçá, o maior ponto de incômodo de Oasis: o desarranjo soa incalculado. A desordem finda por desconectar nossa atenção por sua aparente aleatoriedade, e é muito tênue a linha que divide o filme entre o planejamento e a negligência.
O que parece um discurso de atenção às mudanças climáticas, se torna o registro dos protestos de 2019, que saltam para comunidades que discutem democracia pela participação e direito de opinião de todos os povos chilenos, a incluir a população originária, feminina e não-branca. Oasis retorna aos protestos, dessa vez para trazer à baila o recorte feminista (branco), que brada “o estado opressor é um macho estuprador” – e, diga-se, o aspecto ensaiado e coreografado do discurso me remete o ofensivo A Onda, novo longa de Sebastían Lélio. Do feminismo, somos levados ao processo constitucional, o anticolonialismo discutido em edifícios regados à pinturas de caravelas e conquistas européias, em sessões contínuas de 15 horas, estresse e exaustão, que considera o cansaço de seus parlamentares, mas invisibiliza faxineiras e trabalhadores do local. Os diretores são eficazes no impacto certeiro proporcionado pelas imagens, mas há o perigo de que tudo soe apenas individualmente expressivo.
Piñera, almejando impor uma pretensa hierarquia entre países latinos ao exaltar a estabilidade democrática de seu país, tem seu argumento derrubado com facilidade por Oasis, por imagens que falam por si só. Entretanto, o filme escorrega e transita fácil entre a ideia de representar, estrategicamente, o caos generalizado de um país e fazê-lo de modo realmente desordenado, ao ponto da exaustão do próprio espectador, que pode sair da sessão apenas levemente melhor informado sobre a realidade política chilena – que tanto se assemelha à brasileira.
